Sobre maturidade, boas festas e as cabeças de pedra na Ilha de Páscoa

Quando somos pequenos, queremos crescer. Quando crescemos, queremos que mamutes pisoteiem nossas costas na intenção de fazê-las parar de doer. Quando crescemos mais ainda, podemos roubar fila do banco. Esse é um pequeno resumo da vida do ser humano, mas como postar duas linhas de texto é coisa de blogueiro profissional, vamos exaltar nosso amadorismo e fazer uma análise mais profunda da maturidade, o tema “escolhido” por vocês na última OJincana.

Na real, hoje em dia é comum pensar que a maturidade vem com o tempo, com a idade. Isso é uma besteira tão grande quanto dizer que seu primo Carlos nunca pegou sua namorada. Quem você acha que é mais maduro: uma criança de 12 anos que trabalha numa mina de carvão no sul da Malásia ou um imbecil de 17 anos que faz cosplay de Naruto?


Fato rápido: Cosplay é coisa de retardado, e essa foto é feita de puro WIN

Maturidade, pelo menos no conceito por mim aprendido, é a união de juízo, bom senso e responsabilidade. O fator “idade” não entra nesse conceito pois na SOCIEDADE OCIDENTAL CAPITALISTA em que vivemos às vezes isso é irrelevante. É raro encontrar pessoas de 16 com cabeça de 20, mas é muito comum encontrar cabeças de 16 num corpo de 20. Já no Iraque, é fácil encontrar cabeça em tudo que é lugar, vai vendo.

Vamos tomar exemplos para ilustrar melhor o que estou dizendo.

O primeiro caso é Jorginho, garoto da zona sul carioca, muito bem de vida. Seu pai trabalha numa grande multinacional, um emprego estável e com salário pomposo. Gosta de baladas, academia e beber com os amigos. Jorginho acaba de completar 18 anos e – como é o garotão da família – ganha de presente um carro zero quilômetro do pai.

Jorginho então começa a viver intensamente sua juventude. Pela manhã, mata as aulas do cursinho para pegar onda na praia. À tarde, academia. Seis vezes por semana, esporte é saúde. À noite, pega o carro e sai com os amigos para barzinhos, enche a cara e volta bebaço pra casa. “Sou um excelente motorista, sou consciente”, diz Jorginho.

Visa a faculdade de administração. Quando perguntado sobre o quê vai fazer quando formado, Jorginho diz de pronto: “Quero acabar essa merda e curtir a vida”.

Por outro lado, temos Pedro. Garoto pobre do subúrbio paulistano, Pedro mora com a mãe e é o mais velho dos três irmãos. Filho de Dona Suzete, Pedro desde pequeno sempre foi o responsável pelas crianças.

Cursou todo o ensino fundamental em escola pública, ralou como um cachorro pra conseguir meia bolsa de estudos em um colégio particular. Enfrentava duas horas de ônibus por dia para chegar ao colégio, do outro lado da cidade. Quando chegava, cuidava da mãe e dos filhos.

Quando completou 18 anos, Pedro conseguiu emprego numa empresa média perto da sua casa. Com o salário mínimo que ganhava, ajudava a mãe nas despesas da casa e juntava um trocadinho pra pagar sua carteira de motorista. Luta para conseguir bolsa de estudos, não importa o curso, para fazer uma faculdade, se formar e dar condições melhores para sua mãe e irmãos.

Depois de enxugar esta pequena lágrima que acaba de rolar pelo meu rosto, vamos chegar a conclusões: Jorginho está longe de ter a maturidade de Pedro. A política festa-balada-bebida de seus 18 anos é tão adulta quanto a de salgadinho-bolo-brigadeir dos 10. Algumas pessoas acham que crescer é poder chegar em casa às seis da manhã e consideram isso lindo.

