Anos Incríveis: A Caixinha de Surpresas

Eu tenho três paixões que me fazem acordar todos os dias na esperança de não me jogar na frente de um trem em movimento. Eu poderia citar aqui “famílias, amigos e Godzilla”, mas pareceria simples demais e não haveria como sugar a sua atenção para o restante do post.

Enquanto não estou vendo Godzilla pela décima oitava vez ou observando as mulheres deste planeta, eu provavelmente estou apreciando uma boa partida de futebol. Grande parte destas partidas têm valor nutricional cultural próximo a zero, se você aplicar uma escala que vai de 0, caracterizado por uma partida válida pelo campeonato húngaro de futebol a 14, relativo a uma maratona de filmes alternativos do cinema iraniano.

Dentro de campo, eu posso dizer com toda a certeza do mundo que fui dos piores. Sempre tentei praticar um bom futebol e sempre falhei miseravelmente em todas as tentativas. Minha incursão no esporte bretão aconteceu ao mesmo tempo em que eu largava a mamadeira – o que me faz pensar que, se o futebol me fez largar da mamadeira, estaria mamando até hoje caso vivesse no Suriname.

Depois de anos de sofrimento ao ser sempre o último escolhido nas pelejas escolares, tomei a atitude mais correta da minha vida: era hora de experimentar novos ares e aprender com quem sabe ensinar. Passei então a freqüentar a gloriosa Escolinha de Futebol da Quadra do Zico. O Zico, no caso, era o dono da Quadra, grande metalúrgico, que nas horas vagas fritava salsichas empanadas com solda quente e coliformes fecais.

A Escolinha do Zico era a mais gloriosa escolinha a meu alcance. Jamais iria atravessar meia cidade duas vezes por semana para correr atrás de uma bola dura e pesada por duas horas semanais. O conforto da quadra suja e desgastada do Zico era o suficiente para aprimorar meu futebol-arte adormecido. O que me ajudou a ter me conformado com tal escolha é que Rocky, aquele boxeador que aparece às vezes no Corujão, se tornou o melhor de todos socando pedaços de carne congelada.

Meus amigos me chamavam de Caixinha de Surpresas por dois motivos. O primeiro é que eu utilizava minhas técnicas ninja, nas devidas proporções de um garoto roliço e rosado de 8 anos, para aparecer do nada e não fazer merda nenhuma. O segundo é que eu tinha espasmos de craque, assim como Gohan se tornava o guerreiro mais forte quando não estava enchendo o nosso saco.


Gohan tem uma espada, no entanto a Deusa Atena proibiu os Cavaleiros de usarem armas brancas.

Carlinhos, o treinador, tinha o melhor emprego do mundo: ensinar a criançada a jogar futebol. Isso, convenhamos, no Brasil se torna uma tarefa tão complicada quando ensinar um cachorro a latir ou um gato a miar. Dar uma bola para doze moleques correrem atrás como se fossem zumbis atrás de um pedaço de carne fresca enrolado com bacon e cenouras no seu interior. Zumbis não comem cenouras, aliás nem eu como cenoura, mas a gente também não comia a bola.

Entretanto minha passagem pela gloriosa Quadra do Zico foi curta. Em no máximo três meses, fiz pouco mais do que treinos físicos, táticos e jogatinas desenfreadas do mais belo futebol de salão. O treino físico era simples: alongamentos que eu não conseguia fazer, abdominais que eu não conseguia fazer, flexões que eu não agüentava repetir mais que duas vezes e corridas ao redor da quadra que eu abandonava no final da primeira volta. Acredite: a distância entre a ponta do seu braço e o seu dedão do pé pode se tornar muito grande quando se tem oito anos e o máximo de atividade física que você praticara até então era correr até a casa do seu amigo dizendo que havia zerado Super Mario World.

O treino tático se resumia a duas coisas: apontar e atirar. Se Carlos nos desse canhões e pólvora negra ao invés de bolas coloridas de borracha para acertarmos o gol, quase sempre protegido por Igor, o Índio, teríamos nos tornado pessoas melhores. Creio que durante o pouco tempo que participei dos treinos, a programação mudara somente uma vez. Certa vez tivemos a árdua missão de driblar um ou dois cone e, claro, chutar a gol. Creio que os canhoneiros não tinham que driblar cones antes de atirar nos navios inimigos.

O resto dos treinos era praticamente “bota uma bola no meio da quadra que eles saem chutando”. Minha melhor posição era perto do gol. Do meu gol. Ali eu adquiria alguns bônus de território e me tornava um jogador mediano. Incansável na medida do possível, fazia poucas faltas e não me metia a fazer jogadas de efeito – mesmo porque não era capaz de fazer nada mais plástico do que acertar a parte menos nobre daquele objeto redondo que fica rolando com o bico reforçado de minha chuteira Topper.


Em tempos onde acham o Valdivia craque, eu é que queria apanhar pra me chamarem de craque.

