Uma história de muitos títulos – Parte I

Dia 0 – Dia de fúria

Na véspera do grande dia da viagem, estava tudo praticamente pronto. Contrariando uma regra pessoal, as malas já estavam arrumadas, mesmo que fosse apenas uma mochila com duas camisetas, roupas de baixo, carregador de celular e um livro, que sequer foi tocado durante toda viagem. A câmera, uma das muitas personagens secundárias desta história, me acompanhava dentro de uma bolsa que se assemelha a uma lancheira, daquelas que você usava na segunda série para levar suco de laranja e salgadinho do Cascão – que era divino, se me permite o comentário.

A sexta-feira é também o dia mais crítico do meu trabalho. Fechamento de edição, pelo menos no consenso geral daqui, também significa “o dia que vocês vão trabalhar até os ossos começarem a se quebrar sozinhos, e os chefes vão arrumar outra coisa mais divertida pra fazer do que dar atenção pra vocês”. Falta de pessoal, de estrutura e, principalmente, de vergonha na cara são apenas algumas das moléstias às quais somos submetidos. Falta de pagamento costuma fazer parte desta lista, mas ele sempre acaba aparecendo na última hora, geralmente uns 5 dias depois que todas as suas contas venceram, mas isso é tão normal que é quase uma tradição.

O problema é quando o pagamento não vem.

A menos de 15 horas do embarque, sendo que nem passagem eu havia comprado ainda, descubro que meu chefe não só está foragido como tenho a certeza de que eu não vou receber um tostão quebrado sequer. Trocando em miúdos, a viagem (pela qual não só eu esperava há meses) estava sumariamente cancelada.

Pra quem conhece o blog há mais tempo, ou pelo menos da época que comecei a escrever diarinhos aqui, meus textos são baseados única e exclusivamente em tentativas desesperadas de transmitir sensações parecidas com as que eu mesmo tenho, para que você leitor não apenas leia o texto, mas faça parte do complexo universo que é meu sistema nervoso.

No momento em que percebi que tudo que eu havia sonhado para aquele dia havia descido ralo abaixo, foi como se um caminhão pipa carregado com corpos de animais em decomposição triturados fosse despejado sobre mim. Imagine então encarar o dia mais difícil da semana, um fechamento de uma edição complicada, soterrado por duas toneladas de patê de bicho morto. Não é a melhor coisa do mundo, muito menos faz bem pra pele.

Alguns cientistas criaram um negócio legal chamado Relógio do Apocalipse que, a cada cagada da humanidade referente à energia nuclear ou coisas do tipo, é adiantado em alguns segundos. Se ele chegar à meia-noite, o mundo acaba. Simples e perfeito. Se eu adotasse um Relógio do Raphs Pegando Suas Coisas e Indo Embora, neste momento ele estaria a treze segundos da meia-noite.

***

Se por um lado a minha chateação era grande, do outro havia Laura. Não que eu não quisesse fazer isso, mas desde o começo eu sabia que eu estava fazendo isso mais por ela do que por mim. Ela parecia querer muito me ver, eu queria muito conhecê-la pessoalmente. Se eu não fosse, estaria quebrando uma promessa e deixando de fazer algo que eu desejava MUITO.

Diferentemente de outros tempos, hoje não tenho vergonha nenhuma em dizer que conheci Laura pela Internet, através do próprio Odeio e Justifico. Realizando uma busca, ela veio parar aqui, me encontrou no orkut e começamos a conversar. Em outras palavras, ela me achou no Google. Conversas vão, os arquivos de registro do MSN iam ficando cada vez maiores até que nos damos conta de que gostávamos de verdade um do outro – daí o grande motivo para que eu viajasse quinhentos quilômetros para conhecer aquela menina.

Mas era uma pessoa da Internet e, assim como várias outras pessoas que tiveram um contato, digamos, um pouco mais próximo de mim através de comunicadores instantâneos, e-mail e outras dessas traquitanas do futuro, estávamos eternamente separados por nossos fios de telefone. Eu sempre achei essa história de namoro virtual, ou e-love, uma babaquice sem tamanho. Até então, pra mim, amar alguém feito de pixels fazia tanto sentido como fazer amor com sua placa de vídeo.

E para os nerds, transar com uma GeForce 9800 GTX deve ser como ter uma noite de amor com uma atriz pornô.


Vai gostosa, renderiza meus gráficos no Ultra High, derrama em mim seus FPS…
Oh, isso, que delícia!
 Geralmente eu entendia que era possível conhecer alguém na Internet, marcar um encontro e aí sim um namoro, no sentido mais literal e racional, se tornaria real e possível. No nosso caso, me toquei que a coisa ficou realmente séria entre mim e Laura quando me toquei que o que parecia uma conversa um pouco mais séria entre nós se tratava, afinal, de uma discussão de relação.Foi então que descobri que, contrariando tudo que eu sempre acreditei na Internet, eu estava sim apaixonado por uma pessoa que nunca havia visto pessoalmente.E, pela primeira vez, eu sentia falta de um abraço que nunca tive.

