Sobre Landau, balizas e as cabeças de pedra da Ilha de Páscoa.

Para algumas pessoas, o volante é a extensão do seu próprio braço. É como se o X-Buster do Megaman substituísse seu braço esquerdo e, ao tocar no possante, o carro apenas obedecesse a todo e qualquer comando mental do motorista. Dirigir é apenas atividade instintiva, como comer, andar e falar mal de Naruto.A frota brasileira de veículos é de aproximadamente 20 milhões de automóveis, para mais. Perceba mais tarde como esta informação não irá adicionar em nada o conteúdo do texto.

O ato de guiar um automóvel em geral é uma tarefa fácil. Mais fácil ainda para quem não tem medo de levar consigo retrovisores alheios e chocar-se levemente com para-choques de carros mais caros que o seu. E muito mais fácil para quem passa a utilizar o carro para tudo, usando como desculpa coisas pequenas como buscar o pano de prato que sua mãe emprestou pra Dona Lourdes, ou a panela que seu tio Sérgio deixou na casa do Carlão Mecânico quando fez aquela vaca atolada no domingo passado.

Principalmente para quem acaba de tirar sua carteira de motorista.

Mas não pra mim. Não que seja difícil, mas para mim ainda é um desafio. Posso contar as vezes que ocupei o banco do motorista utilizando apenas os dedos das mãos de um personagem de desenhos animados antigos. A falta de experiência fica evidente quando uma manobra de dificuldade média se torna tão trabalhosa quanto salvar a humanidade de um cometa gigante se aproxima a duzentas vezes a velocidade do som.

Por essas e outras que eu queria ser Bruce Willis.

Vou confessar, eu não sei estacionar meu carro. O que aprendemos nas aulas de baliza é simplesmente um adestramento para fazer o necessário na hora do exame, nada além disso. Não aprendemos a estacionar o carro em vagas onde cabem apenas um carrinho de pipocas ou sequer como entrar naquela vaga que surge do nada, quando aquele moço do Passat percebe que esqueceu a filha em cima do caixa do supermercado e libera a vaga do estacionamento só pra você.

O que eles ensinam é como utilizar as marcações dos carros DELES a seu favor na hora do exame, onde você estaciona entre cabos de vassoura pintados de branco com base de plástico.

Hoje botei minhas habilidades ao máximo. Ao pegar o carro sozinho pela terceira vez, fui praticamente obrigado a estacionar o carango no centro da cidade. Não é necessário dizer que estacionar no centro é terrívelmente impossível, com o agravante de ter como destino APENAS um prédio DE FRENTE para a praça central da cidade. É como viajar para o centro da Amazônia, tropeçar num galho de árvore, cair numa tumba gigante, descobrir uma cidade inteira feita de ouro puro e ainda capturar um pokémon no mesmo dia.

Depois de alguns quarteirões desviando de charretes, cavalos e crianças jogando pião no meio da rua, finalmente avisto a praça. Lá está ela, sempre florida e cheia de gente. “Cheia de gente que vai ficar vendo eu estacionar esta merda”, pensava. A dois quarteirões do trabalho, avisto uma vaga enorme para uns quatro ou cinco carros. Era um lago de águas geladas e azuis envolto por uma vegetação do mais vivo verde, onde mulheres nuas banhavam-se. Como todo viajante do deserto que encontra um oasis, rapidamente arranquei minhas roupas e pulei no lago, estacionando perfeitamente o carro na enorme vaga disponível.

Desci do carro feliz e o tranquei, como todas as pessoas normais que possuem um carro sem travas automáticas fazem. O carango estava lá, posicionado perfeitamente. Todo sereno, com uma feição até sorridente por ter sido tratado com carinho mesmo em uma situação tão tensa. Porém, um quarteirão à frente, encontro uma vaga perfeita para meu possante, a poucos passos do trabalho. Foi como o sol saindo por trás das nuvens numa manhã de domingo. Havia ali espaço livre suficiente para dois carros grandes. Ou um Landau, se você tiver passagem pela Marinha. Pilotar aquilo deve ser como manobrar uma caravela no asfalto.


A Mulher Melancia não tem tanta bunda assim depois que você vê um Landau

Como diria aquele ditado chinês, “em time que está ganhando não se mexe”. Eu sinceramente acredito que todas as maiores cagadas da história da humanidade foram feitas justamente quando tudo estava bom e em ordem, quando algum imbecil desocupado achava que poderia melhorar.

Era um desafio. Eu precisava aprender a estacionar na marra. Eu me julgava completamente capaz de estacionar meu pequeno carro naquela simpática vaga.

Então fui. Voltei ao veículo e confesso nunca ter girado a chave no contato com tamanha confiança. Eu era o ás do volante. Eu era o melhor. Eu era o máximo. Aproximei-me da vaga. É agora. Eu sou o máximo. Seta? Que parem o trânsito, eu sou o piloto de fuga aqui. Parem seus carros e observem. Embiquei o carro à minha direita de uma maneira estranha, mas achava que era normal. A gente aprende a fazer parecido na auto-escola. Ao tentar corrigir, meu erro.

O esquema da marcha-ré deveria receber mais atenção nas aulas da auto-escola. Pra falar a verdade, a gente não aprende absolutamente nada das manhas e maciotas que andar de costas exige. É como ver o mundo ao contrário. O carro estava parado numa posição absurdamente torta, com o pneu dianteiro encostado na calçada. Ao tentar corrigir, virei totalmente o volante para a esquerda, tentando fazer o carro inverter o ângulo do carro de maneira que seu traseiro não ficasse virado para a rua.

