Sobre BBB, escorbuto e as cabeças de pedra na Ilha de Páscoa

Sabe, eu gostaria de vir aqui dizer que eu adoro a vida, acho tudo muito belo e escrever em forma de poesia que amo todas as pessoas que me cercam. Infelizmente, mesmo tudo isso sendo verdade, ninguém visitaria um blog tão good vibrations. Quem usa a Internet não quer ver coisas felizes. Gosta de ver sangue escorrendo do monitor.

O OJ é especialista nisso.

Para saciar a fome vampiresca de vocês leitores, venho através deste preencher a lacuna fundamental dos blogs que produzem o próprio conteúdo inteligente. Já falei de bandas, já falei de sexo, já fiz piadas escatológicas. Só falta a fronteira final:

Vamos falar de Big Brother Brasil. Primeiro, vamos pegar depoimentos de pessoas que assistem BBB.

b
"Eu assisto BBB porque gosto de ver como as pessoas se comportam" - Marcos Paschoal, 33 anos, arquiteto.
"Assisto BBB pra ver aquelas pessoas brigandooo!! Odeio aquela Lia, muito falsa!!!" - Andréia Bocaiúva, 84 anos, dona de casa.
NÃO ACEITA
"Não assisto este programa. Concentro minhas atenções em grandes escritores como Nietzsche e Maurício de Souza" - Fernanda Dornelles, 24, jornalista
"Acho uma experiência antropológica válida" - Mônica Alvarez, 36, psiquiatra

Bom, depois de tantos depoimentos comoventes e profundos, chegamos a qual conclusão? Existe fórmula mais PERFEITA de se prender a atenção de pessoas do que colocando semelhantes em um ambiente fechado, isolados, e expondo-os completamente, por todos os ângulos?

Pelo mesmo motivo que pessoas assistem e gostam de filmes como Jogos Mortais, o Albergue ou Premonição. Todos eles são só uma desculpa esfarrapada (tal de “roteiro”) pra mostrar seres humanos, semelhantes a mim ou a você, nas situações mais extremas que nossos corpos podem aguentar. Quando eles ultrapassam o limite da resistência, cedem. Aí o sangue enche um béquer, o peso abre uma comporta e você pode pegar a chave da algema que te prende na armadilha.

Acredito que lá pelo Big Brother 45 teremos experiências deste tipo.

No meu conceito, que contraria nossa amiga Mônica Alvarez (que se parece muito com uma artista pornô dos anos 90), o Big Brother não é uma experiência antropológica válida. É apenas um programa de televisão com pessoas comuns que ficam no mesmo lugar por muito tempo, cansam umas das outras.

A prova disso? Minha viagem de formatura: Big Brother Ubatuba. Doze adolescentes confinados em uma casa na Praia Grande durante dez dias. Os primeiros foram fáceis, todo mundo se atura. Depois, as tarefas da casa começam a não serem realizadas. Ninguém quer pegar numa vassoura durante as férias. Ninguém mais quer cozinhar. Começam a aparecer as panelinhas. Como não houve seleção de líderes, foi se formando naturalmente a panelinha da liderança (precisa dizer quem era um dos envolvidos?). Alguns eram obrigados a esquentar a cabeça em nome do bem estar de outros. No último dia, até o macarrão com ovo e salsicha foi motivo de discussão.

Eu cheguei a pensar em implantar corridas de saco e provas valendo comida, mas a única prova de resistência foi a do meu videogame, que chegou a aguentar 8 horas seguidas de Pro Evolution Soccer.

A questão é a seguinte: você não se torna uma pessoa melhor assistindo Big Brother. Você, no máximo, adquire aquele conhecimento básico para todas as rodinhas no trabalho. Quem nunca chegou numa quarta-feira e foi indagado sobre quem foi o eliminado da semana? Ou indagado pelo Carlos, da contabilidade, que chega em você na segunda perguntando quem foi indicado ao paredão?

E O QUE VOCÊ GANHA COM ISSO, SEU INFELIZ? Social network compensa o dano cerebral que essa merda te proporciona?

Aliás, o tal social network do Big Brother se resume a suposições sobre atitudes tomadas por pessoas de dentro da casa, que você não conhece, nunca viu ou virá na vida, cujas vidas não interessam a você – mas você QUER FALAR MAL DELAS, como se fosse um jogo interativo onde sua opinião valesse alguma coisa!

NÃO-VALE

O Big Brother Brasil não é uma experiência antropológica válida.

– Vamos pegar pessoas desconhecidas com características conflitantes e confiná-los dentro de uma casa, isentos de qualquer contato com o mundo exterior. Ninguém entra, ninguém sai. Eu quero um padeiro, uma ex-modelo e um vendedor de espinafre. Coloque duas gostosas, dois pobres merecedores e um negro.