Atingir um grau de maturidade exige, sim, um boa educação desde pequeno. Se o cara cresce, como diz o grande pensador Gil Brother, “criado a leite com pêra, com ovomaltino”, ele acaba pensando que a vida é assim mesmo. Trabalhar pra quê, se tudo cai na tua mão?

Podemos cair naquela velha discussão de “escola particular x escola pública”. Nada contra os estudantes de particulares, mas na pública você acaba aprendendo a viver por tabela. Professor mal-pago dando uma aula vagabunda e falando

– Daê pessoal, prova dessa matéria que dei uma resumida hoje.
– AHHHHHHHHH PROFESSOR
– SE VIRA NOS TRINTA IRMÃO FLW

Ou você se vira, ou você se fode. Nem mamãe nem papai podem te ajudar nessa hora, mermão. Poderíamos extender essa conversa de pub x private por horas e horas, mas deixaremos isso pra um post futuro. Ao invés disso, vamos dissertar sobre o principal passo rumo à maturidade: o trabalho.

Nada – quando eu digo NADA eu quero MESMO representar NADA, a antítese de TUDO – tem o sabor de comprar algo com o próprio esforço. Talvez nem aquele Nintendo 64 que teu pai te deu no Natal de 1999 seja tão especial quanto o que você pode pagar com o dinheiro que você suou para conseguir. Trabalhar é adquirir e gerir responsabilidades, é evoluir, crescer.

Mas algumas pessoas confundem maturidade com velhice. E como estou ficando viciado nesse lance de TOP TANTAS, vamos fazer um TOP 6 COISAS QUE VOCÊ DIZ E TE FAZEM SE TOCAR QUE TÁ FICANDO VELHO.

6- “Ai, minhas costas”

Bom, nada melhor que começar pelo que te mata. Afinal, você nunca viu uma criança com problema de hérnia de disco ou com as costas travadas. Viu? Exceções, quem precisa delas?

Conforme você cresce, seu corpo começa a tomar a forma que vai ter pro resto da vida. Homens ou mulheres, aos 21 anos seu corpo pára de mudar, passa por uma fase estável e então COMEÇA A SE DECOMPOR. Saber lidar com isso é a diferença entre o velhinho saudável que corre todas as manhãs no parque ou o cadáver que habita a gaveta 33 do necrotério.

Eu, por exemplo. Não levo a vida mais saudável, mas não tenho vícios. Não fumo, não bebo, não exagero na comida. Porém tenho uma vida sedentária – e muito agradável, diga-se de passagem. Há três semanas fui premiado com algum problema relativo ao fígado, que me proporciona enjôos full-time e dores de cabeça purgatoriais. Criança tem problema no fígado? Não! Só velho tem problema nessa merda.

5- “Isso é perigoso!!!”

Eu passei a considerar os brinquedos de playground infantil as armas mais mortais do mundo. Cara, imagina a criança descendo por aquele escorregador, sair errado e quebrar as pernas? Porra, e aquele balanço feito de corrente e pneu? Que graça tem brincar na merda da gangorra? Bombas de festa junina? Caralho, alguém tira esses estalinhos da mão do Robertinho antes que ele exploda os dedos!

Você esquece de que já foi criança e que tinha total controle desse tipo de situação e passa a considerar aquelas brincadeiras tão seguras quanto manejar um reator nuclear sem proteção.

4- “Quando eu tinha sua idade…”

Isso costuma acontecer quando você se relaciona com pessoas um pouco mais novas. Mesmo se a diferença for de três, quatro anos, você começa a tratar a outra pessoa como se já tivesse vivido a vida dela. Você começa a falar “Quando eu tinha tua idade, eu fazia isso também. Logo, logo passa.”

Ser mais velho é ser superior em alguns casos, mas isso já é sacanagem.

