Sobre Enem, narizes de palhaço e as cabeças de pedra na Ilha de Páscoa

Para falar de um assunto que aconteceu semana passada, é necessário voltar mais ou menos 33 anos no passado.

O fantástico ano de 1976 foi marcado por acontecimentos nunca antes vistos na história humana. Temos como principal exemplo a fundação da simpática cidade sul-matogrossense de Deodápolis, cidade tranquila, cheia de gente amiga e pagadora de impostos.

Também foi o ano de IMPLANTAÇÃO e VIGORAÇÃO da LEI DE GÉRSON, o estandarte que guiaria nossa querida terra-brasilis de ali em diante.

Segundo Gérson, este grande poeta, filósofo e meia armador que lançava bolas como ninguém, o brasileiro tem, por definição, a mania de tentar levar vantagem sobre o próximo, não levando-se em consideração coisas banais e ultrapassadas como ética e questões morais.

Não adianta mentir: você é brasileiro e segue a Lei de Gérson. Você, ao chegar adiantado no trabalho, escolhe a vaga mais próxima da chapeira e pica seu cartão meia hora antes do horário, com o intuito de gerar horas extras. Você não devolve troco dado a mais (“Que se foda, ninguém mandou não contar direito!”), mas reclama de troco dado a menos (“Caixa filha da puta, tá faltando 5 centavos!”).

Senhores, malandro é o gato que já nasceu de bigode.

Se você não caiu do berço e assistiu pelo menos um canal de televisão na última quinta-feira, 1, sabe que o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) foi cancelado. A prova seria realizada nos dias 3 e 4 de outubro. O motivo? Algum malandritos saiu berrando para todos os ventos que conseguiu a prova. E mais: quis vendê-la por míseros R$ 500 mil reais.

Agora stop. Hammertime.

O ENEM (doravante chamado Enem por questões bonitistas) é realizado desde 1998 como uma prova de avaliação da qualidade do ensino nacional. Nos últimos anos, o Enem ganhou destaque graças ao ProUni, programa do Governo Federal que, baseado na nota conseguida no Enem, dá bolsas parciais ou Integrais a alunos que cursaram apenas escolas públicas.

Até então, as questões aplicadas eram de pura interpretação de texto e lógica, com pouca ou nenhuma teoria, além da redação. A prova era conhecida como “melzinho na chupeta”, “mamãozinho”, “chuchu beleza” por qualquer aluno letrado que a realizasse. E, em 10 anos de realização, o Enem nunca havia sido cancelado e/ou adiado.

Este ano seria diferente. O Enem mudaria sua fórmula, passaria a empregar teoria de forma interpretativa – ou seja, nada de decoreba ensaiada em 3 anos de cursinho. E foi aí que o caldo começou a engrossar.

Deixo claro que não se trata de nenhuma investigação policial e/ou jornalística, não citarei nomes de envolvidos ou ligarei provas adquiridas. Mentira, farei TUDO ISSO SIM, mas just for the lulz.

Seguinte: sabemos pra que servem os cursinhos, certo? Cursinhos são ferramentas de adestramento de vestibulandos, treinando-os para serem certeiros e objetivos em determinadas provas. Caso você discorde, desenvolva a habilidade de escavar ossos de dinossauro, pegue um osso de sobrecoxa bem grande e escreva VESTIBULAR. Jogue-o através da janela de uma sala de cursinho. Pronto, você verá 200 adolescentes correndo atrás de um osso velho e riscado.

Ou como um cardume de atuns: todos se comportando da mesma maneira, mas ninguém sabe quem está imitando quem.


Dá uma rodadinha pra Fuvest aí gente!! Ooooobaaaa!

O que quero dizer com isso? Bom, se a nota conseguida no Enem agora dá um pequeno bônus em vestibulares diversos Brasil afora, a negada que faz cursinho vai correr atrás do Enem como loucos. E os cursinhos só lucram com isso.

Este ano, como disse anteriormente, a fórmula do Enem mudaria completamente e, com isso, os cursinhos começaram a investir pesado para tentar descobrir qual seria o lance da nova prova. Teríamos questões abertas? Questões teóricas, com lógica ou fórmulas? Tirando as poucas questões-modelo divulgadas desde o anúncio da nova prova, nada era certo.

