Sobre Xboxes, jogatinas e as cabeças de pedra na Ilha de Páscoa

Das coisas que me lembro de quando era moleque, cerca de 83,4% correspondem às incontáveis horas em que passei sentado com meu bumbum em uma cadeira de plástico, defronte a uma televisão de 14″, jogando videogame.

É claro que eu, como você, tive infância. Também joguei futijolo, galinha no ar, bets (taco em alguns lugares), bolinhas de gude, pião, pipa, pique-esconde e… apresentador do Disney Club (CRUJ CRUJ CRUJ TCHAU, lembra?). Mas as memórias mais claras se referem a aventuras vividas no mundo dos videgames, sejam estes momentos solitários ou em comunidade, já que todos os meus amigos tinham o mesmo vício, era como um requisito básico.

Se daqui 74 anos, quando estiver redigindo mentalmente minha biografia, decidir separar o livro em capítulos, cada capítulo será nomeado com o nome do videogame que tive enquanto vivia tais momentos.

INFÂNCIA

Tenho poucas recordações de meu Atari, meu primeiro videogame. Lembro que ele ficava guardado em casa, lembro que meu pai tentou instalá-lo certa vez sem sucesso. Não cheguei a jogar meu Atari enquanto criança, mas tive contato com um alguns anos atrás.

Depois disso, veio o Master System, por volta de 1993/94. No que se refere a críticas e resenhas de sites especializados e a humanidade em geral, o velho Master não era páreo para seu concorrente direto, o revolucionário NES. Em meu Master System, lembro de jogar algumas pérolas como Alex Kid e Jurassic Park. Entretanto, as memórias referentes a tal console páram por aí.

Algo curioso acontece quando tento me recordar do meu Mega Drive III. Em alguns momentos, me lembro sim de possuir um Mega Drive e me divertir horrores morrendo na segunda fase de Sonic, mas estas memórias também páram por aí. Mesmo eu sendo o dono de um Mega Drive III, ele passou mais tempo na assistência técnica do que comigo! É tão estranho – e triste – pensar que às vezes eu duvido que realmente tive o console.

Então, veio o Super Nintendo. Dizem que não há nada como a manhã de Natal, onde você encontra aquele presente super irado embaixo da árvore, se dá conta que é seu e abre ele com os olhos cheios de lágrimas, certo? Errado. Você pode somar a sensação de vinte natais como esse consecutivos que, mesmo assim, não chegará perto do orgasmo de acordar de manhã e encontrar um Super Nintendo sobre sua cama.

Era de manhã, meu pai tinha acabado de chegar de viagem e trazia consigo um Super Nintendo. Eu, no auge de meus 7 anos, talvez não me desse conta do que um Super Nintendo significava, e tampouco imaginaria o que o Super Nintendo me proporcionaria. Junto com o console, recebi dois controles e dois jogos: Super Mario All Stars, uma coletânea de todos os Marios já lançados e Super Metroid. Não há nada muito o que falar sobre Mario, mas Super Metroid se tornou algo tão obscuro pra mim que parece que minha mente tenta mudar de foco quando toco no assunto.

Como destruir meus sonhos em apenas trinta minutos.

Desde pequeno tentei jogar Super Metroid. O enredo tenso, o clima solitário e caótico do jogo, algo que nenhum outro jogo daquela geração conseguiu transmitir, faziam a merda saltar pra fora de mim. Tive poucos jogos, não mais que uma dezena. Entre eles, Campeonato Brasileiro III, a primeira versão brasileira de um jogo de videogame, um hack de International Superstar Soccer Deluxe. Este jogo tem história.

Outros jogos também prendiam minha atenção com o Super Nintendo, como Bomberman e Mario Kart, mas nenhum outro tinha tanta competição quanto Campeonato Brasileiro. Se eu fosse narrar todas as desventuras que Campeonato Brasileiro III me proporcionou, abriria um blog alternativo só para tal. Todos os amigos da rua jogavam o mesmo jogo, o que aumentava ainda mais a vontade de trucidar os vizinhos na pelada virtual. A disputa atingia seu máximo nas competições organizadas por Ronaldo, o Ruivo, que em seus cadernos esquadrinhava campeonatos astutos, até com prêmios virtualmente reais, porém que nunca (NUNCA) tinham seu fim.

