Sobre bóias frias, estilos e as cabeças de Pedra na Ilha de Páscoa

Anos atrás, quando ler um livro era uma atividade plausível possível no tempo-espaço continuum que eu habitava, eu realmente li um livro.

Neste livro, entitulado “3001: A Odisséia Final”, a história tinha como trama a vida de um homem que havia sido morto em 2001, mas ressuscitado um milênio depois graças à tecnologia da época.

Para o autor, seria muito mais difícil um homem de 1001 dC reaparecer vivo no quarto milênio do que um homem que vivera em 2001 aparecer em 3001.

Pólvora, energia elétrica, aviões, telefones, satélites, internet: praticamente todos os avanços essenciais para a vida no século XXI foram criadas ou aperfeiçoadas ao longo daquele século. O homem do primeiro milênio, que vamos chamar de “homem do primeiro milênio”. teria que se acostumar com tantas facilidades que seria praticamente impossível a ele entender como funcionam ou absorver tanta informação ao mesmo tempo.

Se você transportasse um cara de 1973 para os dias de hoje, quais problemas o cara poderia enfrentar? Certamente, o primeiro dos problemas seriam as vestimentas.

Vá até o quarto dos seus pais e pegue uma foto deles no ano de 1973. Existe uma grande probabilidade de você encontrar seu pai com cara de moleque, vestindo uma camiseta de estampas coloridas e aberta no peito, bastante peludo, presa ao umbigo por um cinto branco e uma calça boca-de-sino por cima da camiseta. Além do cabelo, cujo volume ultrapassava três metros cúbicos, você pode encontrar óculos de formatos esdrúxulos e imensos.

Bigodes e costeletas eram opcionais.

Passado o susto e a incontinência urinária provocada por minutos a fio de risadas intermináveis, mostre essa foto ao seu pai. Certamente, a reação do velho vai ser algo parecido com “Como eu era feio! Como eu tinha coragem de usar essas calças? E esse óculos?”, ou senão variantes disso.

Eu fico imaginando o que os adolescentes dessa geração vão pensar quando olharem para suas próprias fotos (ou para seus próprios fotologs ou álbuns no orkut) daqui 20 anos.

Antes de falar sobre isso, vamos a mais um minuto de sabedoria:

Me lembro do ano do Senhor de 2005. Eu, aos 15 anos, fazia o típico adolescente “revoltado” – como se fosse possível algum adolescente ter ciência de seus atos o suficiente para se revoltar contra algo – e me vestia como tal: calças rasgadas, sempre o mesmo tênis cansado, camisetas pretas e barba por fazer.

No auge da falta de ecleticismo musical, erguia a bandeira do grunge a todo custo e rejeitava qualquer outro estilo musical que me impusessem. Não só rejeitava, atacava. Problema vosso, faço a mesma coisa até hoje.

Durante uma tarde maçante (TÁ FELIZ, JULIANA?) no trabalho, provavelmente uma quinta-feira (porque tudo de ruim que acontece no Universo, inclusive sua criação, se dá numa quinta-feira), eu senti fome. Este, talvez a maior moléstia a acometer o ser humano depois da AIDS e da falta de internet nos finais de semana, era um problema sério e precisava ser resolvido. Munido de uma pequena parcela do meu já escasso salário de digitador, me dirigi a uma lanchonete.

Adentrando a lanchonete, estava-me a me concentrar na escolha dos salgados. Entre esfihas de carne que abrigavam moscas e enroladinhos de presunto-e-queijo que já chamavam a estufa de salgados de “meu querido lar”, a escolha era complicada.

Feita a escolha, me dirigi ao caixa para pagar os alimentos que, àquela hora, já estavam se despedindo de suas amigas de longa data (moscas, fungos e bactérias) e em breve habitariam por um curto período de tempo meu sistema digestivo. Enquanto esperava a esperta atendente me devolver uma quantidade irrisória de centavos, recebi um golpe duríssimo.

O golpe não teve exatamente a potência de um mastodonte piasndo sobre o meu crânio e depois urinando sobre minha massa encefálica. Pra falar a verdade, foi só a parte que envolve urina mesmo.

Alguns caras estavam numa mesa atrás de mim, conversando. Entre conversas indistintas, ouvi a expressão “bóia fria“. Ignorei, mas eles continuaram falando, elevando consideravente a quantidade de decibéis quando citavam “bóia fria”, em meio a risadas.

Saí do estabelecimento e me dirigi novamente ao trabalho. No meio do caminho, me toquei que… de certa forma, eu estava parecendo MESMO um bóia fria.

