Resenha: Into the Wild

Pesquisadores do sul da Nova Guiné descobriram que a humanidade pode ser dividida em dois grupos: os que assistem todos os blockbusters do ano e a cada filme descobre o melhor de sua vida; e as que dizem que os melhores filmes são aqueles que você nunca ouviu falar e, francamente, estou começando a acreditar no segundo grupo.

Eu tenho um grande problema, e talvez seja o meu melhor defeito: eu não sei falar bem. Sou satisfatoriamente bom ao falar mal das coisas mas quando a situação requer um elogio, eu consigo argumentar tanto quanto um ganso banhado em petróleo. Essa constatação foi feita com uso de gansos treinados. Não garantimos que nenhum deles foi avariado durante a experiência. Deve haver alguma coisa errada, porque eu simplesmente não consigo achar UM MÍSERO DEFEITO em Into the Wild. E, olha, isso é um bocado difícil de acontecer.

Pelo que conheço vocês, não faz a menor diferença eu colocar diretor, ano, duração, cor, censura. Se for o caso, clique no botão “Foda-se o pôster, quero ver TRAILER”, a melhor invenção deste blog de todos os tempos.


Uma coisa que aprendi com pouca experiência na sétima arte é que existem filmes e filmes. Uns fazem você segurar na sua cadeira e fechar seu esfíncter com zumbis vampiros, caminhões que viram robôs e monstros gigantes indestrutíveis. Outros são experiências psicológicas que provavelmente gastaram pouco mais de duas horas e um estagiário para criar efeitos especiais.

Into the Wild é uma dessas experiências. A primeira coisa que veio à minha cabeça depois de terminar o filme foi “Não vou conseguir resenhar isso”. O filme mexeu tanto comigo que perdi algumas horas de sono lembrando dos melhores momentos do filme – que não são poucos.

Conta a história de Christopher McCandless (no filme interpretado pelo ótimo Emile Hirsch (Show de Vizinha) que, parte pelas idéias dos autores que lê, parte por causa da hipocrisia dos pais e pelas idéias revolucionárias, num belo dia resolve doar todo seu dinheiro para caridade, jogar seu carro numa enchente relâmpago e simplesmente desaparecer. Adota o nome de Alexander Supertramp, ou Alex, talvez para dificultar o trabalho de encontrá-lo, talvez para apagar aquele que um dia foi Chris McCandless. Seu destino é o Alaska, onde viveria no meio do nada e tendo a natureza como vizinha. E o rapaz tá bem de vizinha, já pegou até a filha do Jack Bauer, cara!

Quem nunca pensou como seria botar alguns poucos pertences nas costas e sair vagando sem destino? Fazer amizades que você provavelmente jamais verá novamente, conhecer lugares que não estão no Google Earth, fazer coisas que normalmente faria você correr desesperadamente para a saia da mamãe? Caso a resposta seja NÃO, você é um tanga.

O filme segue esta fórmula básica. Chris – ou Alex – larga uma vida perfeita por aventura e em nenhum momento demonstra arrependimento. Saudade sim, juntamente com o sentimento de estar fazendo algo errado – seus pais, principais responsáveis pela revolta de Alex, não sabem o que aconteceu com o filho.

Alex conhece várias pessoas durante sua jornada – e de certa forma muda a vida de todas elas. Junta um casal de hippies em crise, muda a vida de um velho decadente e sem perspectiva. Eu, particularmente, gosto de personagens não-comuns, pessoas que não são só mais um no meio de muitos. Chris é especial, do seu jeito porra-loca, mas especial.

Prometi que não ia enfiar mais spoilers nas resenhas, então não contarei mais detalhes do enredo. A única coisa que posso revelar é que, no final do filme, uma dedicatória apareceu e uma gigantesca avalanche de neve gelada percorreu minha espinha: o filme é baseado em fatos reais. Como mal havia ouvido falar do filme, jamais desconfiaria disso! Tudo que está retratado no filme, originalmente, está no livro Into the Wild, uma “biografia” de Christopher McCandless escrita por Jon Krakauer. Imaginar que os fatos, os locais e as pessoas daquele filme são reais – claro, com algumas colheres de drama de cinema – é perturbador e fascinante. Não sei porque, mas a imagem do local onde o ônibus em que Chris passou tanto tempo comove bastante.