A febre do SNES só passou quando todos da rua começaram a adquirir Playstations, por volta de 1999. Me sentia reduzido ao ouvir conversas sobre jogos em CD, gráficos “perfeitos” e jogos absurdamente desafiadores como Resident Evil. Para compensar, eu era obrigado a bater cartão em todas as locadoras que alugavam consoles por tempo, parentes distantes das atuais LANs, para adentrar o tão badalado mundo dos 32bits. Até que minha sorte virou.

Era 1999. Certo dia meu pai me ligou de São Paulo e disse que havia adquirido um Playstation para mim. Não acreditei de primeira, até que ele deu detalhes sobre um dos jogos que acompanhavam o console: Crash Bandicoot 3: Warped. Em grande parte das andanças por locadoras, Crash 3 era o grande responsável por reais e mais reais gastos em horas perdidas – afinal, não podia salvar o jogo e todas as vezes tinha que começar de novo.

“É uma raposa vermelha que pula e gira”, disse ele pelo telefone. Era verdade: eu tinha um Playstation.

ADOLESCÊNCIA

Meu pai viera de São Paulo pra cá de madrugada, chegava sempre por volta das quatro da manhã. Naquele dia, eu acordei às quatro da manhã e fiquei camperando a porta, esperando pelo console. Antes do sol nascer, eu já havia instalado o Playstation em minha televisão de 9″ – acreditem, era mesmo uma televisão de 9″. Ao cantar do primeiro galo, eu já estava salvando meu jogo pela primeira vez.

O Playstation me proporcionou tantas ou mais emoções que o Super Nintendo. Mas alguma magia envolvia as fitas do SNES, uma vez que eu possuía apenas seis ou sete cartuchos. Na época do SNES, eu não tinha capital de giro suficiente para adquirir novos jogos – ou simplesmente não interessava por outros, afinal tinha Campeonato Brasileiro III. Nos tempos de Playstation, eu já recebia uma mesada de valor exobitante, capaz de alimentar um somaliano por toda sua vida: R$ 10. Coincidentemente ou por obra do destino, os jogos de PS custavam exatamente 10 reais.

Segundo as últimas contas, eu tive mais de duzentos jogos de Playstation. Destes duzentos, cerca de cem eram interessantes, cinquenta eram lixo e outros cinquenta eram abortos encontrados em meio a escombros de orfanatos de crianças com câncer destruídos por robôs assassinos de Saturno. Quantos meses fiquei sem adquirir novos jogos? Um, no máximo. Quantos joguei por mais de dois meses? Menos de cinquenta. Quantos terminei? Menos de dez.

Não só todos na rua como todas as pessoas do universo agora possuiam Playstations. A troca de jogos e escambo de informações eram mais frequentes que a bolsa de valores. Neste período, eu costumava gastar quase 100 reais por mês com revistas de videogames.

Me despedi do Playstation em 2003, trocado por um HD de inacreditáveis 40GB – o que, na época, era algo relevante. Durante três anos, houve um hiato total. Essa época coincidiu com a descoberta do poder gamístico do Computador e seus MMORPGS (leia-se Ultima Online) e FPS (leia-se Lan Houses armadas com Counter Strike).

Durante todo este período, eu sempre quis adquirir um Playstation 2. Como minha mesada era tão relevante quanto um cahorro de rua, eu me sentia mal por não ter condições de adquirir o console mais sensacional de todos os tempos, na época. Comecei a trabalhar em 2005, e na primeira promoção adquiri um Playstation 2.

Mesmo eu nunca tendo tocado em um PS2 antes de adquirir o meu próprio, não houve a mesma magia de quando eu ganhei o SNES ou o PS. Eu tinha em mãos o videogame mais sensacional da galáxia e não me sentia tão especial como me sentira em outras ocasiões. Mesmo o console dando alguns defeitos no começo, ele foi ganhando meu respeito.

