Relação de amor e ódio

Com certeza você já assistiu um daqueles filmes americanos em que um rapaz bonzinho, que acaba de se mudar pro subúrbio se matricula numa escola é o completo caos e os caras malvados fazem de tudo pra sacanear o cara que só quer estudar.
Essa é uma história parecia. Mas não sou eu na história, não. Pelo menos não sou só eu.

Admire a foto acima. Aposto 20 por meio que um dos dez pensamentos que vieram à sua cabeça foi “que nojo”.

Esse, amigos, é o banheiro masculino da Escola Estadual “Professor Bruno Pieroni”, escola que estudo há 7 anos e que agora você pode ver pelo Google Earth se conseguir encontrar a pacata cidade de Sertãozinho. Pela nova atualização do Google Earth, consigo ver minha casa e os vizinhos que têm piscina e que nunca me chamarão pra dar um mergulho, coisa que não faço em água doce faz uns 3 ou 4 anos.

Mas meus banhos de piscina podem esperar um pouco.

Fato é que minha amada escola está sendo alvo de bandidinhos de segundo nível. Daqueeeles ladrõezinhos de relógio que se acham donos do tráfico, que andam de Caloizão de 1984 herdado do Tião da borracharia. Aqueles bandidinhos que só te botam medo porque você sabe que eles nunca vêm sozinhos, sempre com seus ‘trutas’ e ‘manos’ com bonés de crochê do Corinthians. Aqueles que só pegam as ‘minas’ que usam 30% da roupa original, que estão morando com o namorado 26 anos mais velho porque estão grávidas de poucas semanas e as mães, abandonadas pelos não menos bandidos pais.

É um ciclo que pena pra ser interrompido.

Felizmente sou preconceituoso quanto a isso. Tem classes que são 90% formadas por essas crianças estereotipadas supra citadas. E essas turmas são responsáveis pela situação que se encontra o local da foto.

Aqui a gente aprende no hardcore mode. Escola pública deixa a gente pronto pra vida sim: pronto pra qualquer porrada que seja. Podemos ser humilhados, abaixados, o que for – Seguiremos como uma pedra porque sabemos que já encontramos coisa pior na escola.
E aqui aprendemos também um ditado de fácil entendimento: O que bandidinho exige, bandidinho consegue.

Por causa de uma classezinha formada por moleques desses, perdemos a única televisão decente com som decente e home theather. Como? Você pergunta.
Simplesmente porque não queriam ter mais aulas. O que queriam era só assistir filmes todos os dias (todos mesmo). Todo dia o “carrinho” com a televisão tava na sala deles.
Mas um dia negaram isso. “Ok, vocês não vão ver mais filmes” – disse a diretora. O que fizeram? Quebraram o carrinho e o DVD.


– Meu Deus, cara! O que fizeram com sua bicicleta!! Como cê vai voltar pra casa agora?!

Engraçado. Tinha deixado o post no meio antes de desligar o computador ontem, e hoje aconteceu algo curioso.
Você descobre que tem moral de verdade quando a diretora chega pra você e fala “Preciso falar com você, pega a chave ali e vai abrindo a porta da sala e tirando a roupa que eu já vou”.
Lá entrando, reparo em cima do armário e comento:
– Foi boa a festa aqui, hein? – apontando com a cabeça (??)
– A gente pega isso de aluno.

Em cima do armário citado, haviam 5 ou 6 garrafas de bebida, breja forte mesmo. Tinha de tudo: whisky, conhaque, uma garrafinha de água mineral que eu desconfiei ser vodka e um garrafão de vinho Chapinha.
Se fosse uma faculdade, pessoal formado e tal, nada demais – até bom aprontar às vezes. Mas imagina tu entrando nesse mesmo banheiro da foto e ver um pessoal tomando conhaque no bico e achando super engraçado. Agora imagina que uma criança de dez, onde anos entra, vê a cena e alguém oferece – claro que não vão oferecer, conhaque é caro pra burro.
Só que ninguém faz nada.

Eu amo aquela escola mas tenho vergonha do que acontece ali. Não tenho medo de dizer uma coisa que soa tão babaca, mas gosto do Bruno Pieroni, gosto dos professores e gosto das tiazinhas que davam comida boa pra gente antes dessa invenção brilhante chamada de Período Integral na Escola Pública.

Período Integral… se a molecadinha que fica na escola até as 6 da tarde tivesse mais aulas de verdade em vez das babaquices que aprendem (teatro, noções de ética e cidadania… haha, piada mesmo), faria alguma diferença. Mas não.
Sabe presídio, onde presos fingem que estão presos e policiais fingem que estão vigiando? Então, nesse Período Integral acontece o mesmo. Enquanto os professores tentam passar alguma coisa útil pra essa molecada que necessita disso, ele destróem a escola. Arrancam e cortam cortinas, derrubam portas e arrombam maçanetas, até urinam em grupo no fundo da classe. Fora o relógio que eu levei pra minha classe, que tinha conquistado o carinho de todo mundo. Ele faz falta. Esse lance aí serve pra deixar a molecada de barriga cheia, pra deixar eles em casa, pra mãe não precisar ficar preocupada com ele jogando bola com os amigos no meio da rua.

Vou votar no candidato mais underground que encontrar, mas quero votar com consciência de que ele, se eleito, fará alguma mudança nisso. Cansei de ficar tentando aprender num ambiente subdesenvolvido daqueles. A diferença de uma escola pública pra uma particular é incomparável.

Desculpem pelo post que fala, fala, fala mas não diz nada. Foi escrito com dois sentimentos inversos mas por demais parecidos – amor e ódio. A vontade de fazer algo por essa escola é grande, mas alguns fatores impedem. Não se pode mudar o lugar que se estuda chutando aqueles que atrapalham. São eles que necessitam mais educação.

Mas será que a diretora não deu nenhuma bicadinha no conhaque? Quem sabe.

Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

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