Uma história de muitos títulos – Parte IV

Dia 2 – O retorno

Nada de muito interessante aqui. A subida foi pouco mais emocionante do que a descida, uma vez que enfrentamos um trânsito até pesado no decorrer da rodovia. Uma personagem até divertida foi uma Suzuki Boulevard que nos acompanhou durante praticamente todo o trajeto.

A Boulevard está para a nossa Intruder assim como o Charizard está para o Charmander – mais tamanho, mais potência e muito mais crocância. Aquele visual arrogante, enorme, cheio de bolsas laterais e um barulho estranhamente agradável. Dava uma pequena invejinha, admito. Mais potente, ela se mostrava toda graciosa nas retas ou nos momentos que o trânsito dava aquela aliviada. Chegava a abrir uma boa distância de nós até encontrar um novo engarrafamento. Então, como tem praticamente a mesma largura de um carro, desacelerava.

Nós, sobre nossa jovial e leve Intruder, costurávamos os carros com a graciosidade de uma jovem bailarina. Graças às manobras de Wagner, o intrépido motorista que faz as vezes de meu pai, era nossa vez de abrir vantagem sobre a ignorante Boulevard.

E ficava nisso. Só faltava passarmos sobre pontos de interrogação amarelos no chão, acionar a roleta e jogarmos cascos de tartaruga uns nos outros, porque aquilo tava virando meio Mario Kart, meio Cybercops.

De volta a São Paulo, nada como os subempregos que só a capital paulista pode oferecer. Durante todo o caminho até nossa casa, encontrei pessoas – mulheres, a grande maioria – obrigadas a passar o dia todo no sol, segurando pedaços de cano com panos de anúncios pendurados. Alguns eram estampados com nomes de postos de gasolinas ou mercados. Alguns eram brancos. Brancos.

BRANCOS!

Porra, o que leva o setor de marketing de um lugar a contratar pessoas a segurar um cano enorme com um pedaço de lençol pendurado, em pleno domingo, debaixo de um sol putaqueopariumente quente?!

– Aê gente, nova campanha de marketing!!
– Isssoooo
– Vamos colocar pessoas nas ruas pra atrair mais fregueses!!
– Fazendo OQ
– Vão segurar canos enormes com lençóis pendurados!
– Mas isso vai atrair clientes comooo?
– Vão ser… GOSTOSAS!!
– AEEEEEE
– Vamos arrasarrrrr galeraaaaa
– Ebaaa!!!


HHAHAHASDLKAHSDÇLKASÇDLASDF

Parafraseando nosso amigo poeta contemporâneo MC Créu, “pra evoluir no trânsito paulistano tem que ter disposição, pra evoluir no trânsito paulistano tem que ter habilidade”. Nas primeiras investidas você repara que seu joelho passa a uma distância cabulosamente pequena dos carros, seu ombro quase bate na traseira dos mais altos. Mas algumas coisas são como sexo com mamutes: você tem que relaxar, fechar os olhos e confiar no parceiro.

A linguagem dos motoboys é de aprendizado fácil e rápido. Mão esquerda espalmada, virada para baixo, significa “espere, estou pensando em uma manobra sensacional”. Uma breve buzinada significa “Muito obrigado, amigo motorista, por deixar eu ultrapassá-lo de maneira perigosa!”. Já mão esquerda balançando, fazendo o sinal universal do ‘chega mais’, significa algo como “vou te deixar passar porque o senhor está com a piroca mais aflita que eu, portanto estou correndo sério risco de ser atropelado pelo vosso automóvel”.

Quando Deus criou o mundo em HTML, ele deve ter colocado um comentário lá no final do script: “Todo motociclista SEMPRE estará errado em caso de acidente, embora SEMPRE declare estar certo”. Motoboy PEDE pra ser atropelado, não é brincadeira. Quando você tá na garupa de um deles, olha aquela brecha minúscula entre os carros, daquelas que não passa nem uma família de tatus-bola, e percebe que seu motorista já está se arriscando, a primeira reação que se tem é olhar para os céus, abrir os braços e pedir a extrema unção. Claro que meio segundo depois você cola os braços de volta no corpo senão eles seriam arrancados pela traseira do Gol prata que tá sendo ultrapassado.

Fora o trânsito delicioso, São Paulo também fascina por seus pontos turísticos.

O novo xodó dos paulistanos é a Ponte Estaiada, que liga o final da Avenida Roberto Marinho com a Marginal Pinheiros, pra dar aquela desafogada que o trânsito desnecessita.

A Ponte Estaiada Octavio Frias de Oliveira está para São Paulo assim como a Torre Eiffel está para Paris. Os paulistanos a idolatram, tiram fotos dela em todas as posições, em dias de chuva, calor, neve, tempestades de areia e furacões, muito comuns nesta época do ano.