Na direita, em cima: Chris diante do ônibus, embaixo o ônibus do filme e na foto maior, o
local onde Chris foi encontrado.

Into the Wild mexe com algum instinto bem escondido em cada um de nós. Durante os 150 minutos você não consegue sequer mudar de posição na cadeira. Faz você pensar “Cara, não preciso de cidade”, pegar umas panelas e correr pro meio do mato.

Parte pela trama, parte pelas atuações, parte pela trilha sonora. Não posso ser imparcial ao citar a trilha sonora, composta por Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam – que caso você ainda não saiba, é a melhor banda de todos os tempos deste lado da galáxia. A trilha do filme é o primeiro álbum solo dele, inclusive. E cara, é bom. Muito bom.

Enfim, acho que falei demais e não falei nada. Tarde demais. Pra resumir, Into the Wild é um puta filme e você provavelmente não ouviu falar sobre.

No final das contas, descobre-se que não é uma tarefa fácil resenhar o melhor filme da sua vida. Nota 10, sem choro.

Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

41 comentários em “Resenha: Into the Wild”

  1. Poxa… agora fiquei realmente curioso. Não porque, apesar de já ter lido muitos dos seus posts e praticamente não ter visto elogios, um tempo desse tem acontecido um monte de merda e fiquei puto… e te juro!, pensei seriamente em virar hippie!!11!

    Aí do nada tu vem falando de um filme foda de um cara que se revoltou com tudo e resolve viajar pro nada…
    Amanhã vou assistir esse filme auehaeuhae

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  2. Ouvi falar sobre o filme e me interessei por já ter lido o livro há bastante tempo. Infelizmente morar num fim de mundo tem desvantagens e ainda não veio pro cinema daqui. Não quero baixar só pra ver na telona.
    Btw, ótima resenha (li o livro, dá pra imaginar o filme, né?!) 🙂

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  3. “quando a situação requer um elogio, eu consigo argumentar tanto quanto um ganso banhado em petróleo.”

    já comentei que as suas analogias são as melhores EVER ? :F

    “Aí do nada tu vem falando de um filme foda de um cara que se revoltou com tudo e resolve viajar pro nada…
    Amanhã vou assistir esse filme auehaeuhae”

    mas AMANHÃ NÃO TEM NINGUÉM
    AMANHÃ NÃO !

    caraco, há uma hora atrás olhei na janela do shareaza o progresso do download do torrent que tu me mandou ontem, e estava em 99,60% e SEM FONTES PARA BAIXAR. fiquei puta ¬¬
    mas acabei de olhar de novo e yay, parece que terminou, parece ! 😀
    mas (TRÊS HORAS JÁ, CARAMBA) só vou assistir amanhã.

    mas peraí, amanhã…

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  4. Eu já tinha lido sobre o filme, mas ainda não assisti

    E qdo vc diz q não queria dar mais spoilers sobre o filme só te digo uma coisa:

    “embaixo o ônibus do filme e na foto maior, o local onde Chris foi encontrado.”

    Você contou o final do filme cara =D

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  5. Eu li este livro há uns 5 anos atrás e faço das palavras do Emile H. as minhas: essa história fica na nossa cabeça ficamos imaginando que alguém fez o que todos temos vontade mas não coragem: abrir mão de maravilhas modernas e por o pé na estrada.
    Não acho que Chris morreu triste ou arrependido de ter se “perdido” no Alaska, acho que ele fez aquilo que estava obstinado e o mais emocionante é saber que ele foi feliz o tempo todo, com ou sem amigos, longe ou perto de pessoas que gostavam dele. Li artigos a respeito dele e acredito que essa “jornada” foi o momento mais desenvolvedor para ele, pois era muito intelifente porém tímido, e ao longo da viagem mostrou-se um garoto brilhante e carinhoso.
    Vou assistir esse filme muitas vezes, já sei disso. E recomendo a todos que leiam o livro Na Natureza Selvagem, pois é magnifico.
    Abraços a todos!

