Uma história de muitos títulos – Parte III

Vocês vão me matar

Tarde do dia 01

Desembarcar em São Paulo, sozinho, é como ser atingido na face por um boxeador peso pesado com luvas de concreto. O Terminal Rodoviário do Tietê é praticamente uma cidade, com uma densidade demográfica tão grande quanto, algo em torno de 2 pessoas por metro quadrado. Essa quantidade abismal de pessoas torna o Terminal algo parecido com um estouro de boiada: fique parado e você é soterrado pela massa.

A impressão que dá é que, alguns metros à frente, alguém de alguma forma acaba de plantar uma bomba nuclear e toda a multidão está correndo com medo da explosão. Se você parar de correr, não importa em qual sentido esteja correndo, nem se for pra amarrar os sapatos, alguém te bate.

– O QUÊ? VOCÊ TÁ PARADO MEU?
– Não cara, tranquilo, tô aqui só amarrando o sapato e…
– MAS MEU, VOCÊ NÃO TÁ ENTENDENNNDO. VOCÊ TEM QUE ANDAR NÉ MEU.

– Mas…
– ANDANDO MEU PUTAQUEOPARIU ANDANDO PUTA MUNDO INJUSTO NÉ MEU

Como andar sozinho nesse lugar é algo que eu nunca vou conseguir na vida, meu pai então se juntou a mim. Para garantir minha viagem tranquila, fui direto para comprar minha passagem de volta, daí minha surpresa. Um ônibus lotado de São Paulo para Sertãozinho não é a coisa lá muito comum de acontecer. Apenas cinco assentos estavam vagos, todos no corredor, o que significava que minha viagem de volta seria MUITO, MUITO pior que a de ida. Comprada a passagem, eu me lembro de um fato curioso.

– Que dia é hoje?
– 24
– … amanhã é 25.

– Sério? Não brinca.
– OH MEU DEUS, AMANHÃ É A PARADA GAY

O sentimento de surpresa só não era maior do que o de apreensão. Não sou homofóbico, mas imagina a quantidade de gente estranha que estaria naquela mesma rodoviária no domingo? Não só um domingo comum, mas um domingo volta de feriado. Aquela cidade inteira estaria um caos.

Logo em seguida, saímos da rodoviária em direção ao estacionamento. A impressão que fica marcada em quem não é de São Paulo e pisa na saída do terminal é que estamos em Bogotá. Todas as pessoas estão interessadas na sua bagagem, todas querem te sequestrar. Mesmo você SABENDO que lá dentro só tem roupas velhas e amassadas e um pacote de bolacha Trakinas, precisa estar atento como se tivesse carregando vinte quilos de ouro maciço na mochila e um diamante do tamanho de uma cabeça de recém nascido na mala.

Passada a tensão, chegamos à motocicleta. Uma Suzuki Intruder 125cc nos levaria de São Paulo até Santos, uma descida de, aproximadamente, 100km. Segundo Wagner, meu pai e motorista, a descida é tranquila e a estrada, um tapete. Ok, estou confiante.

Atravessando a cidade para chegar até a rodovia Imigrantes, Wagner apontava os pontos “turísticos” de São Paulo: o museu do Ipiranga, uma ponte estranha que os ônibus usam pra cortar caminho e, claro, a 25 de Março.

É assustadora a quantidade de pessoas que invade a 25 de Março atrás de preços baixos e mercadorias de qualidade duvidosa. Sério. Se você nunca chegou perto daquilo, imagina um estacionamento improvisado de uns 200 metros que invadia a pista, pessoas passando com toneladas de bugigangas e sacolas maiores que eles mesmos, correndo para todos os lados como se eles mesmos estivessem correndo do rapa na polícia.

Então entramos na Imigrantes. Justamente como meu sábio pai havia dito, a estrada é um tapete. Mesmo assim, uma viagem de aproximadamente uma hora em cima de uma moto leve é bastante desconfortável. Eu ainda estava na garupa, apoiado no bagageiro, portanto com um conforto pouco maior do que Wagner, o intrépido motorista que levava a moto no braço.

