Respeite o seu nariz enquanto você ainda pode usá-lo

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A próxima vez que eu levar um soco no meio da face, daqueles de afundar o crânio mesmo, eu vou sorrir. Sorrir porque ter um nariz a ser esporreteado por um punho é algo que, hoje reconheço, me deixa feliz.

A segunda-feira começou normal, embora o horário fosse diferente. Acordei, tomei um banho caprichado – lavei até as orelhas, coisa que não fazia desde, sei lá, 1998. Coloquei minha melhor roupa, fiz aquele penteado cabuloso e botei meus óculos. Me olhei no espelho e disse: Cara, você é lindo. Em seguida botei minha melhor meia e calcei meus tênis. Minha armadura estava completa agora.

Eram 5:40 da manhã. Cheguei ao hospital e sentei-me de frente para a televisão, de modo que conseguisse ouvir o que os “apresentadores” do TELECURSO 2000 estavam dizendo. “Não aprendi nada disso na escola, não sei porque ensinam isso”, dizia minha mãe, ao ver a fórmula de Báscara.

Meus joelhos de certa forma tremeram quando o enfermeiro veio me chamar pra subir. Afinal, eu conheceria os companheiros, o leito e a cela, digo, o quarto ao qual ficaria preso pelo próximo dia. O hospital forma um confuso labirinto de dobras e curvas, corredores iguais e placas mal colocadas de forma quase proposital, a fim de deixar o “hóspede” confuso e fazê-lo voltar ao quarto o mais rápido possível numa situação de fuga. Os quartos eram terrivel e assustadoramente normais, nada como você vê em Smallville, onde cada um ficava em um quarto azulzinho, com cortinas bonitinhas e aparelhos novinhos. A campainha que acionava os enfermeiros era uma adaptação mal feita de um interruptor, que por si só já foram colocadodos de forma totalmente errada. Se o quarto fosse habitado por três tetraplérgicos e um deles entrasse em combustão instantânea aleatoriamente, os outros dois não alcançaríam a campainha e ninguém ficaria sabendo.

Assim que me acomodei, conheci meus companheiros de quarto. Um senhor que acabara de retirar um tumor da próstata e Nilton, que havia DESTRUÍDO o dedão do pé direito. Quando perguntei como Nilton havia feito tamanha merda, ele disse que foi num acidente de moto e que ele estava certo. Porém, Nilton era um daqueles caras que você olhava na cara e falava “ih, esse fez merda” – mesmo porque você nunca vai encontrar alguém que sofra um acidente de moto e diga “eu estava errado”.

O enfermeiro então entra na sala e me dá um pedaço de pano e me manda vestir. Como assim vestir isso? – pensei – e wtf, minha bunda vai ficar de fora, assim, de graça? Vesti e saí correndo do banheiro até a cama, segurando a parte de trás da “coisa” fechada até jogar-me na agora tão confortável cama. E ali eu ficaria pelo resto da tarde.

Ingeri um comprimido azul chamado Dormonid. Disseram que era pra abater os meus sentidos gradativamente, até eu cair num sono profundo o suficiente pra me enfiarem coisas pela boca. Depois de tomar aquilo, ainda permaneci acordado por meia hora, mas não lembro muito do que fiz, muito menos de ter pego no sono. O processo cirúrgico todo foi bem rápido, 40 minutos da cirurgia e uma hora e meia até eu recobrar a consciência. Ao acordar com um furo no pé que descobri depois ser um “procedimento padrão”, lembro de um vulto de uma enfermeira dizendo “Vamos?”, depois apago novamente e só sinto ser arrastado hospital abaixo, provavelmente numa daquelas marcantes cenas de hospital onde a cama do paciente é usada pra abrir portas, elevadores, espaço no meio do povo jogado nos corredores…

Eu gostaria de estar acordado. Imagino a cena.

– Agora fica deitado que a gente vai pro quarto, tá?
– Nada, eu posso andar até o quarto.
– Não pode não.
– Posso sim, posso até sapatear, olha.
– Não, você não pode andar até o quarto.
– Curte o sapateado, que beleza hein!
– SINTO MUITO SENHOR É UM PROCEDIMENTO PADRÃO

À tarde, depois de incontáveis horas de sono forçado, fui açoitado por todos os tipos de males possíveis. Uma pequena lista:

  • O catéter, instrumento DO CAPETA enfiado direto na veia (artéria?) que possibilitava os enfermeiros, de forma sádica, chegassem do seu lado com uma bandeja cheia de artifícios malandritos. Num dos ataques, nada menos que duas injeções foram aplicadas uma atrás da outra, sem tempo pra dar aquela tragadinha. Segundos depois meu braço esquerdo ficou gelado e começou a tremer descontroladamente, mas não durou muito – a sensação se espalhou pelo corpo todo e perdeu força.
  • O curativo, uma gase presa no nariz por dois esparadrapos. A gase em si não irritava muito, já que evitava o sangue de chegar à boca, o que seria deveras desagradável, mas os esparadrapos eram coisa de Star Trek, embora eu não saiba o motivo dessa comparação. Os malditos grudavam na pele em nível molecular, quase arrancando um bife do meu rosto a cada troca, que acontecia a cada 6 horas.
  • Filme autista da Sessão da Tarde
  • A destruição das entranhas. Com a garganta completamente destruída pelas sondas, cabos e uma manada de ouriços gigantes que resolveu andar pela minha garganta durante a operação, falar e comer se tornaram obstáculos praticamente intransponíveis. Tamanho era o mal que até hoje, sexta-feira, não consigo comer absolutamente nada.
  • Nilton. O meu companheiro de cela não parava de puxar assunto nem um minuto, às vezes com questões relativamente inúteis como “Onde você mora?” ou “Que time você torce?”. Aliás, após esta pergunta ser feita, Nilton me empresta o celular rolando um vídeo de uma orgia gay, onde vários homens se comiam freneticamente nonstop com o hino do São Paulo tocando ao fundo. Foi engraçado, mas não era o momento. Se falar era difícil, rir era a mesma coisa que eu pedir pra ele brincar comigo de “vamos pular da cama e cair em cima do dedão direito, quem não conseguir tem que dar a bundinha pro Dr. César”.

O último e pior pesadelo aconteceu por volta das 7 horas. Enquanto eu via alguma das novelas noturnas da Globo, se não me engano era Rei do Gado, vi uma manada de mocinhas e homossexuais vestidos de branco chegando na sala dos enfermeiros. Um estalo com a força de uma supernova me veio à mente e eu fiz uma pergunta à Nilton.

– Isso… esses… essas… que chegaram aí…
– Q Q TEM
– Não vai me dizer que é o que eu tô pensando…
– Cara, pior que não sei o que tu ta pensando, então complica.
– ELAS SÃO… ESTAGIÁRIAS? :amd:
– Sim
– GAH

Uma delas rapidamente se espreitou e se posicionou ao meu lado. Seu nome era Josiane, e embora a tara de todos os homens sejam enfermeiras lindas, de voz suave e boa educação, eu não dei essa sorte.

– Oi meu nome é Josiane e qualquer coisa que você precisar pode pedir pra mim, tá?
– ok
– Vamos medir sua pressão? – pra começo de conversa, uma estagiária de enfermagem NUNCA pode dizer “medir a pressão“. A expressão correta é “aferir a pressão“, e a pena para este deslize é ser açoitada com aquela borrachinha marota.
– Claro, ué.

De fato o aparelho não colaborava, mas era clara a inexperiência de Josiane. Ela bombeava o negocinho e o bagulho (veja meu conhecimento na área como é extenso) não saía do lugar, não começava a encher como de costume. “Aparelho ruim, nossa rs”, esbravejava Josiane. De repente, o negócio começa a encher FRENETICAMENTE e ela começa a empolgar, apertando o bagulho até o limite extremo do meu braço, que estava prestes a ser esmagado. Ela então começa a contagem e me dá uma má notícia.

– Não estou conseguindo ouvir.

Todo o processo começou de novo e novamente ela quase implode meu braço. Desta vez funciona, e Josi me diz que está tudo normal. Sabe-se lá porque, ela bota dois dedos no meu pulso e fica um tempo considerável – que eu saiba, é apenas um minuto. Depois, novamente com um insight cabeçal que me é peculiar, descubro o motivo: a novela. Num quarto com dois pacientes, haviam 5 enfermeiras, todas encostadas na cama e viradas para a televisão.

E esta é a história do meu martírio. Por ser uma cirurgia sem urgência, porém necessária, eu escolheria não fazer se soubesse que o pós-operatório fosse tão ruim. Para uma semana sem posts tá ótimo, escrevi pelos cinco dias – mas eu duvide muito que alguém vai ler todo o texto.

Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

9 comentários em “Respeite o seu nariz enquanto você ainda pode usá-lo”

  1. Pô, porque o Vinícius tinha acabado de ganhar a guarda da menininha e ela some no mercado, enquanto a mulher do Gianechinni tava desesperada porque não tinha como pagar a conta e :amd:

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  2. eu amo seus posts, esse aqui tá ótimo, ri igual uma retardada ^^
    vc ainda teve sorte que sua cirurgia não foi no dia de Cinzas (aquele feriado cristão cujo nome correto não me lembro, mas é alguma coisa de Cinzas)
    quando eu estava no hospital no feriado de Cinzas, veio uma velha, aparentemente no bico do corvo, e passou cinza na minha testa!
    foi tipo:
    velha: quer cinzas?
    eu: nã…
    *nem deu tempo, já tinha sujado toda minha testa…*
    portanto uma dica: sempre que alguém velho se aproximar de vc com um potinho com cinzas na mão, fuja, fuja e não volte nunca mais, Simba
    tenha um bom final de semana

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