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  6. e pra galera que tá reclamando que ele contou o final do filme: até mesmo se vocês lerem comentários num jornal, irão saber que ele foi encontrado morto, senão, qual a emoção deste filme? se ele tivesse vivo, este seria uma história sobre “mochilão”??? voltou pra casa dos pais, trabalhou, se casou…blablabla……

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  7. Perfeitamente, Licia. Na verdade, eu não tinha me tocado de que havia contado o final do filme haha só me avisaram depois.

    Eu tenho uma mania peculiar: vejo o final do filme antes do resto. Sabe-se lá o porquê disso, mas eu gosto de saber o que vai acontecer, depois como vai acontecer. Com Into The Wild foi diferente, não consegui avançar um segundo sequer para não me arrepender depois.

    Se durante o filme há um sentimento de fascinação, de expectativa, sobre qual será a porralouquice que Chris fará em seguida, o livro deve ser absurdamente viciante. Já estou à procura da minha cópia.

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  8. Também vim reclamar que o sr. é um filha da puta e contou a porra do final. Achei a idéia do filme foda, baixei, com essa porra dessa frase na cabeça:

    “o local onde Chris foi encontrado.”

    Morra. Fiquei muito puto quando o muleque começou a morrer e eu só conseguia pensar que você tinha spoilado a porra toda.

    “até mesmo se vocês lerem comentários num jornal, irão saber que ele foi encontrado morto”

    Cara, quem é o desgraçado que vai pesquisar no JORNAL antes de ver a porra do filme?

    EPIC FAIL. Merece até um “PORRA, RAMBO!”

    Mas sim, o filme é muito foda.

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  9. Enfim, como eu esperava…filme fascinante. Assisti no dia da estréia às 23:30 e no dia 23/02 já estava no cinema de novo, em menos de 24 horas, para assistir de novo.
    Esta trilha sonora realmente merecia, pelo menos, concorrer ao Oscar, não pelo marketing em si, mas pelo reconhecimento em Eddie Vedder criar uma trilha linda em cima dos fatos mostrados no filme.
    E Sean Penn está de parabéns. Assisitir a Into the Wild foi praticamente ilustrar o livro de Jon Krakauer.
    Nota 10.
    Abraços a todos

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  10. Lindo filme com final chocante. Eu terminei de ler o livro há menos de um mês e já havia passado alguns dias pensando sobre a história de Chris. Assisti-lo na pele do Emile Hirsch me fez imaginar os detalhes da sua jornada e o terrivel sofrimento até a morte.
    Quanto à trilha sonora, concordo integralmente com você: Eddie Vedder é maravilhoso e o Pearl Jam é a melhor banda da galáxia. Azar de quem ainda não conhece.

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  11. cara vc não o quanto eu já ouvi falar desse filme, só tenho uma pergunta QUANDO É QUE ESSE BENDITO GRANDE FILME VA I PINTAR AQUI NA MINHA QUERIDA CIDADE DE MANAUS? valeu!

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  12. Bom saber que não tô sozinho nessa de achar que a “vida” na cidade, excessiva em todos os sentidos, já era, tem seus dias contados. Se já havia essa percepção antes do filme, ao sair da sala de cinema, a vontade (e o certo mesmo) era passar em casa para não mais que apanhar a mochila.

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  13. Esse filme é maravilhoso e me fez relembrar muito do ano que larguei tudo por aqui e sai para morar e viajar pela Australia. Mas acho que tem que ser feito um balanço nisso, o desapego total a tudo e todos fez ele no final ver que não é tão positivo assim. Life Balance! Isso é importante! e viver o HOJE intensamente Também! Afinal nesses dias de um dia p/ outro já não existiam mais de 150 mil pessoas em Miamar…quase 100 mil na China e tudo rependtino sem avisar. Sei que temos a sensação de que tudo está lá e uma hora vou usar, fazer, ligar, dizer, etc…sinto lhe dizer, mas não é bem assim! Por isso SORRIA! É de Graça ainda!