Uma 125cc não foi projetada para grandes viagens. Nossa Intruder merece uma estátua em praça pública, suas façanhas são respeitáveis. Meu pai pode ser considerado gordo, um gordinho simpático por sinal, mas não vê problema algum em viajar 450km da capital até nossa cidade, viagem essa completada em pouco menos de cinco horas. Mas carregar duas pessoas já é uma tarefa que ela considera meio árdua. Sobre ela, 150 quilos de família mais bagagem, se torna meio difícil acelerar muito. Tente você correr mais rápido que um Fusca carregando uma vez e meia seu peso.

O velocímetro só conseguia passar dos noventa quilômetros horários nas poucas vezes que encontrávamos descidas. Já o contador de giros ficava perto da perigosa marca vermelha durante a maior parte do tempo. Enquanto isso, todos os veículos da rodovia passavam por nós. Absolutamente todos. Não contei nenhum automóvel sendo ultrapassado em rodovia aberta. Éramos obrigados a ocupar a faixa lenta da pista, mais à direita, reservada para os caminhões. Se algum deles tivesse carregando ELEFANTES e um deles resolvesse despejar seu bolo fecal na pista, seríamos soterrados por um quarto de tonelada de merda. Tenso.

Então chegam os túneis, estávamos descendo a serra, enfim. É fácil se perder dentro do túnel, mesmo que seja uma linha reta de oito quilômetros ligando ponto A e ponto B. São tantas paisagens iguais, era como um metrônomo; alguém estabeleceu um padrão e o seguiu durante toda a extensão do bagulho.

lâmpada faixa lâmpada lâmpada faixa ventilação lâmpada

É difícil ter alguma noção de distância lá dentro. Eu mesmo não via túneis há mais de três anos, já que no interior costumamos ser atrapalhados não por montanhas, mas por criações de gado que atravessam a cidade todos os dias. É só sair gritando e balançar um galho de goiabeira que eles saem do caminho, é coisa linda de se ver.

Se eu fosse claustrofóbico, sairia correndo em círculos se me encontrasse na situação que estava. Me sentia como uma minhoca. Não podia fazer nada a não ser esperar até que a luz do fim do túnel finalmente chegasse, literalmente. Chegou, e eu tive uma das visões mais ESPETACULARES da minha vida.

Eram apenas morros, árvores e o mar bem ao fundo. Mas a combinação dos três, junto da idéia de viajar tanto por um objetivo tão nobre, embora certas pessoas achassem que era nada senão pura loucura, fez de tudo aquilo uma cena que jamais esquecerei, e me fez lembrar de Into the Wild.

Uma coisa engraçada foi perceber que todo aquele vale imenso que tinha entre nosso morro e o morro vizinho teria sido obra de um rio imensamente, cabulosamente grande. Se minhas dimensões mentais estiverem corretas, entre os dois haviam um três ou quatro quilômetros, ou seja, longe pra caralho. Então, nos aproximando de uma curva PERIGOSAMENTE estreita, inclino meu corpo pra direção errada, em direção ao rio, pra avistar o tal rio.

Que rio? Aquilo era quase um córrego daqueles que passa no meio das favelas, levando o esgoto a céu aberto. Se tivesse mais de dois metros de largura, eu sou um macaco. Aí dei valor ao que minha professora de Geografia sempre disse: a erosão é a força mais poderosa da Natureza. E quase levei nós dois de cima da moto para conhecer o rio lá embaixo, tudo isso para dizer:

– Foda.

Chegando em Santos, nos topamos com um problema. Os quarteirões tortos, as ruas superlotadas e com sentidos estranhos atrapalhavam cada vez mais. Quanto mais próximos estavámos da casa dela, mais difícil se tornava chegar até lá. Ou o mapa do Google indicava que sua rua tinha o sentido contrário do que realmente era, ou alguma força eletromagnética forte o suficiente inverteu o sentido da rua sem avisar ao Google, o que eu acho difícil.