Pra quem está acostumado a atravessar córregos em pontes feitas de madeira sobre carros de boi, é uma experiência única. Mas depois de algum tempo você se toca que é apenas uma estrada que passa em cima da outra com um porre de cabo amarelo dos lados. Se você passar a ver as coisas “monumentais” da vida por esse lado, você vai perceber que a vida é algo bem maçante.

Outro ponto turístico reconhecido internacionalmente é a antiga sede da companhia aérea TAM, recentemente destruída por ataques terroristas.


Costumava ser isso.

Sabe aquelas situações inacreditáveis que acontecem, mas são tão extraordinárias que contando não têm a menor graça? Então, esta é uma delas.

Estava eu observando o terreno, que agora é cercado por uma longa e atraente cerca azul, quando meu pai me chama a atenção:

– Nessa cerca azul ficava o antigo prédio da TAM, aquele do acidente, do avião e tal.

Assim que me dou conta, olho para o lado e vejo exatamente a mesma imagem do aeroporto que via pela TV: um barranco com grama. Lembro que foi exatamente ali que o avião caiu e tudo mais, e penso:

– Porra, podia passar um avião agora.

Meus desejos então são atendidos: um avião decola, passando tão perto de mim que se eu estivesse com os braços erguidos, teria as mãos amputadas pela hélice do aeroplano. Mentira, avião o avião não tinha hélices e passou alto pra caralho. Mas ao menos deu pra ouvir o som, o que era inédito pra mim até então. Quando me toco de que tal avião é da mesma companhia que havia jogado um outro avião contra a própria sede, mais conhecida como TAM, minha vontade foi descer da moto e ajudar a empurrá-la, na esperança de nos tirar da linha de fogo o mais rápido possível.

Alguns minutos depois, estávamos em casa. Tive um almoço sensacional, coisa de pai e filho: marmitex e salada. Talvez o primeiro almoço pai e filho que tive na vida, espero que não seja o último. Mas a falta do que fazer me derrubava e eu tinha um ônibus pra pegar em 4 horas.

Antes do embarque, o último causo que a capital paulista me proporcionou foi talvez o que mais me satisfez. A mesma garota que havia me tirado do assento na viagem de ida pegaria o ônibus anterior ao meu, então nos encontramos na plataforma de embarque. O ônibus já estava atrasado e ainda tinha gente pra entrar. Ela então acendeu um cigarro e começou a falar no telefone. Todos haviam entrado, o motorista estava esperando só ela, e o cigarro ainda pela metade.

O motorista falou educadamente com ela, mas ela não deu muita atenção. Continuou fumando. Perdendo a paciência depois da terceira tentativa frustrada, o motorista fez algo MUITO, mas MUITO badmanner: entrou no ônibus, ligou os motores e… FECHOU A PORTA! A guria jogou o cigarro LONGE e bateu na porta pra entrar, gritando. O motô então riu da cara dela e abriu a porta. Se eles são treinados pra fazer isso, esse cara era o primeiro da turma.

A viagem de volta foi mais tranquila do que esperava, quando acordei estava em casa.

Bom, a história [DA VIAGEM] termina aqui. Espero ter passado pelo menos uma parte das boas “emoções” que vivi, e peço desculpas pela demora entre os posts. Espero profundamente que experiências assim se repitam por muitas e muitas vezes, afinal a recompensa é sempre muito, muito grande.

[Edit]

Não galera sahdlçkafasdf não terminei com a Laura não, ainda terão muitas viagens hahdlkasf inclusive tô com uma programada pro fim do mês. SÓ QUE SEM POST DESSA VEZ, quero ter um pouco de privacidade com a minha calanga heh .

Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

12 comentários em “Uma história de muitos títulos – Parte IV”

  1. Porra, legal a historia. Principalmente o almoço com seu pai, essa parada de pai e filho é foda.

    E o motorista ainda foi muito bondoso, ja vi muito comportamento bizarro em onibus por aqui…

    por ex, não sei se ja viu, mas de vez em quando passa aqui nos jornais de neguinho pegando onibus pendurado, antigamente tinha nego que “surfava” no onibus tb, etc

    Lembro de um dia indo pra escola (ESSA É VELHA HEIN), fui pegar o onibus, quando passa na minha frente um onibus (em movimento) com um sujeito parecendo um mendigo pendurado na janela. Legal é que a galera que tava dentro do onibus estava socando as mãos do cidadao e usando a janela pra fazer ele cair.

    E ele caiu.

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  2. @Muisinha_xD

    Hahahçldkf pô, foram duas noites mal dormidas mais 6 horas de viagem num dia só, e eu não dormisse chegaria em casa UMA MÚMIA!

    Ah, e a URL do seu blog deve estar errada. Tenta arrumar na próxima vez que comentar, que depois fica automático! :*

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  3. “Alguns eram brancos. Brancos. BRANCOS!”
    Caraca, por aqui ainda não tá essa decadência.
    E ainda tem gente que é doido pra ir a SP… e eu sou chamado de maluco ¬¬’

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