A Crônica do Cascão

Estou reinventando meu conceito sobre amizade.

Não vivi naqueles antigos tempos, onde chamar as menininhas para tomar um sorvete era o nível máximo de sedução. Nesses eu não vivi. Mas vivi em bons tempos, onde amizade era uma parada que a gente considerava normal.

Não se qualificava amizade, apenas quantificava amigos.

Passa o tempo e nós vamos começando a ter noção de números, de lógica, de raciocínio. Começamos a pensar diferente, agir diferente, ser mais mesquinho, ser mais difícil, mais orgulhoso. Jogar videogame na casa dos amigos, antigamente, era mais importante que respirar. Hoje, até fazer pipoca é mais importante que os próprios amigos.

O convite era dos mais simples, praticamente uma retórica.

– Alô?
– Falaê gordo, pó (diminutivo de “pode”) brincar?
– Opa, to saindo.

E nos encontrávamos na frente da minha casa, com um saco de bolinhas de gude, tazos ou apenas uma bola de capotão tão ralada pelo asfalto que se assemelhava bastante com um coco descascado. Do lado de casa havia uma república abandonada, habitada apenas por mendigos comedores de gatinhos. O muro verde daquela casa era o gol, e eu era Carlos Germano (goleiro do Vasco em 1997). Eu pegava bem no gol. Na linha sempre fui um desastre.

As discussões se limitavam a provocações às mães dos outros amigos, geralmente iniciadas e intermediadas por terceiros. O engraçado é que realmente ficávamos tão putos com a provocação indireta à nossa progenitora que ameaçávamos um ao outro, ignorando a (total) culpa do interlocutor.

E os momentos máximos de tensão ocorriam quando quebrávamos alguma janela com um taco de bets (quem nunca jogou bets) mal feito. Um imbecil, certa vez, utilizou um taco de sinuca como taco de bets e fez questão de segurar pelo lado mais fino, justo onde o giz era aplicado para deslizar melhor. Eu lembro de tê-lo avisado que ia dar merda. E deu: na primeira tacada, o objeto atravessou uma janela e repousou a poucos centímetros de uma das meninas mais frescas da rua.

Seria muito mais seguro jogar bets com uma espada samurai

Imagine você em casa às 6 da tarde, vendo Malhação, quando um pedaço de madeira atravessa uma janela na velocidade da luz em sua direção. O que você sentiria? Te apresento o cagaço, meu amigo.

Segundos depois do impacto, a rua estava mais deserta que templo evangélico em época de carnaval. Rolos de feno atravessavam a rua em meio a assovios causados pelo vento – vento esse proveniente da onda de choque causada pela quebra da velocidade do som, fato logrado então pela velocidade absurda que nossos chinelos alcançavam quando corríamos de pais furiosos.

Claro que houveram tretas realmente sérias, como o dia que quase fomos assaltados por três mano mto pka. Isso é assunto pra outro post.

O problema, meu amigo, é que a gente cresce. A rua que antes agrupava times de 5 jogadores descalços, em um gol de sete passos marcado por chinelos, cada vez aguentava um número menor de jogadores. Em uma turma onde o mais velho tinha 21 e o mais novo tinha 11, a palavra “faculdade” começou a ecoar muito cedo. Fomos perdendo amigos para a vida adulta numa velocidade muito maior do que conseguíamos repor.

E mesmo as amizades mais antigas vão mudando, até que ocorrem separações. Hoje a rua de casa é deserta. Mesmo em outras ruas, não vejo mais crianças brincando. Não vejo bolas atravessando de um lado pro outro, bolas batendo no portão, crianças se batendo por motivos irrelevantes. As amizades mudaram.

Sabe, às vezes eu agradeço minha mente multitarefas. Enquanto estou trabalhando, por exemplo, chego a algumas conclusões sobre coisas que normalmente não me dou o direito de pensar, devido à crescente falta de tempo.

Quando você cresce, os problemas não são mais os mesmos. Não são mais fitas de Super Nintendo não devolvidas, não são mais discussões sobre se a bolinha de gude pode bater na volta. Alguns desses novos problemas não têm mais solução lógica, muito menos prática. Os maiores infernos estão dentro da sua cabeça e tendem a crescer na proporção do tempo que você não lida com eles.

Hoje, se você tem um problema e precisa desabafar, corre praquele seu amigo mais antigo, de mais confiança. Você sabe que pode contar com ele, ele vai te ouvir. Mas também vai te repreender por ter feito coisa X, falado coisa Y e ainda vai querer te dar lição de moral.