Então avistamos uma casa igualzinha à foto que Laura havia me mandado um dia antes. Na frente, um senhor aparando as folhas da fachada, coberta por uma cerca viva. Pensei “Caralho, o pai dela tá lá na frente, ah meu deus, o que eu faço, o que eu faço”. Liguei para Laura e pedi para ela me encontrar na esquina, ela me diz que eu estava bastante errado.

Desço da moto e consigo ficar parado pela primeira vez depois de sete horas de viagem. Era pouco mais de meio dia e eu avisto uma menina sorridente vindo ao longe. Me arrumei, joguei toda a bagagem no chão, capacete, tudo, e dei aquela balançada sexy no cabelo.

Ao ver Laura se aproximando, um sentimento estranho tomava conta de mim. Eu parecia conhecer aquela garota há anos, nunca tinha visto ela pessoalmente e reconheci ela a quase cem metros de distância. Era uma soma de surpresa, aflição e ansiedade.

Sinceramente, não lembro quais foram as palavras que Laura me disse no instante que atravessou a rua e me abraçou. Foi o melhor abraço que já tive.

O resto do dia não cabe a vocês saber. 😀

Fim da parte III,
parte IV e final no fim de semana, o primeiro que cobrar leva pirocada de pau mole

Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

18 comentários em “Uma história de muitos títulos – Parte III”

  1. ahshajkshalkjsh eu sei o que não foi dito, eu sei o que não foi dito, eu sei o que não foi dito lalalalalalal

    E como diria o nosso amigo finado, EUUUUUUUUU SSEEEEEEEEEEIIIIIII

    E sinto muita falta. Como sinto.

    Te amo.

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  2. @Gustavo Squall

    Foda? FODA?! Nenhum adjetivo existente em nenhuma linguagem da RAÇA HUMANA é capaz de qualificar Into the Wild. Não só o filme é bom pra caralho, mas todo o clima e tal, sei lá, eu sempre fui louco pra fazer viagens assim.

    @Laura

    Oiii gata, quer tc???

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  3. Desceram pela Imigrantes ou pela Anchieta? Eu acho a Serra do Mar linda anyway. E Into the Wild é do caraleo. E a Laura é fofa. E este trecho:
    “É só sair gritando e balançar um galho de goiabeira que eles saem do caminho, é coisa linda de se ver.” me fez rir sozinha!

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  4. Só uma coisa : As configurações de privacidade do usuário impedem a visualização do conteúdo nesta página.

    Então pq diabos coloca o link? PQ COLOCA O LINK?

    Eu não vou exigir a parte quatro, por enquanto ….

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  5. ah, e dá pra perceber que tava sorrindo quando deu o beijinho na laura. malandrããããão. hehehehe

    ah, e o (a) do à são paulo é sem crase. sua professora de geografia me fez lembrar da minha de português.

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  6. @Yane

    Cara, sério, não consigo entender porque apareceu isso. Nem sabia que meu album era bloqueado, que coisa bizarra. Não consigo mudar também, muito estranho hahlahdlafhasdlkhf

    Orkut gay.

    @Luna

    Hahalsdkhafsdf passeio a São Paulo eu deixo pra próxima, tô juntando grana pra ir ver minha calanga de novo. Mas boa sorte, chega pra ela e diz o seguinte:

    – Aê gata se liga na canção que eu fiz.

    É tiro e queda, sem erro.

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  7. sei exatamente como é passar por tudo isso,
    mas vai dizer que no final nao vale a pena cada segundo dessa dolorosa viagem?!

    Daqui a exatos 35 dias é a minha, com duração de 19 horas (isso se nao atrasar).
    O que nao fazemos por nossas mulheres?! xD

    Boa sorte pra vocês, porque é agora que começa a parte dificil.

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  8. É difícil pra mim ler isso e não comentar.
    Sei que estou há quase um ano atrasada, mas preciso deixar meu comentário.
    Eu também conheci meu (brevemente) marido pela internet e o nosso primeiro encontro também foi cheio de aventuras.
    Sem dúvidas, lindo.
    Tô ansiosa pra chegar na próxima parte.
    Um abraço e boa sorte a você e sua Laura.

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