3- “Não tenho tempo pra experimentar”

– Ah mas porque você não usa o Chrome? É novo!!
– Gosto do Firefox, não tenho problemas com ele.
– Mas você tem que experimentar!!!2

Novidades acabam perdendo o sentido. Se você está feliz com o que usa, porque experimentar o novo? Essa “fascinação pela novidade” acaba se esvaindo com o tempo, caso você tenha preguiça de ser moderninho. Não é necessário dizer que, talvez, esse seja o problema que mais me aflige.

Olha que legal: não gosto to twitter e tenho um blog.

2-“Eu sou do tempo que…”

Bom, eu usei Windows 95, tive um 386, um Master System, usei disquetes, frequentei religiosamente salas de bate-papo, usei ICQ. É engraçado perguntar “você é do tempo do ICQ?” e receber um “não” como resposta. Porra, como alguém nunca usou o ICQ? Aqueles números eram tão… modernos!

Às vezes se torna até difícil entender como alguém simplesmente pulou a era da inclusão digital do começo deste século e já manipula as mesmas ferramentas que você. É mais ou menos como o homem das cavernas deixar a roda de lado e comprar um carro flex.

1- “Você nem era nascido”

A fronteira final. Nada é mais tiozão do que dizer que a outra pessoa não era nascido em certa ocasião.

Se um dia você disser isso por acidente, sem a intenção de reafirmar sua condição de pessoa mais velha, pode começar a utilizar a fila dos aposentados nos caixas de banco e frequentar as aulas de ginástica da terceira idade.

***

De resto, gostaria de deixar um lindo cartão de Natal a vocês, leitores e amigos.

Cartao de Natal Odeio e Justifico

A gente se vê em 2009!

Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

32 comentários em “Sobre maturidade, boas festas e as cabeças de pedra na Ilha de Páscoa”

  1. O ICQ foi um treinamento para minha vida adulta. gravar senha de banco e telefones importantes ficaram fáceis depois de se lembrar de 5 contatos no ICQ. A máquina formando o homem.

    Quanto ao Natal, realmente é estressante. Você passa 1 mês contanto o seu salário com presentes para dar a entes obrigatoriamente queridos para, na grande noite, ganhar aquele par de meias ou cuecas cinza citadina da sua titia carlota. É frustrante.

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  2. Posts como esse fazem com que eu tenha vontade de te dar um grande abraço de Natal. Mas sem muita empolgação, pra não machucar o ciático.

    Bom final de ano, e que em 2009 as cabeças de pedra da Ilha da Páscoa apareçam pra uma visita em Sertãozinho.

    Beijo!

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  3. Nossa, preciso dizer que ri demais com esse post. Demais mesmo! E, por exemplo, eu não tive ICQ. :O
    Porém, também usei o Windows 95, disquetes, e todo o resto.
    E, sabe, aheuiashauhsaih , eu presenciei você dizendo algumas dessas coisas :B

    Bom, Feliz Natal para você ;*
    Beijos.

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  4. Maturidade tem a ver com experiencia, bagagem de vida, não com idade. E tem gente que começa a adquirir isso a partir dos seis, e outros, não adquirem nunca.
    Parabens pelo post e feliz compras, digo, natal pra vc tb!!

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  5. @Redshank

    Eu tava zoando, mas sobre o Noelzão boladão é meia verdade. Óbvio que a Coca não criou o velho, mas as cores das vestimentas que ele usa são sim influência – pra não dizer ‘criação’ – da Coca.

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  6. @ Raphs

    Criação eu não digo, porque em 1886 um cartunista americano chamado Thomas Nast pintou o véio de vermelho branco etc.
    Mas aí os porcos capitalistas da Coca Cola se apropriaram a imagem convenientemente colorido como o seu logotipo então você está coberto de razão quanto a influenciar.

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  7. O Luke falou que você tem orgasmos com o 2001: Odisséia no Espaço.

    Cara, eu convenci todos os meus contatos online a mudarem os seus nicks de MSN pra personagens de 2001 e tirei um Print Screen.