***

O final do dia chegava e estava bem chato. Entre outras coisas, eu e Laura mal conversávamos, o que era totalmente compreensível, já que por razões que não eram mais do alcance de nenhum dos dois, a promessa de nos conhecermos estava definitivamente quebrada. Então parece que Deus apontou o seu dedo divino pra mim e disse, com sua voz trovejante e inaudível: “Cara, tu merece…”, pra ser interrompido logo em seguida pela secretária:

– Raphael, vai lá na frente, acho que vão te pagar.

Se eu estava no meio de um túnel escuro e sem fim, o próprio Deus em pessoa abriu um BURACO no meio do túnel pra me dizer: “… então, como eu tava te falando, tu merece, mas só um pouco” pra então ser interrompido novamente por minha chefe.

– Vou te dar só metade, semana que vem te dou o resto.

Era o suficiente pra viajar mas me complicaria com as contas no fim do mês. Não mudaria minha decisão em cima da hora, a menos de 8 horas do embarque. A viagem continuava cancelada.

Laura e eu trocávamos mensagens mas nada além de “estou muito triste”, “fica pra próxima” e “vamos fazer amor na praia do Gonzaga ao entardecer”. Eu estava triste mas ela estava ACABADA, eu até me sentia mal de tentar falar alguma coisa. Então um estalo tão violento quanto uma manada de búfalos raivosos veio à cabeça:

– Laura.
– qq foi
– Tô afim de pegar no teu rosto, deixar bem perto do meu e falar EU TE AMO na tua cara amanhã.

Fim da parte I

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Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

23 comentários em “Uma história de muitos títulos – Parte I”

  1. Vou te dizer que a mesma coisa aconteceu comigo há um tempo atrás. Sem tirar nem por. A história continua até hoje, principalmente pela internet.
    Entretanto, apesar da única vez que a gente se viu ter sido ótimo, nosso caminhos e resoluções financeiras ainda não deixaram nos cruzarmos novamente.

    P.S.: Tô lá no FHBD também. Já lia aqui há algum tempo e só agora fui descobrir que você é o Raphael de lá, juntamente com a lawlra. iauhaiuhaiuh
    Depois dizem que a internet é grande. Pfff..

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  2. cara,
    eu e minha namorada nos conhecemos pela internet, e quando eu vou vê-la tenho que viajar 1200 km, nao é facil e tal, mas a distancia nao faz a gente deixar de gostar um do outro.
    Pretendo me mudar pra mesma cidade que ela ano que vem, para nunca mais precisar ficar longe.

    Se voce realmente gosta, entao voce tem o maior dos motivos pra lutar por isso, e quem te dizer o contrario com certeza esta errado.
    Vá em frente, boa sorte.

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  3. Ei Laura,

    eu e minha namorada nos conhecemos no mIRC, a 3 anos atrás, e nas conversas que tínhamos fomos nos tornando cada vez mais próximos, gostando cada vez mais um do outro, mas como eramos novos ainda e havia dois estados entre nós, então era meio improvável que conseguíssemos nos ver, acabou que perdemos contato e voltamos a nos falar ano passado, agora já maior de idade e com a cabeça feita, e foi quando eu fui pra lá conhecer ela pessoalmente.

    Estamos namorando a 5 meses, pode parecer pouco ne, mas eu tenho certeza de que são os primeiros 5 meses de uma eternidade juntos, estou movendo mundos e fundos para me mudar para a cidade onde ela mora, ano que vem, com certeza eu vou para lá e não terei mais que voltar.
    Mesmo longe um do outro, temos uma confiança que poucos casais tem hoje em dia, o que é fundamental para um relacionamento assim.

    Eu tenho certeza absoluta de que encontrei o amor da minha vida, e sou capaz de tudo por ela,
    já somos cheios de planos e sonhos e sei que vou realizar todos.

    Espero que vocês tenham a mesma sorte ( apesar da distância, me considero o homem mais sortudo do mundo por ela me amar assim como a amo).
    Se realmente quiserem, nada pode impedir vocês de ficarem juntos.

    =**

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  4. Raphs,

    Nossa, eu também conheci a minha namorada por internet. Aliás, pelo ORKUT. E estamos namorando faz quase 5 meses (Dia 7 de Junho vai fazer 5 meses), e por mais medonho que seja, acho que a distância mais no ajuda do que nos atrapalha.
    Ela mora em MG e eu em SP, e nos damos bem. Nos conhecemos faz mais de 2 anos por internet, mas somente depois de um ano e meio a gente se conheceu pessoalmente, infelizmente eu já estava namorando outra garota, mas depois de um tempo não deu certo e… finalmente tomei vergonha na cara de ir pra lá visitá-la. Agora frequentemente vou pra lá vê-la e aproveitamos muito bem o tempo juntos.
    Deu tudo certo (e continua dando certo) e espero que dê tudo certo pra vocês também, e pro Br ali em cima também! 😀

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