Uma história de muitos títulos – Parte II

É como a Bíblia, cortada em pedacinhos:

Madrugada do Dia 01

O ônibus saía às 5:30 da madrugada. Se você morou a vida toda na cidade grande, esse horário é basicamente a hora do dia em que todos os galos começam a cantar insandecidamente em intervalos de 4 em 4 segundos. Não que aqui convivamos com galináceos nas ruas, mas não é tão raro ouvir o som destes simpáticos animais cacarejantes durante a noite. É um horário incômodo, já que não é cedo suficiente pra se falar “Bom dia!” nem noite suficiente pra falar “Boa noite!”. Por si só, já é mais um empecilho na hora de cumprimentar o simpático rapaz que vendia as passagens.

Para meu corpo, o momento que antecede viagens longas é um martírio sem tamanho. A ansiedade se torna muito maior do que a vontede de roer unhas, dedos e todas as outras partes do corpo humano que permitem tal ato de desespero. Tudo se torna um desafio fisiológico: uma incontinência urinária me abate em 90% dos momentos antes de entrar em um ônibus, talvez por trauma do incômodo banheiro oferecido pelas empresas masoquistas de viação – se é que aquilo pode ser considerado um banheiro: um cubículo de um metro quadrado, com uma pseudo-privada sem água.

Os perigos de se ter uma privada sem água são muitos. Tudo bem, a maioria das pessoas é inteligente o suficiente pra fazer seu esfíncter se comportar graciosamente durante uma viagem rodoviária de quatro horas, principalmente quando outras 40 pessoas estão no mesmo transporte. Agora se, de repente, alguém come aquele espetinho de carne de capivara da barraquinha do carismático Seu Jorge antes do embarque e resolve ter uma disenteria? A porra do “banheiro” não tem sequer água pra aliviar o cheiro, se os órgãos de alguém resolverem DERRETER lá dentro, lá irão ficar até que a corajosa Dona Neusa usasse seu esfregão divino em tamanha porcaria. Santa Dona Neusa.

Dizem que conhecemos mais a superfície da Lua do que o fundo do mar. Eu digo que conhecemos mais sobre o resto do Universo e sobre a própria existência humana do que conhecemos os banheiros de rodoviária. Cada um é uma cultura diferente, um clima todo especial e único. Cada porta é uma surpresa, nunca se sabe o que você vai encontrar atrás daquele pedaço de madeira em decomposição que tampa as privadas, lugares intocados mas tão violados quanto a mais velha mulher da vida de beira de rodovia. Algo comum é utilizar a porta do banheiro como uma espécie de “Mural de recados” onde você, depois de dar aquela aliviada, pode deixar um recado para o próximo companheiro que adentrar as dependências da mesma cabine.

Muitas vezes estes ambientes se mostram lugares onde pessoas demonstram a falta de afeto na sociedade: as portas de banheiro, pelo menos a grande maioria que já frequentei, sempre carregam em si endereços eletrônicos para outras pessoas entrarem em contato.

“Procuro amigo para contar sobre minhas experiências, entre em contato garoto_solitario_2007@hotmail.com”.

“Caminhoneiro safado afim, estou sempre neste posto às quintas-feiras, das 18 às 21h”

Mas não só de coisas divertidas vivemos. Viagem também é tensão, é desespero, é coisa ruim.

Uma das coisas que mais me irrita em ônibus e outros tipos de transporte coletivo é, ironicamente, o fato dele ser coletivo. A coletividade do transporte significa que ele é pra muita gente, logo as chances de se ter pessoas inconvenientes aumenta. E eu sinto cheiro de gente assim. É como se um inimigo tivesse vindo lá de longe e você sentisse o cosmo dessas pessoas queimando perto de mim.

E momentos antes de adentrar o ônibus, eu senti esse cosmo. Estava entrando sozinho em uma viagem de cinco horas em direção ao desconhecido, não havia como haver problema maior, certo? Errado. Uma família GRANDE, cheia de tudo que eu sempre gosto de ver: malas, sacolas e CRIANÇAS. MUITAS CRIANÇAS. É de conceito geral que crianças e ônibus se dão tão bem quanto um peixe e uma bicicleta de dezoito marchas. Eu sabia que não ia ficar tudo bem, sabia que ia ser uma longa viagem.

Não começamos bem. Paguei pela poltrona número 21, na janela. Quando adentro o ônibus, vou conferindo as poltronas e logo avisto a minha. Encontro então uma das crianças que avistara antes ocupando meu lugar de direito. Tudo bem, até que dei a sorte de pegar a poltrona 19: o único lugar de todo o ônibus que não tinha janela dividida. O único problema era a poltrona da frente, ocupada por uma mulher bastante folgada, que reclinou completamente a sua poltrona e praticamente imobilizou minhas pernas – mas se arrependeu, logo eu estava livre.