    Dr. Heywood Floyd, Dr. Francis Poole, Dr. David Bowman, Dr. Doctor Sivasubramanian Chandrasegarampillai (Luke), até a Discovery, o Hominídeo e o Monolito tinha. E eu, claro, HAL 9000.

    Foi um verdadeiro Milagre de Natal.

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  8. Eu fico feliz de achar um fã do que é bom, porque sinceramente, pra achar um só que nem você que lê algo que não tenha “NARUTO” escrito na capa já é bem difícil.
    De qualquer forma, me adicicone no MSN pelo e-mail no comentário. Gente com quem discutir Arthur Clarke e Douglas Adams nunca é demais. Muito menos gente pra zoar Coplayers e Narutards hehe.
    Sem falar que depois a gente vai fazer a mesma coisa com o Douglas Adams.
    E só pra constar:
    ARTHUR DENT JÁ SOU EU.

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  9. Caralhooo Raphaaa…
    Você sempre trampo cum sua mãe.. não que isso seje ruim pra você pois ela é sua mãe… agora pensa e EU ?? huahshasuas
    Engraçado como você já flo a maioria dessas coisas pra mim ¬¬’

    E não.. eu nunka usei ICQ !!!!

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  10. Caralho, eu tô velho. Do top 6 eu já fiz 5 coisas, só ñ fale ainda: ” Você nem era nascido”.
    Porra, mas é verdade, eu ñ tô mais com animo pra experimentar as novas técnologias, vou ali comprar meu caixão e já volto.
    Muito bom o post.

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  11. Malz cara, mas eu acabo de desassinar o Feed e deletar seu blog dos favoritos.
    Porquê?
    Pela simples frase: […]Podemos cair naquela velha discussão de “escola particular x escola pública”. Nada contra os estudantes de particulares, mas na pública você acaba aprendendo a viver por tabela. Professor mal-pago dando uma aula vagabunda e falando[…]
    Eu estudo em Escola Particular sim e não sou nenhum “Playbozinho do caralho”.
    Então vai pra PQP dizendo que escola pública ensina como se vive.
    Passar Bem.

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  12. @Mark

    Beleza, vamos comparar. Você conhece escola pública? Já estudou em uma?

    Se você tiver coragem de comparar as condições que você tem numa escola particular com uma pública, estamos à sua disposição.

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  13. @Mark
    Cacete, ele não falou isso e nem insinuou de leve isso. Só disse que escola pública é uma realidade mais difícil. Quem tá dizendo que todo mundo que estuda em particular é playboyzinho é você, cara.
    E para compensar o feed que você tirou, vou assinar o feed do blog na minha outra conta do google 😀
    OLOlOloLoLOlOloLoLO SE FODEU OK

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  14. @Mark
    Eu não posso comparar pois estudei a maior parte da minha vida em escola particular, mas sinceramente, eu não fiquei com raiva ou algum sentimento similar ao ler o post não. Sinceramente acho que você é um playboyzinho que não tem nada melhor pra fazer, ou é daqueles forrozeiros de pavio-curto porque PQP, se extressar tão facilmente assim é coisa de gente velha.

    @Raphael
    Gostei do post e do blog, parabens. Cheguei a conhece-lo melhor ultimamente, já que o link pra ele está no blog do MamotromicO.

    Ok, agora deixando esse puxasaquismo e essa propaganda do blog alheio de lado, eu tambem usei o Win95, mas estou numa fase mais “open source” da vida… ao menos com o Linux eu me livrei de boa parte das dores de cabeça. Faz um post sobre o que voc? pensa sobre Linux e Windows.

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  15. O post ficou muito bom,acabei de conhecer o blog,eh realmente eh muito bom,mas tenho ke dizer ke vc esta equivocado quanto ao argumento sobre escola publica : passar em escola publica eh a coisa mais facil do mundo,ate analfabeto se forma no ensino publico,ja vi acefalos se formando,eu sei disso porke estudei minha vida inteira em escolas publicas.

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