Os adestrados então buscaram os cursinhos focados apenas no Enem (incrível como brota cursinho no mundo). O pouco tempo que o povo teve pra se adaptar à nova fórmula da prova é o que desperta essa minha primeira teoria.

Com a prova cancelada, os adestrados teriam que continuar fazendo cursinho, “se preparando mais”. Ou seja, os cursinhos iriam lucrar mais ainda.

A teoria #1

Algum responsável/proprietário de grande rede de cursinhos pré-Enem chegou para algum responsável do MEC e disse:

– Cara, esse negócio de fórmula nova tá dando dinheiro. Atrasa a prova aí que os bestas vão continuar pagando pra “se acostumar” com a prova.

O cara do MEC então veio para o público e inventou que a prova teria sido roubada. Isso não é das coisas mais simples, uma vez que a prova é aplicada em todo o território nacional e tem um sistema de segurança absurdamente controlado.

Mas… estamos no Brasil. Terra do futebol, de gente bonita, das Olimpíadas de 2016, de Isabella Nardoni. Aqui gente joga filha do sexto andar, nego mata gente com moto-serra, arrasta criança presa no cinto do carro. Você realmente consegue imaginar algo impossível de acontecer aqui?

A teoria #2

Segundo as últimas informações conseguidas por este respeitado blog em algumas pesquisas na respeitada Internets, a impressão do Enem custaria algo em torno de R$ 25 milhões de Ronaldos, que na cotação do dia valem aproximadamente R$ 25 milhões de reais.

Uma única gráfica é escolhida pelo consórcio que organiza e aplica a prova, e esta gráfica é responsável pela impressão de todo o material da prova que seria realizada em todo o Brasil.

As provas já estavam impressas – ou seja, R$ 25 milhões de reais em papel foram descartados. O serviço terá de ser refeito e as provas antigas, destruídas. PENSEM NAS PLANTINHAS!

Precisa dizer o que aconteceria? A gráfica receberia O DOBRO do planejado inicialmente! Neste caso, podemos simplesmente admitir que não houve roubo de prova nenhum – e simplesmente arrumaram um bode espiatório para declarar o roubo e assumir a culpa, enquanto outras pessoas lucravam seus ronaldos a mais.

É uma forma “policial” de desvio de verbas e superfaturamento. Aliás, isso é prática comum nas polícias corruptas, a apreensão de “provas reais encontradas na cena do crime”, como computadores, celulares e armas de fogo, são vendidos poucas horas depois da apreensão. Nego estoura barraco de traficante e apreende tudo o que vê pela frente: computadores, celular, televisão, tênis, tudo. Duas horas depois tá tudo vendido no pé do morro a preço de banana.

Teoria #3

Tudo acaba bem: a prova realmente foi roubada, os responsáveis são encontrados, interrogados e indiciados, a prova é remarcada para O MESMO DIA DE OUTROS SEIS VESTIBULARES!

Prestarei a prova, afinal é meu futuro em jogo ali. Ao invés dos cachorrinhos adestrados, vou tentar estudar na raça pra consegui uma nota alta e mamar nas tetinhas do governo.

Serei mais um a tolerar mais uma jogada dos superiores, que culpam um povo acostumado a assistir tudo pela televisão, inerte. Somos aconchegados, achamos que tudo é questão a ser resolvida pelo “governo”. O governo somos nós, suas antas!

Em outros tempos, organizaríamos um protesto durante a aplicação da prova. Se ainda fôssemos aquela juventude guerreira, que pintava as caras para mudar o país, que discutia política ao invés de ouvir música sertaneja, faríamos algo.

Consigo imaginar  uma multidão de jovens munidos de seus narizes de palhaço durante a aplicação da prova. Porque é isso que somos, é isso que aturamos ser. Sem medo de sermos barrados, protestaríamos.

Entretanto, vinte anos atrás, certo poeta (desta vez, de verdade) disse algo que, enfim, ecoaria vinte anos depois.

Até bem pouco tempo atrás / poderíamos mudar o mundo.

Quem roubou nossa coragem?

Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

16 comentários em “Sobre Enem, narizes de palhaço e as cabeças de pedra na Ilha de Páscoa”

  1. Eu não só concordei com cada palavra que tu colocou aqui, mermão, como vou passar a ideia pra frente.

    Acho assim. Nos acostumamos a reclamar demais e fazer de menos. É isso. Todos nós, sem excessão. É mais fácil organizar manifestaçãozinha via twitter, fazer revoluções de sofá, do que botar a cara na rua e anarquizar.