– Ah cara, hoje eu tive que ligar pra minha ex-namorada.
– MANO COMO VOCE É BURRO NOSSA
– Precisava falar com ela, tava com tanta saudade
– AFFFFFF CARA VC NAO DEVIA TER FEITO ISSO
– Aiii eu to tremendo até agoraaa
– CLARO PQ VC EH BURRO….. SE FOSSE EU NÃO TINHA LIGADO NÃO
– Porque cara? Eu gosto tanto dela ainda :~
– AH KRA DESCULPA A SINCERIDADE MAS NUNCA MAIS TE AJUDO COM NADAS

Se fosse teu amigo, te daria uma carona pra porta da casa dela.

Conceito teórico (mitológico) de amigo:

Alguém que vai ficar do seu lado pra sempre, não importa se forem momentos bons ou ruins. Arrancaria o próprio braço por você. Vai te apoiar em todas as decisões que você tomar, vai ouvir suas lágrimas e dar boas risadas com suas histórias. Vocês vão estar sempre juntos, não importa o que aconteça!!!

Conceito prático de amigo:

Vai ficar do teu lado só se ele não se foder no processo. Arrancaria o seu braço se fosse pra se salvar. Os conselhos que você receberá dele são as atitudes que ele pensa que tomaria se estivesse no seu lugar, e ele só diz isso porque está longe da situação. Vai te repreender caso você não faça exatamente o que ele disse pra você fazer.

Ou seja, trocando em curtas palavras,

AMIGO DE VERDADE, MEU CARO, SÓ O CASCÃO.

O Cebolinha sempre tinha “planos infalíveis” pra roubar o coelhinho da Mônica. Diga-se de passagem, é um objetivo idiota: a baixinha, gorducha e dentuça tem o poder de dobrar canos de aço e levantar casas com as mãos, porque raios ele quereria roubar o coelho?

É basicamente você querer roubar o canhão de um tanque de guerra. Ele não atira, mas ainda passa em cima de você sem menor pudor.

Vo joga bola

O Cebolinha bolava os planos mais absurdos do universo pra roubar o Sansão, e o Cascão sempre – SEMPRE – participava. Não me digam que o Cascão também queria roubar o coelho de pelúcia, se isso fosse verdade seria ele quem bolaria os próprios planos.

Cascão ajudava Cebolinha porque era seu amigo. Mesmo sabendo que os planos nunca dariam certo e que, com certeza, iria terminar a história sangrando com um olho roxo, Cascão ajudava o Cebolinha.

Porque amigo, na tese, faz isso.

Nas historinhas da Mônica, os diálogos acontecem assim:

– Cascão! Tô com aquele plano espelto pla gente loubar o coelhinho daquela golducha!
– Opa, Cebolinha, estamos aí, como é o plano?
– A gente amala um anzol no seu cu, xinga ela e espela ela vir bater em você, enquanto isso eu sequestlo o coelhinho dela!!
– Já era então, Cebolinha, traz lá aquele anzol!
– Tem tudo pra dar celto, Cascão!
– ÉÉÉ! Dessa vez vamos pegar aquele coelho imundo!

Na vida real, aconteceria assim:

– Aí, Cascão! Tô com aquele plano espelto pla gente loubar o coelhinho daquela golducha!!
– Ah Cebolinha, pára vai. Tô de boa desses planos.
– Deixa de ser flesco, seu sujo. Me ajuda aí, é só você enfiar um anzol no cu, vai dar celto.
– Para, vai dar merda isso aí, não faz isso não, deixa de ser burro.
Bulo é você que não toma banho, vamo lá Cascão, ajuda o teu tluta!!
– Teus planos nunca dão certo, eu sempre me fodo e nunca ganho nada, to fora véi, se vira.
– Aff vou ter que chamar o Xaveco!!!
– Vai lá, chupa o pau dele então, aí quando você precisar você lembra de mim! Cusão!!!

Você nunca viu isso, porque pro Cascão a amizade do Cebolinha é mais importante do que o coelho da Mônica. O Cascão nunca tentou influenciar o Cebolinha pra fazer suas vontades ou pra tirar sua iniciativa. O Cascão nunca deu conselhos a Cebolinha quando na verdade era fazê-lo tomar decisões que o próprio Cascão tomaria.

Todo mundo sabia que o plano não daria certo. O próprio Cascão sabia que iria acabar apanhando. Mas mesmo assim ajudava o amigo, porque é isso que amigos fazem.

Quem vive nossa vida somos nós. Seus amigos podem gostar de você, mas eles NÃO SÃO você. Por mais que queiram o seu bem estar, eles não vivem sua vida e não sabem quantas variáveis estão envolvidas em uma única decisão.