A história do PS se repetiu com seu filho mais novo. Tive (até hoje tenho) cerca de 100 jogos, dos quais terminei grande parte. Nessa época a aquisição de novos jogos era mais seletiva, uma vez que eu podia BAIXAR e GRAVAR quaisquer jogos que quisesse, graças ao advento do BitTorrent.  Isso me possibilitou baixar os melhores jogos já lançados para o console, como Pro Evolution Soccer, Shadow of the Colossus, Resident Evil 4 e Onimusha. Entretanto, o vício em baixar jogos foi aumentando e acabei fazendo uso de coisas mais pesadas, como Echo Night Beyond, True Crime e tantos outros mais.

Se você leu até agora e não dormiu, deve estar imaginando: porque ele fez todo esse discurso até agora? Eu explico.

IDADE ADULTA

Hoje, dia 11 de Setembro de 2009, adquiri um XBOX 360. O “Treco”, como o batizei, ocupa o mesmo lugar na estante que até hoje de manhã era ocupado pelo Playstation 2, que foi utilizado como laranja no esquema. Boa parcela de culpa cai sobre a Pam, minha namorada e fiel escudeira, que quase bateu no atendente que ignorava minha presença.

Janis does not aprove

Mesmo de posse do videogame mais potente de todos os tempos, a falta de magia que aconteceu com o PS2 continua. Eu passei anos maquinando planos para conseguir adquirir a caixa e, quando finalmente o tenho, não sinto a mesma magia do SNES ou do PS1. Existe, claro, uma ansiedade para jogar e descobrir tudo o que ele tem a me oferecer, mas tenho tantas outras coisas para fazer que posso tranquilamente deixá-lo esperando e fazer outra coisa, algo que jamais faria quando ganhei o PS, por exemplo.

Pensando nisso, cheguei a duas conclusões muito simples. A primeira que, é claro, é muito mais gostoso ganhar algo que você quer muito de presente, ainda mais se não houver motivo algum para tal (natal, dia das crianças, aniversário).

A segunda é que eu nunca mais vou sentir magia alguma quando comprar alguma coisa. A magia estava em ser criança, e isso, não importa quantos consoles eu jogue, eu não posso mais ser.

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Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

27 comentários em “Sobre Xboxes, jogatinas e as cabeças de pedra na Ilha de Páscoa”

  1. Campeonato brasileiro III pra mim foi Ronaldinho Soccer, 97. Quantas horas e horas jogando esse jogo com meu irmão, e eu, sendo mais novo, sempre tentando superá-lo. Além de Killer Instinct, melhor jogo de luta, que sempre me deixava com os dedos calejados. Ótimo texto, me fez lembrar da minha infância sedentária, na frente da Tv, sempre gritando para meu pai: “pera aí, deixa eu terminar aqui pra pegar o password”.

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  2. Cara isso ainda persiste em mim! Quando comprei meu Wii (com 18 anos nas costas, meu primeiro console!!), 2 anos atras tive esse tesão de ter um video game. So nao tive antes pq nao via magia do SNES no PS… Tinha grana pra comprar mas prefira rachar a grana e comprar jogos pra SNES e N64 com meu amigo, dono dos consoles…
    E ano passado quando comprei meu iMac! 24 inchs de puro tesão!!

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  3. Triste isso, cara. De certa forma nossa geração foi diferente. Eu passei por tudo isso que vc passou e sabe o que me animou? Foi quando minha esposa me incentivou a comprar um SNES de novo e uma daquelas mesinhas de Taito. Tá montado lá em casa, me sinto uma criança jogando Donkey Kong e Street Turbo II, por esse último eu quase saí na porrada com o vendedor (Ele não queria vender e a mãe dele disse que era pra vender. Detalhe, o cara tinha uns 45. Mas enfim, me sinto feliz, espero que vc consiga tb.

    Sempre leio seu blog e acho legal quando sai algo novo. Nunca tinha comentado eu acho, mas enfim…

    Abraços.