O caminho até a próxima parada era curto, coisa de vinte minutos. Durante todos os vinte minutos, a pessoa do banco de trás manteve o celular ligado tocando músicas horríveis – funk carioca, na sua maioria. Eu duvidava que existisse invenção mais infeliz que tuning de som de carro, até sentir na pele – e nos ouvidos – os males causados pela função de viva-voz dos celulares. Durante a parada, o motorista pediu educadamente para que todos os celulares fossem mantidos na função vibratória. Também na parada entram mais pessoas no ônibus, agora ultrapassávamos a incrível marca da primeira dezena de pessoas a bordo.

Eu estava distraído, talvez a muitos quilômetros dali. Uma jovem moçoila de cabelos encaracolados me pede desculpas. Não entendi o porquê, peguei a blusa que havia caído no chão e voltei minhas atenções para a janela. Ela colocava o violão no compartimento acima da minha poltrona. Pensei “bom, acho que tenho companhia, deixa eu dar uma arrumada e tirar esses óculos de SOL PORQUE AFINAL SÃO CINCO HORAS DA MANHÔ.

– Desculpa, mas eu comprei a janela e tal…

Tudo começava a vir abaixo. Tudo bem, ela tinha toda a razão, mas ao me levantar me dei conta de que TODAS as janelas estavam ocupadas! Onde raios eu iria sentar agora? Levantei-me e saí à procura de uma poltrona vazia. A família infernal estava em linha, duas fileiras de poltronas exclusivamente destinadas a ela. E logo atrás de uma delas havia uma poltrona livre. O pior lugar do ônibus estava reservado para mim. Então comecei a acreditar em destino.

Os primeiros dez quilômetros foram tranquilos. Havia conversa mas era totalmente ignorada pela considerável e nunca antes tão agradável potência dos meus fones de ouvido. Tudo ia muito bem até que acontece o esperado: um dos bebês começa a chorar. Se eu apostasse comigo mesmo que isso iria acontecer, teria ganho.

O torque vocal daquele guri era inacreditável. Se a energia liberada naquela choradeira toda fosse canalizada, iluminaria uma cidade de pequeno porte por alguns meses! Era tão estridente que eu jurava que sentia as lentes do meu óculos em ressonância, tão alto que minha mãe me ligou lá de casa perguntando se eu tinha tomado meu leite. Tente imaginar um trio elétrico baiano armado de microfones próximos às caixas de som e você terá algo parecido, porém em menor escala.

Tenho a certeza de que, se um dia eu vir a precisar de um pulmão, já sei onde pedir. O garoto tinha uns catorze pulmões, respirar não era necessário. Não só assobiar e chupar cana, ele também era capaz de CHORAR DESESPERADAMENTE durante o processo. Sua mãe era o típico caso de quem engravida quatro vezes antes do casamento e já não aguenta mais carregar a prole pra todo lado: tentou resolver o problema no good-way, ou seja, porrada. Desceu um tabefe na mão do moleque, deu pena, mas felizmente fez ele engolir o choro. Se soubesse que seria tão fácil, eu mesmo teria jogado minha mala sobre ele.

O combinado era de que eu, assim que tivesse chegando em São Paulo, ligasse para meu pai. Mas como raios eu iria saber onde estava? A não ser que eu perguntasse para o próprio motorista, aumentando exponencialmente as chances de que ele fizesse uma curva errada e nos levasse para a morte certa, eu estava tão bem localizado quanto uma agulha num palheiro – pintado de prata. Como fui bem educado pela televisão, soube exatamente a hora de ligar. É incrível como o acaso sempre responde minhas perguntas.


Favelas: as placas de boas vindas da terra da garoa.

Sabe-se lá porquê, a criança infeliz começa a chorar novamente. Desta vez já havia não só perdido as esperanças de dar uma cochilada durante a viagem, como também meu próprio sono me abandonara e encontrava-se sentado algumas fileiras atrás. A geniosa mãe então, esperta como só ela, acha o remédio definitivo para a criança: um brinquedo.

– Vou dar alguma coisa pra ele brincar.

Nessa hora foi como se eu tivesse colocado meus pés numa fonte termal cheia de água morna e creme para massagem. Enfim, o tão necessário repouso estava próximo. Mesmo que durasse menos de uma hora, tempo suficiente para chegarmos ao final desta odisséia, fechar os olhos no puro silêncio seria regenerador. Mas como eu sempre recebo muito mais do que mereço…

Se eu fosse criança, qualquer tipo de distração me faria calar o bico. Um boneco, um caderno para desenhar, um gibi da Turma da Mônica pra ler, essas coisas acalmam as crianças. Mas não, é pedir demais que uma mãe tão carinhosa desse pra uma criança tão legal um gibi da Mônica. Ela então tira da bolsa um chocalho de plástico.