Foi aí que meu jeito de pensar deu uma volta completa ao redor do Sistema Solar. Na volta, após coletar meteoritos no cinturão de Kuiper, me dei conta de que as vestimentas não mostram o que você é, só mostram aquilo que você… quer mostrar para os outros, na esperança de que eles te julguem da forma que você quer.

Desde então, tenho uma idéia formada talhada em pedra: é uma imensa babaquice se vestir de acordo com a moda, ou de acordo com tendências. Sabe porquê? Modinhas são como sarampo: você pega uma vez e ela nunca mais volta.

Faça um experimento: tente convencer alguém que se veste igual retardado de que ele se veste igual retardado, só pra ver a reação. Alguns vão te esmurrar, outros vão chorar, outros vão bater o pé que é questão de “estilo próprio”

Estilo próprio? Se vestir exatamente igual a banda que você mais ouve é questão de estilo próprio? E quanto às centenas de bilhões de outras pessoas que também gostam da mesma banda e se vestem do mesmo jeito? Filho, se é questão de estilo próprio se vestir igual uma legião de pessoas exatamente iguais a você, você é um retardado.

***

q çlegal ein fera kkkkk d_++

Sabe uma coisa que eu acho ridículo, tanto por usar hoje, como pelo efeito que isso vai ter daqui vinte anos? Alargadores.

Mano, qual o propósito de fazer um buraco na orelha, enfiar algo de raio duas vezes maior lá dentro, só por… estilo? Não é bonito, certamente não é confortável e higienicamente é deplorável. Ao colocar o alargador, você praticamente monta um condomínio para bactérias, que farão de lá seu lar, doce lar.

E os riscos de acidente? Cara, todas as coisas do Universo são feitas para engastalhar em alargadores. Qualquer movimento bruso e SLAMFT você é o mais novo mutilado da vizinhança!

Daqui vinte anos, quando você não mais usar o alargador porque é um PAI DE FAMÍLIA RESPONSÁVEL, você ainda vai ter um buraco de três polegadas na orelha, parecendo um anel de cebola pendurado na cabeça.

Isso se você não se mutilar antes.

***

Não passe vergonha futuramente, seja como uma pessoa normal.

E, pra você que faz aquele penteado “passarinho nervoso” pra sair de casa, um aviso: daqui a trinta anos, você vai olhar pra suas fotos tiradas com celular na frente do espelho e vai dizer:

– Caralho, o que eu tinha na cabeça pra fazer isso?

Cabelo, filho. E usou ele muito mal.

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Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

22 comentários em “Sobre bóias frias, estilos e as cabeças de Pedra na Ilha de Páscoa”

  1. Esse negócio no estilo próprio é realmente verdade… usar o que uma legião de fãns como você usam não é ter estilo próprio, lesos aqueles que pensem o contrário e o alargador pra mim é só uma circunferência que com o passar do tempo possibilitará que você coloque os seus dois braços juntamente com a sua cabeça entre o seu meio dependendo da sua flexibilidade.

    E essa criança aí da foto já não é dotada de muita beleza, depois de passar essa coisa gigantesca, que no meu primeiro ver era outra coisa, conseguiu elevar ainda mais o seu grau de feiura.

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  2. Alguns vão te esmurrar, outros vão chorar, outros vão bater o pé que é questão de “estilo próprio”.

    E se disser “eu gosto de me vestir assim. Acha ruim? Morra de câncer no cu por isso”, o que acontece?