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  4. Vixe! Me identifiquei muito com isso tudo! Digo, pois grande parte da minha curta história de vida de 24 anos, foi bem parecido. Passando por atari, master system e afins… é realmente muito gostoso lembrar da infância. Lembro de campeonatos que meu irmão promovia (mesmo na época do atari), com direito a video-game no chão sempre (devido a empolgação de todos, puxadas de controle, etc). Lembro também, que o vizinho tinha um “daktar”, uma espécie de cópia do atari, que rodava os mesmos cartuchos. Caramba, tanta coisa pra se lembrar… dá até gosto.

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  5. Minha infâncias foi marcada apenas por ganhar meu velho Turbo Game II, vulgo nintendinho, com duas entradas para os dois padrões diferentes existentes na época. Se eu tivesse idade para saber o que era gozar na época o teria feito.
    Os outros só mesmo na casa dos amigos, tudo isso devido as condições financeiras do meu pai na época.
    Obs.:
    “Metróide rulez! Horas e mais horas perdidas com ele! Assim como a grada do aluguel, mas o cara me deixava salvar…”
    Fecha aspas.
    Mas até hoje sinto essa magina quando adquiro alguma coisa, como foi quando comprei meu primeiro PC, meu laptop, meu carro…

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  6. nossa, eu acho que ja tive uns consoles tbm, mas nunca soube o nome de nenhum *criança aleatória e alienada que só gostava de dar carrinho e levar falta nos joguinhos de futebol*

    hoje eu gosto do nintendo wii! é fumado pacas o/~

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  7. Fechou com chave de ouro: “A magia estava em ser criança”.

    A magia estava dentro de nós, e ela foi embora junto com a inocência.
    Uma vez expulso do paraíso, não dá pra voltar.
    Aí só resta relembrar e tentar resgatar o tempo que não volta mais. A infância e a inocência, assim como o xbox, ficaram relegados a segundo plano.

    Por isso que o Cypher diz, no filme Matrix – enquanto mastiga um filé digital, -Ignorância é felicidade.

    Amém? Agora vamos nos matar.

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  8. Eu discordo. Hoje a emoção que eu tenho ao comprar um novo console é mto maior, pq hj sou eu quem tenho de economizar grana durante meses para poder comprar os consoles, aí eu faço todo um estudo, fico meses olhando os jogos que me interessam até decidir, procuro onde comprar… é praticamente um Achievement quando o console chega nas minhas Mãos.

    Antigamente era mais simples, eu queria um videogame pq eu tinha jogado na casa dos meus primos e gostado xD

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  9. hahaha me vi muito no post até a parte do xbox -nunca tive xbox, nem tenho vontade- e lembrei de jogar um joguinho naval no atari, dos campeonatos de mortal kombat no mega drive e donkey kong varando a madrugada no SNES, aí veio Resident Evil e os Crash’s (tinha todos) e com o play 2 perdi a vontade de jogar :/ exceto os clássicos campeonatinhos de Winning Eleven e agora tô procurando um Super Nintendo, que pra mim é o melhor; preciso de um antes de ir pra Faculdade D: obs: ótimo blog ;]

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  10. Adoreii Ri de mais !

    Parabéns ! esse Texto é muito emgraçado .. kk’
    Cinceramente, sinti a mesma sensação quando quebrei o Playstation 1 do meu irmão! Por grande inocencia, aliais, tinha 15 anos e não sabia oque signficava para ele ! kk’
    Me me senti muito melhor e ele (meu irmão! ) também.
    porque meu pai foi obrigado a comprar anos depois um Playstation 2 ! por alguma culpa que ele tinha de ter concebido uma filha tão inocente como eu.
    Quando meu irmão ganhou o play2 ele pediu a minha mãe que colocasse 2 chaves mestres em seu quarto para eu não poder entrar!

    Infelismente nunca tive a oportunidade em poder tocar novamente no playstation do meu irmão, e muito menos poder Jogar Residente Evil novamente.

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