Como não consigo expressar em palavras a posição tântrica na qual meu lindo Corsa chumbo, vou resumir: não importa o que eu fizesse ou pra onde eu virasse, eu voltava para a mesma posição. Quanto mais eu tentava consertar, mais eu cagava totalmente a manobra. Na segunda ou terceira ida e volta, uma mocinha que trabalha numa sorveteria ao lado do jornal começou a rir de mim. Eu comecei a rir junto, pra não ficar sem graça – embora a graça ali fosse justamente eu.

Sinceramente, eu não sabia o que fazer. Eu poderia continuar tentando por horas e horas, ou até que o pouco combustível habitual se esgotasse, e jamais conseguiria consertar tamanha merda. Sozinho eu não estacionaria ali. Então engoli todo o orgulho de macho alfa e pedi ajuda à pessoa mais próxima: o rapaz da Área Azul.

Esses indivíduos são como parquímetros humanos. Eles ficam o dia todo ‘protegendo’ as ruas do centro da cidade, cobrando R$ 1,30 por cartões que dão direito a estacionamento por duas horas. Como sempre, não perguntei o nome. Vou chamá-lo de Moisés, afinal ele abriria o Mar Vermelho para mim.

Estiquei o braço e fiz o símbolo universal do “Vem cá”, abrindo e fechando a mão direita. Ele estava próximo ao carro, provavelmente rindo por dentro, e se aproximou de vez.

– Sabe aqueles caras que acabam de tirar carta e não sabem dirigir?
– hahasçlhkdf sei sim.
– Então, eu sou um deles.
– Mas pode ficar tranquilo, tem espaço pra tu entrar, tá longe ainda.
– Velho, eu simplesmente não faço a menor idéia do que fazer.
– Hahahahçsdklf então vai que eu te ajudo.

O próprio Deus falou comigo naquele momento através do garoto de roupa azul. Então Moisés, com a maior tranquilidade do mundo, disse duas frases:

Esterça o volante só um pouquinho pra cá. Isso. Agora vai reto, sem mexer.
– Agora esterça o volante pra lá. Isso, agora vai pra frente. Prontim patrão.


“Esterça o volante pra cá”, disse Moisés.
E o povo de Israel pôde enfim estacionar seus carros tranquilamente.

Ao descer do carro, meio que não acreditei. Eu nunca tinha parado tão perfeitamente reto na minha vida inteira, mesmo quando não havia nenhum carro no resto do quarteirão. Havia uma linha pontilhada que indica o limite no qual o carro deve estar estacionado e não somente eu estava dentro, como estava perfeitamente paralelo a ela.

Percebi então que o ato de estacionar, pelo menos por enquanto, é equivalente a taxiar um avião. Para mim é necessário uma pista inteira e exclusiva.

E eu ainda mato alguém por asfixia por não saber usar as vírgulas.

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Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

19 comentários em “Sobre Landau, balizas e as cabeças de pedra da Ilha de Páscoa.”

  1. E ainda dizemos que as mulheres que não sabem dirigir. Eu tenho 26 anos e nem pensei ainda em tirar carteira, acho que com uma dessas na mão vou fazer muita merda por aí, então prefiro continuar andando de ônibus.

    Mentira. Estou é sem dinheiro pra isso mesmo.

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  2. Bem, eu tenho 30 anos e tirei a carteira aos 20. Acabei de renovar pela segunda vez. Lhe asseguro que hoje estaciono em qualquer vaga. Qualquer uma mesmo, desde que meu carro caiba nela, havendo uma folga de 10 cm em cada extremidade.

    Por outro lado, o Junior tem carta há mais de 10 anos e até hoje não sabe fazer baliza. É um paradoxo.

    Só posso desejar boa sorte, colega motorista.

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  3. Meu pai dirige super bem, às vezes consegue estacionar em uns lugares em que, realmente, não sei como é possível. Minha mãe, em compensação… nem dirige mais, nem tenta.
    Uma vez tive que voltar para casa com a mão para fora do carro, segurando o retrovisor que ela tinha arrancado. Outra vez ela foi tirar o carro da vizinha da garagem e acabou batendo no cano do registro de água, fazendo com que se formasse uma piscina super legal na frente da casa da mulher. Huahuahuah!

    Bom sorte com isso aí. Morro de medo de dirigir, acho que não tenho senso nenhum de direção, mas quero tirar carteira quando tiver idade, para emergências…

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  4. Excelente post! Não só é hilário, como bem realista e humilde: poucos homens tem coragem de admitir essas coisas. Normalmente, dizer que um cara não sabe dirigir ou fazer churrasco é pior que chamar de bichona, gayzão, libelula deslumbrada…

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  5. # Raphael disse:

    Cara hasdlçkahskdf eu acabei de ver uma mulher fazer EXATAMENTE A MESMA COISA QUE EU na frente da faculdade, coisa linda.

    Hauehsuaioueehuaheuna

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  6. Olha, quando você for estacionar, não se preocupe se o carro vai ficar reto ou torto. O importante é entrar na vaga. A única ressalva que eu faço é que seu carro esteja a uma distância menor que 50cm da guia da calçadaaa. Pois isso é infração média.
    É claro, também, que você não vai levar uma fita métrica consigo toda vez que sair de carro. Use o olhômetro, ou melhor, o bom senso.

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