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  3. Meu caro, o que é bonito para você nem sempre é bonito para mim.
    Todas as pessoas são livres para analisar a beleza da forma como achar melhor, mas dai até dizer que pais responsáveis não usam alargadores tem milhas de distância.
    Quando você se identifica com algo e de uma forma ou de outra aquilo mostra um pouco de você, automaticamente vocÊ leva a ” coisa” para a sua realidade, acredito eu que seja assim com as pessoas que por diversas vezes acabam se vestindo, falando e se comportanto como uma banda ou como um grupo afim.
    Certas pessoas se identificam com uma banda e acabam se caracterizando como tal por achar que a sua realidade se parece com a banda, ou por gostar do jeito da banda, isso não é descartável, afinal é impossivel haver uma pessoa que se veste diferente do resto do mundo inteiro.
    Nunca se deve generalizar, eu não me visto para mostrar para alguem como eu sou, eu me visto da forma que me sinto bem, me visto da forma que me acho confortável, da forma que considero certa.
    As pessoas que dizem ter estilo próprio são aquelas que não são maleáveis quanto a locais, que se vestem da sua forma em todos os lugares, que não vão mudar o seu modo de vestir por estar em tal local, vão do seu jeito, não que seja o unico a usar.
    E eu realmente não sei porque diabos estou aqui falando sobre isso, ache o que você quiser.
    No Brasil é tudo bem dificil, negros não são confiáveis pois querem tirar os brancos do poder, pro isso cuidado com os negros.
    Emos são gays, sim, todos eles. Eles vestem calças apertadas e usam o cabelo para o lado, se ver um.. corra são gays.
    A tatuagem é banalizada, não é possivel entrar para a policia com tatuagens, pq os que as tem são bandidos, não são capazes de fazer valer a lei, ou coisas desse tipo.
    Usar preto é coisa de gente que tem páquito com o diabo, que isso, usar preto? é sinal que você é das trevas, todos vocês são repugnantes.
    Alargadores? SEUS SEM RESPONSÁBILIDADE.
    Rock? Coisa de drogados, nunca dê ouvidos a um roqueiro, ele deve estar sobre o efeito da cocaina.
    Vamos todos generalizar, é assim que vamos conseguir a paz.

    Tenha paciência.

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    1. o que é bonito para você nem sempre é bonito para mim.

      Tipo seu nome, assim?

      O que dá forças pra produzir conteúdo novo é esse tipo de comentário: a pessoa LÊ o texto, tira suas conclusões e expressa suas opiniões. Vocês são lindos.

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    2. Um homem muito sabido disse certa vez que…

      “As vestimentas não mostram o que você é, só mostram aquilo que você… quer mostrar para os outros, na esperança de que eles te julguem da forma que você quer.”

      Uma menina sem muito perceber o que dizia disse mesmo assim que…

      “me visto da forma que me acho confortável, da forma que considero certa.”

      Então, ainda sem perceber ou admitir, você se veste da forma que, na sua cabeça, vai te mostrar como uma pessoa certa para o mundo e para si mesma, seja lá o que isso signifique para você.

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      1. Uma coisa é você estar CONFORTÁVEL com jeans, all-star e camiseta preta. Beleza. Outra coisa é você SE CONVENCER DE QUE ESTÁ confortável com jeans, all-star e camiseta preta.

        All-star é praticamente uma fita isolante no pé, jeans e preto no calor são muuuito confortáveis…

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  4. Raphs, mais uma vez, PARABÉNS pelo ótimo texto, traduzindo nossos sentimentos mais profanos e sinceros desde sempre…

    Eu comentei algo sobre isso no twitter:
    “Só ir sábado ao shopping, pra ver um bando de teen sem personalidade, imitando estilo palhaço sem circo desses piás!”

    Mas não tinha lido seu texto ainda, que de fato, explica sucintamente o que eu você e muitas outras pessoas com o minímo de bom senso pensam!

    ;*

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  5. cara…vc manda bem nos textos ai…parabéns…mto bom para se destrair enquanto eu finjo trabalhar aqui…eu e meus amigos aqui na França lemos seu blog…

    abras

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  6. A frase sobre a forma como nos vestimos me pegou de surpresa. Não estava pronto pra essa verdade, mas a aceito perfeitamente, pois só depois de ler aquilo que foi colocado nessa postagem consegui me ver no espelho e notar como minhas tentativas de parecer alguém que não sou são realmente fúteis já que são transparentes para alguém que tenha lido aquilo que você colocou aqui.

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  7. Quando eu usei a frase : “Me visto da forma que acho confortável .”
    Pensei que entenderiam que não uso blusa preta no sol, mas parece que não. HAHA
    Acho que você faria um bom blog se o assunto fosse moda, viva dentro de uma bolha… dentro de sua casa, talvez assim você não corra o risco de ter cancer no cu,
    você querendo ou naõ as pessoas vão continuar se vestindo da forma que acham melhor.
    É obvio que a imagem passa o que a pessoa quer que passe, ue, a questão é que as pessoas julgam certas coisas.
    Uma pessoa que usa alargador passa a imagem de irresponsável.. como você disse?
    Pq? Alargador por acaso ilustra um ar de irresponsabilidade?
    Foi isso que ficou vago em seu texto.
    Até você não gostar, achar feito, achar desconfortável, achar que junta bacterias, achar que não usaria… isso ai é aceitável
    o que não consigo entender é pq diabos você julga atribuiu uma coisa que não existe a um material

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