O Bônus depois dos Créditos: Caos no Cinema Clandestino

Maurício era um cara que sabia o que era diversão. Topava qualquer joguinho, qualquer disputa, não abria mão de fazer o que gostava. Era um cara atualizado, daqueles que você pode perguntar sobre qualquer coisa e receber uma resposta no mínimo inteligente. Todos gostavam de Maurício. Todos, menos aqueles que tentavam se tornar mais íntimos dele. Para Maurício, seus amigos eram apenas ícones: cada amigo tinha uma função diferente, era só executar o amigo certo.

Um exemplo era sua amiga Martinha, que certa vez o convidou a ir ao cinema. Maurício a princípio não queria ir e só topou porque todos os servers de WoW haviam entrado em manutenção.

Martinha, como era de se esperar, tomava todas as decisões: o filme que iriam assistir, comprou a pipoca e os ingressos e escolheu as poltronas. Cheia de segundas intenções, escolheu poltronas para namorados, olha só que safadinha. “Olha, tem suporte para refrigerante e apoio para os pés! E as poltronas ainda inclinam!”, disse Maurício ao sentar-se em seu lugar. Martinha estava provocante, uma saia jeans curtíssima e uma blusinha branca, cabelos presos com a franja dando um toque bem sensual nos seus cabelos ruivos. Maurício, se fosse um rapaz normal, sairia do cinema pai de trigêmeos.

Durante uma cena de beijo, Martinha, adivinhem, toma a iniciativa.
– Olha, Maurício, essa cena me dá tanta vontade de…
– Se você falar durante o filme, eu mato você.
– Ai, seu grosso! – Martinha pegou sua bolsa e foi embora. Maurício só sairia de lá depois dos créditos.

Para Maurício, aquela experiência – que não havia sido a primeira – tinha sido irrelevante. Martinha era como qualquer um dos outros ícones e, sabe-se lá porque, a Área de Trabalho de Maurício era lotada deles.

Um dos passatempos favoritos de Maurício era conversar com todos os seus contatos assim que eles ficavam online. Não importa o número de pessoas, Maurício tentava falar com todas elas ao mesmo tempo, cada uma sobre um assunto diferente. Certo dia ele conheceu uma garota chamada Marcela.

– Oiee, td bom?
– Tudo, e contigo?
– Ahh td bem!
– Que bom! O que fazes de bom no momento?
– Ahh acabei de sair do banho rsrsr tô de toalha
– Ahh tá frio por aê? Pode pegar uma gripe hein!
– Nada!!! Tá mó calor…
– Ahh, então é melhor ficar de toalha mesmo kkk
– Rsrsr comprei uma webcam hoje, vamo testar?
– Claro!

***M@rcelinh@*** deseja uma Conversa com Vídeo.

* Você atendeu a chamada.

– NOSSA, OLHA SÓ! LANÇARAM OUTRO JOGO VIA MSN! VAMOS TESTAR! – diz Maurício

* A sua Conversa com Vídeo foi encerrada.

* Você convidou ***M@rcelinh@*** para iniciar a opção Campo Minado 2. Você pode aguardar uma resposta ou Cancelar (Alt+Q) o convite pendente.

Marcela não aceitou. Maurício a bloqueou de sua lista e convidou outro amigo para jogar. No fim das contas, o jogo não havia mudado muito mesmo.

Até que um dia Maurício conheceu Marina através de um mega-chat que o pessoal de um fórum havia “organizado”. Depois de se adicionarem, Marina e Marcelo testaram todos os novos lançamentos de jogos para MSN Messenger e trocavam vários URLs interessantes como vídeos do YouTube e joguinhos em Flash, trocaram convites de sites pagos de torrents e haviam chegado à conclusão de que não apenas se davam bem demais, se completavam. Dali para um encontro não demorou muito: no sábado, Maurício passaria na casa de Marina para levá-la ao cinema.

Maurício, diferentemente do que sempre acontecia, tomava as decisões. Escolheu um bom filme – que era de agrado de Marina também -, comprou a pipoca e os ingressos. Maurício parecia outra pessoa, estava muito safadinho aquela noite: até poltrona de namorados havia reservado. “Saca só essas poltronas, que legais!”, disse Maurício. “Tem até suporte para copo”, disse Marina, empolgada.

E novamente, durante uma cena de beijo…
– Olha, Marina, essa cena me dá uma certa vontade de…
– Se você falar durante o filme, eu mato você.
– Nossa, rs, mas o clima tá tão bom que eu vou te… – e Maurício foi chegando mais perto de Marina.
– *TILIM*CLOC*CLECK*TCHE-TCHÉ* *BLAU*
– Eu tava falando sério.

Todos saíram gritando da sala de cinema com apenas 42 minutos de filme. Marina só sairia dali presa – depois dos créditos, claro.

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Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

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