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  2. Já não é de hoje que vivo me passando por “mau-humorado”, “descrente”, “não-patriota”, “pessimista” ao comentar todos os absurdos do nosso país em conversas onde só ouço um “é mesmo…” em coro tipo: vamos logo falar de futebol que esse papo tá chato.
    Incompreendido por todos aqueles que estão com as “cangas no pescoço” e que torcem para chegar logo o domingo para encher a pança da macarronada da mama e sentar o bundão no sofá pra assistir o Faustão.
    Seu texto é, na íntegra, o meu pensamento, que não consigo traduzir em palavras pela falta do dom da escrita.
    Concordo com a Ana P. do comentário acima só fazemos revoluções de sofá, mas eu não me canso de, em todos as conversar que tenho oportunidade, tentar fazer com que as pessoas percebam o que acontece ao redor.
    Completo ainda a citação sobre o poeta:
    “Nas favelas, no senado, sujeira pra todo lado, ninguém respeita constituição, mas todos acreditam no futuro da nação. Que país é esse?”

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  3. Você escreve muito bem sobre temas polêmicos e consegue fazer com que esses temas, por mais chatos e batidos que possam parecer, se tornem legais. Além disso, você consegue abrir uma verdadeira discussão nos comentários.
    Que tal abrir um cursinho de redação pro vestibular/Enem? 😀

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  4. Ow Raphs, achei legal o começo, mas a conclusão ficou muito “pobre”. Me lembrou muito minha tia (nordestina) Cleide que mora na favela da Sabóia falando. Seeempre colocando os outros pra “lutar”. hehehe. Posta mais ae, esperei dias e dias por este MÍSERO (=P) post. Falou, abraços.

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  5. Cara, muito bom teu texto, sou prof da rede publica e meus alunos do 3º ano estão p…da vida com tudo isso…concordo em relação às teorias, mas discordo quando vc cita os cara-pintada porque eu estava na facul naquele tempo e nenhum dos meus amigos participou daquilo pelo mesmo motivo: a Globo (sempre ela) manipulou a opinião publica colocando no ar uma minisserie bastante inspiradora (Anos Rebeldes) e direcionando sua central de jornalismo para cobrir as denuncias…Boa sorte na sua prova!

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  6. Usei esse post pra um tópico na comunidade do ENEM no orkut , infelizmente , temo que muitas pessoas não lerão , ou até mesmo farão ” pouco caso ” , isso nada mais é que a famosa política do pão e circo adotada na Roma antiga , onde as pessoas são completamente manipuláveis , é revoltante o que o MEC faz com os alunos , extrema falta de consideração com os milhões de estudantes brasileiros !

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  7. Virei fã…
    Infelizmente vivenciamos uma “sena” (SIC) ridícula da juventude desse país que até um tempinho atrás realmente ia atrás do que queria, lutava e batalhava, hoje em dia batalhamos somente com nossas palavras o que não basta pra mudar alguma coisa aqui…

    Eu faço cursinho, ok mas tenho foco, to terminando a primeira faculdade, e só estou fazendo pra rever coisas que não vejo a 4 anos, mas eu entendo a indignação porque também me sinto assim, essa molecada nos seus 17 em diante não tem peso de representação alguma no Brasil, são moldes prontos de uma mídia manipuladora e pais enfraquecidos pela ausência, pais que não vêem o (não) crescimento de seus filhos, não incutem valores, logo eles (pais e filhos) tornam-se manés manipulados…

    Mas pense pelo lado bom Raphs, diante disso tudo, quantas pessoas dessas que citei estão abaixo de você? O lado bom do Enem, ou outros vestibulares, é que metade ou mais dessa galera não é concorrência pra quem tem maturidade e foco. Eles não se preucupam, não se movem… logo são apenas números pra contabilizar abaixo de quem realmente merece estar acima, sendo assim importantes pra contarem na lista…

    Abraços!

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  8. Já tão sabendo que a câmara aprovou o fim do décimo terceiro? Agora parece que tá em apreciação do Conselho Nacional. Até onde sei, só falta o Presidente (com p maiúsculo porque é um p$%#) sancionar. E aí?
    Brasil, queira foder-se. Obrigado.

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