Disputei apenas um jogo “oficial”. Na verdade era um amistoso contra uma escolinha que existia há pouco tempo, chamada Society. O jogo seria no campo deles, e era na categoria Mirim. Não me lembro a média de idade dessa categoria, mas se eu tava no meio era pra ser entre 9 e 10 anos, por aí ó. Jogaríamos no campo adversário e contra a torcida, formada por pais e alunos frustrados por não terem conseguido vaga no time.

Quando Carlinhos me escalou como titular, me senti uma estrela do Rock. Tanto que vesti meu calção ao contrário e fui para a quadra, sem me tocar. Já dentro de campo, fazendo aquecimento, reparei que algo estava errado e corri com a graça de uma gralha depenada até o vestiário, para corrigir a primeira falha do jogo – aliás a única minha.

Depois de tudo acertado do nosso lado, a equipe adversária finalmente chega. Imagine você reunir todo o jardim de infância de um colégio particular, crianças lindas, fofas e rosadas para enfrentar doze cavaleiros medievais com armaduras e armas pontudas do mais duro ferro. Foi exatamente assim que nós nos sentimos. Haviam escalado o time juvenil – leia-se brutamontes que naquela altura já haviam cultivado pêlos pubianos, privilégio que nossa idade não permitia. Tínham quase o dobro de nossa altura, o que prejudicaria bastante a legendária tática do chuveirinho, que consiste em chutar a bola em direção à área e torcer para que ela bata na nuca de um atacante desatento e ultrapasse a linha das traves.

Tive uma atuação apagada, talvez graças à grande – em todos os sentidos – marcação que recebi. Inclusive, um dos titãs encarregados de evitar que eu produzisse alguma coisa me acertou com o golpe mais terrível que todos os planos dimensionais existentes na física quântica somados são incapazes de medir a imensidão da dor: a PAULISTINHA. Imagine um elefante enfiando sua enorme presa de marfim por entre os músculos de sua panturrilha e multiplique isso pelo número de átomos de hidrogênio presentes no universo. Taí, eu desafiei a física quântica e dei a exatidão da dor causada por uma paulistinha bem aplicada.

Aliás se você simulasse um jogo de Tetris usando a quadra e os jogadores, nosso time seria a pecinha falsificada de um quadradinho, enquanto os adversários eram blocos de oito por oito, então dá pra imaginar o tamanho da brincadeira. O mais engraçado era que eles jogavam com uma raça descomunal, como se suas almas tivessem sido penduradas no chaveiro de seu técnico, que era ninguém menos que o próprio Belzebu.


Eu fiquei com o cu na mão no final do filme :

Igor, o índio, que estava apenas como espectador naquele jogo, foi convocado por Carlinhos, o treinador, para reforçar o time. Igor era um pouco mais velho e mais parrudinho que todos nós e provavelmente havia sido benzido pelo pajé de sua tribo poucas horas antes, pois fez uma partida espetacular. Certo que perdemos aquele jogo por doze tentos a zero, mas jogando praticamente sozinho, o nosso papa-capim evitou um vexame ainda maior.

Não que doze a zero tenha sido um resultado digno, mas se eu fosse a uma guerra com seis homens desarmados e enfrentasse uma legião de samurais e voltasse vivo, teria ficado orgulhoso. Quem sabe uma medalha?

Medalha é sempre bom.

Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

14 comentários em “Anos Incríveis: A Caixinha de Surpresas”

  1. UAHEUueaHUEHUAEHUuehu
    Quase me molho de rir em varios trechos…

    “e corri com a graça de uma gralha depenada até o vestiário”

    UAEHAuheuEAHUEahuAEHUE sifudê meu!!11!

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  2. @ Guifig

    Na verdade a paulistinha é realmente na coxa, mas serve em qualquer músculo. Na panturrilha dói pra caralho, assim como no antebraço.

    Não que eu recomende, mas enfim 😀

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  3. Nessas horas, é bom ser menina: no primeiro empurrão que as meninas-cavalas do handebol te dão, é perfeitamente aceitável cair no chão e chorar como… uma menininha. Eu sempre fazia isso. Geralmente eu simulava também um pulso aberto ou um tornozelo torcido. Meu negócio nunca foi o esporte, sabe?

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  4. CARA,
    eu torço pro Corinthians e tudo o mais, mas ODEIO jogar futebol e jogar futebol no videogame.
    Acho que pode ser porquê eu sou menina, ou pode ser por puro gosto meu, mas eu nunca gostei disso.

    Mas então, o fato de ser rosado quando criança ainda te acompanha nos dias atuais, FATO.

    E você não é o Goku, é o Majin Boo.

    CARA, vou falar com você no MSN isso.

    BJS :*

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  5. Eu te entendo cara…

    Em todos os anos de Educação física como matéria obrigatória no colégio, eu sempre era o único aluno da turma ficar em recuperação. To falando sério, eu nunca conheci ninguem, além de mim, que ficou em recuperação em educação física.
    Por meio disso, é possível analisar e chegar a uma conclusão da minha intimidade com atividades físicas.

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  6. Sempre gostei de futebol, principalmente de ficar no gol.
    O ruim de tudo isso, é que quando seu time está perdendo, a culpa é toda da golera!
    O bom é que não não se sente tanto quando se leva uma paulistinha rerere.

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