    Alguém sabe onde achar indicações sobre filmes que não estão pagando para serem comentados??? Não quero Hulk, SpiderMan, Spedy Racer, Homen de Ferro… sou muito mais ter um Herói como o Chris… mas é tão dificil achar info p/ esses tipos de filme. Vc mesmo pode me indicar um…oq acha?

    Bjo & Brazzz

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  14. Pois é… também vivi momentos intensos com esse filme e não o tiro da cabeça. Um dos autores que o cara cita, Thoreau, é muito bom, “Desobediência Civil”. Acho que a gente fica com vontade de fugir também de tudo isso que a gente finge que é verdade.

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  15. O filme é perfeito mesmo, faz você parar e pensar não alguns minutos, mas dias e dias. Adorei. E o engraçado é que sou muito fã do PJ, e com certeza, no ultimo ano este foi o àlbum que mais ouvi em 2008, e mesmo assim não tinha tido “coragem” de parar pra ver o filme.Quanta perda de tempo! Já vi duas vezes, e voltarei assistir sempre que alguém tiver vontade de ver.

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  16. Eu já era apaixonada pela trilha sonora, amo Pearl Jam e a voz do Eddie Vedder. Ontem eu vi o filme e achei fantástico, fiquei um bom tempo pensando em várias coisas do filme. Fantástico, com certeza é um dos meus filmes favoritos. Vale a pena ver o filme, escutar a trilha sonora! Até quero comprar o livro. Recomendadíssimo! Ah, gostei mto da resenha tb!

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  17. De fato cara, esse filme é phoda! Tipo, o mais legal q eu achei foi o fato de ter ido não por causa de sentimento de rebeldia, contracultura, essas bostas…
    ele queria se encontrar, se libertar! o problema maior nem era os pais e a sociedade, era ele! tanto q ele não ligou pra irmã q amava, não ficou com aquela gata dos trailers (q já vivem à margem da sociedade). Ele só aprendeu e se libertou mesmo aqueles segundos antes da morte…..
    se encontrou, e deu a entender pela luz q bateu nele e pela conversa com o velho, q no fim ele encontrou até Deus…

    ai ai….phewwwww
    show!

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  18. Realmente um filme que mexe com nosso íntimo e que nos faz colar o rabo na poltrona (e nos faz até sentir mal por estar tão confortável numa poltrona).
    Como você disse que não conseguiu encontrar um só defeito no filme eu aponto um, muito bobo mas teve. Nas cenas que ele usa óculos, o mesmo está sempre impecável e limpo, sem riscos. Ora, durante um período tão grande viajando, carregando mochila, passando altos perrengues e os óculos continuavam perfeitos? Eu que vivo numa vida moderna, tenho o maior cuidado com os meus e não consigo manter daquele jeito. Isso foi só uma pequena observação de quem usa óculos.
    Obviamente que isso não tem nada à ver com a magnitude do filme e com o fato mais importante, foi a vida real de alguém, que nos esperávamos que ele voltasse, de alguma maneira, pra sua garota, ou pra sua família hippie, ou pra viver com Franz que propôs adotá-lo ou, na última das hipóteses, pra casa, como fez Rambo no último instante do último filme. kkkkkkkk.

    Não teríamos essa preciosidade no livro ou no filme, se MacCandless não tivesse o gosto por cultura e literatura e não fizesse suas anotações. Seria apenas mais um indigente encontrado como muitos outros por aí, que tiveram até uma história parecida, mas sem os registros, se perderam para sempre.

    Parabéns pela resenha e o Blog é ótimo. Já adicionei aos favoritos

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  19. acabei de assistir o filme, to meia em choque ainda, sem palavras, depois eu volto aqui pra falar o que achei mesmo
    realmente muito foda…. nossa! 🙂 otimo post tb

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  20. Cara esse é sem dúvida o filme que mais me tocou a alma.
    Passei a vida toda, ou boa parte dela, questionando os protocolos da sociedade.
    Sempre tive problemas em lidar com pessoas.
    Esse filme foi “O Filme”
    Pegou na veia

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