Pra quem está preso em um furacão de pensamentos e sentimentos, é impossível pegar a saída mais prática – mesmo que ela esteja escancarada na sua face. Pra quem está de fora, é só esticar o braço e agarrar a corda mais próxima.

Amigo não é aquele que fica do outro lado da corda num cabo de guerra, querendo manipular você pra que tome a decisão que ELE quer que você tome. Amigo, amigo de verdade, não é aquele que sempre tenta te convencer do contrário. Não é aquele que “quer o melhor pra você – desde que ele não se foda no processo”.

É o maluco que coloca uma pedra do outro lado da corda, pra quem quer que seja do lado inimigo tropece e morra, fazendo você ganhar a briga.

Amigo é aquele cara que, se você realmente quer se enfiar num poço de gasolina em chamas, vai te ajudar a pular de mais alto pra ficar mais divertido. Mesmo discordando, ele vai estar do teu lado e pronto pra te estender a mão pra sair da merda.

Não é aquele que, quando você jogar o taco de bets direto no vidro da casa do vizinho, fica tentando te convencer a se entregar porque vai ser melhor assim. É o cara que abre o portão de casa pra te esconder até a poeira baixar, ou que assume a culpa porque sabe que não vai ser castigado.

Os únicos que têm o direito de manipular nossas vidas somos nós. Os resultados de nossas atitudes se espelham em outras pessoas, mas amigos de verdade não se abalam por atitudes que você toma. Mas sempre estarão lá pra te apoiar.

Esse texto não é uma indireta pra ninguém

Use filtro solar.

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Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

26 comentários em “A Crônica do Cascão”

  1. Deixando claro que não costumo passar corretor ortográfico no texto, portanto seria de extremo bom senso, caso vissem alguma correção a ser feita, me informar nesta mesma caixa de comentários.

    Agora, espero que morram.

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  2. Tu e o Luke pegaram um jeito pra contar histórias que faz com que seus blogs sejam os mais legais que eu conheço. Sendo que tu além do storytelling ainda faz humor como poucos aqui na internets.

    O parágrafo inteiro do “Segundos depois do impacto, a rua estava mais deserta que templo evangélico em época de carnaval…” tá brilhante 😀

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  3. Ótimo texto! Relembrei minha época de infância lendo isso, e tb fiz a ponte para o mundo de hoje. Conservo alguns amigos daquela época ainda… Bons tempos em que a única preocupação era ganhar o torneio semanal de Superstar Soccer Deluxe…

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  4. Tenho correções para fazer nas falas do Cebolinha:
    Quando ele termina a frase com “r”, ele consegue pronunciar, por exemplo “jogar”
    Mas quando o “r” está no começo ou no meio da palavra, a´ele troca pelo “l”, por exemplo “plego” ou “lato”.
    Abs AMIGO.

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  5. Caraca Raphs, chorei LITROS RSRS
    Mas sério, muito bonito o texto. Tu descreveu o que eu to pensando sobre amizade ultimamente e não conseguia explicar.

    Tu podia ser cronista de jornal.

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  6. caraca, meu, voce cresceu, tá inteligente demais!!! A mami aqui, além de querer só dar bronca (sempre para o teu bem… rsrsr), tá cheia de orgulho. Parabéns, mas ficou a preocupação e uma sugestão: amigo nem os dentes, pois às vezes eles doem. A preocupação é te passar que tudo é fase, e sempre passa viu?
    Conselho: nunca coloque sua felicidade nas mãos dos outros.

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  7. Não concordo com sua teoria viu Rapha. Um amigo vai estar com vc a hora que for, mas isso não quer dizer que ele precisa concordar com vc a td momento. Um amigo te conhece por suas qualidades e por seus defeitos e gosta de vc mesmo assim. E se ele te repreende, é pq ele acha que de outra forma seria melhor para vc. Às vezes não vemos que temos outras opções, estamos presos a um único caminho, e somente as pessoas de fora conseguem enxergar. Às vezes ficamos presos por causa do medo de mudanças, e isso nos impede de crescer, e conhecer outros rumos. Mas tb não se pode esquecer que independente do que os outros pensem, se concordem ou não com vc, se vc está ou não escolhendo o melhor caminho pra vc, essa decisão é sua, e somente sua. Não dá pra se chatear pq não concordam com vc a td momento. Inclusive se vc ficou chateado, as vezes é pq vc tem dúvidas se tomou a melhor decisão ou não. Pense nisso.

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