O barulho produzido pelo chocalho era infinitamente mais desgraçado que seu choro. Não contente em ficar balançando aquela ferramenta do satanás pelo ar, ele descobriu que a janela produzia um barulho muito maior e mais divertido. Dentro da cabeça do pirralho, ele tinha acabado de roubar o fogo dos deuses. Na minha, ele usou o fogo pra incendiar a humanidade.

A única foto da peste que consegui, com ela já tranquilizada por alguma dose cavalar de Prozac, foi capturada com meu celular para eu não passar a imagem de pedófilo perseguidor de criancinhas.


Sinto calafrios só de olhar para essa criatura.

Na chegada, tive que saciar minha curiosidade. Eu tinha que levar comigo algo que me fizesse lembrar desta encarnação da balbúrdia e anarquia. Uma mecha de cabelo era difícil, então tomei a liberdade de perguntar à mãe o nome de sua amada cria.

Finalmente, São Paulo. Uma cidade grande, apaixonante e detestável. Mais aventuras no próximo post. O nome dele?

Raphael.

Fim da parte II

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Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

24 comentários em “Uma história de muitos títulos – Parte II”

  1. Hahaha… zifudeu preiboi!!

    Mas pô… sério. Agora me sensibilizei com sua situação u.u
    Não tem nada que eu mais odeie do que crianças. Talvez tenha alguma outra coisa que eu odeie mais… mas enfim…
    E parece que tenho alguma maldição: as crianças me adoram! Mesmo eu fazendo cara feia pra elas… isso que me dá mais raiva GRR

    Parte 3 aew!!

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  2. Comecei a ler seus posts a pouco.
    Ta muito comedia essa sua viagem, aposto q vc n esqueçe tao cedo xD
    E criança em viagem msm eh phodda! putz.
    Agora eu to com pena eh du Ingloryon q nem espantando tiram elas de perto.
    uaehueahuaheuheauhaueh zivudeu tbm!

    Esperando a parte 3!

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  3. isso me faz lembrar de um acontecimento acontecido contado pelo meu falecido avô:

    Certa vez o capetinha chamou o Diabo pruma festa que disseram que ia ser cheia de malemolência e
    sacanagem. O Diabo foi primeiro e, quando o capetinha estava indo em direção à festa, viu o Diabo, cabisbaixo
    e com o olhar frustrado, voltando pra casa. O capetinha perguntou:

    – Ué, Diabo, a festa não tava boâ? Maldade pura?

    – É… maldade pura.

    – Então por que tá voltando tão cedo?

    – Tá assim de criança, ó!

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  4. Crianças nessas situações são realmente insuportáveis. Mas não sei se são tão insuportáveis quanto uma pessoa que senta ao seu lado e fica puxando conversa, quando você, claramente, não quer conversar com ninguém.

    PART3 AWEWSSSS

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  5. Cara, viajar com essas familias enormes é a pior coisa que tem. Aqui em BH geralmente são nos coletivos mesmos, que ligam bairo a bairro. Sério, existem mulheres que nasceram com a única e exclusiva missão de procriar. Não é possível!!!!

    Mas espero que não tenha ocorrido mais imprevistos na sua viagem!

    abraço!

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  6. Cara, só pra saber, quantas partes tem essa história morrântica sua?

    Pq aí eu vou calcular a média de dias q vc demora pra fazer um post, fazer vezes as partes da história e esperar todos esses dias pra ler tudo de uma vez pq EU ODEIO FICAR ESPERANDO… Deve ser por isso q eu não sou chegada em novela …

    Att. Uma Yane estressada

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  7. Eu sou um cara paciente.

    Mas ia fazer agorinha a mesma indagação da Yane, de um modo mais sutil como “A SEMANA COMEÇOU E O POST NÃO SAIU, QUE PORRA É ESSA?!”, porém já que você explicou num comentário anterior, informo que estou no aguardo.

    Grato.

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  8. Só uma pergunta Raphs: Que que você faz da meia noite as seis da manhã?

    Vamos escrever logo! Quem mandou vc ficar famosão? Esse é o preço do sucesso =D

    Uma multidão insandecida de fãs esperando os próximos capítulos.

    Eu diria que cê tá ficando mais famoso que a tia que escreve HP … Só falta ganhar o dinheiro q ela ganha, mas isso é detalhe, não vamos nos apegar as coisas materias … Afinal de contas vc está amando =D

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  9. Putz… Odeio esperar. Espero por malvados, manga do naruto, OJ, meu salario….. quando chega acho phoda, mais acaba rapidinho ¬¬ (principalmente meu salario)

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  10. Cara vc podia escrever um livro, ateh com esse nome, de muitos títulos, mas aqueles livros bem grossos que emendam vários fatos e precisa radicalmente voltar a primeira história!

    E quero(queria exigir) a parte3!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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