Com o sucesso do primeiro programa, a fórmula foi se repetindo. Tanto que ficou repetitivo, não atraindo mais a atenção do público. Seria sempre a mesma coisa: as gostosas saem no meio do programa, posam nuas. O negro sai, cai no esquecimento e é confundido com o Jacaré do É o Tchan. Os pobres merecedores vencem.

Aí entrou a REESTRUTURAÇÃO DO BIG BROTHER.

Cansaram de colocar pobres. A quantidade de “pobres merecedores” foi diminuindo na inversa proporção da quantidade de modelos gostosas e promissoras capas de revista. Resultado? Nas três últimas edições, o vencedor não foi um pobre merecedor, pai de familia e lutador, que ganha um salário mínimo. Os últimos três vencedores foram um playboy classe média-alta, um roqueiro e um artista plástico que catou a Fran nariz de papagaio.

Qual a EXPERIÊNCIA ANTROPOLÓGICA que podemos tirar disso?

Ao colocar na casa uma dúzia de pessoas diferentes, cada um começa a aprender a respeitar a diferença do outro. Ao invés de fazer o esquema todo ficar interessante, se tornava massante com o tempo. Sabe-se lá quantas estripolias os macacos da edição do programa tinham que fazer pra tornar algo interessante. Em uma das edições, o negócio ficou tão paz-e-amor que todos os cinco finalistas eram amiguinhos entre si!

E você, leitor, acha que aquela dona de casa de cinquenta anos, que chega do trabalho cansada e ainda tem que preparar a janta das crianças, a marmita do marido e ainda tomar a dezena de remédios contra a menopausa e as varizes, quer ligar a televisão às oito da noite pra ver um monte de gente sorrindo e brincando na piscina?

NÃO. ELA QUER VER HEMORRAGIA NA TELEVISÃO.

Pessoas assistem televisão, vêem filmes para fugir de suas realidades. Querem se distrair, absorver informações que elas não têm em seu dia-a-dia. Um filme mela-cueca de romance, uma comédia pastelão, um suspense policial. Uma pessoa normal não acorda de manhã em uma ilha deserta que é um grande ímã que viaja no tempo.

E quanto ao Pay per view? Qual o propósito de se ligar a televisão na hora da janta, justamente pra ver um bando de desconhecidos… preparando a janta?

NOSSA MAS E O BIG FONE HEIN NOSSA O QUE SERA
NOSSA MAS E O BIG FONE HEINN NOSSA O QUE SERA

Esse é o motivo que prova que reality shows não são experiências antropológicas válidas. Você não pode avaliar o comportamento de pessoas que você não conhece através de vídeos editados de suas atitudes ao longo do dia, ainda mais de forma completamente impessoal.

Uma “experiência antropológica” é você colocar várias pessoas em situações de extremo risco de vida, sem luxos ou facilidades. Largue-as no meio do mato, com câmeras na mão e com duas instruções apenas: sobrevivam por 30 dias e documentem absolutamente tudo o que fizerem. Mais ou menos como funciona “Survivorman”, mas sem a gaita e escorbuto comendo solto.

Pra encerrar, vou parafrasear o maior mestre da retórica que já tive o prazer de conhecer: meu professor de Termodinâmica, o grande Pluto.

Numa segunda-feira, Pluto chegou à escola onde dava aula pelas manhãs. Na sala dos professores, antes do começo das aulas, os demais debatiam sobre o Big Brother Brasil. “Quem foi indicado ontem? Jura que foi ele? Pensei que o voto ia pra fulano!”. Ali estavam mestres e doutores em suas faculdades, grandes profissionais.

Pluto foi indagado sobre sua opinião sobre o paredão recém formado. Sereno e sem perder a elegância escondida atrás da espessa barriga, disse:

“Se fôssemos uma instituição séria e vocês fossem profissionais sérios, não estaríamos debatendo isso na sala dos professores”.

Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

11 comentários em “Sobre BBB, escorbuto e as cabeças de pedra na Ilha de Páscoa”

  1. Não esperava um novo post, fiquei surpreso em ver que existe vida neste site moribundo que respira por aparelhos.

    Realmente, o comentário do seu professor Pluto é uma grande verdade.

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  2. Aff povo sem criatividade fica falando “só de zua” KD POST NOVO??/

    Vê se cresce, bando de punheteiro!
    Os comentários do OJ (apesar não estar explícito isso) possuem regras rigorosas e uma delas é NÃO AGIR COMO RETARDADO!

    É por essa e outras que o Raphs acaba deixando o blog meio de lado (outras leia-se @paam_oliveira), porque o cara se esforça pra fazer algo de qualidade e vem sempre uns que se acham os piadistas da Intenetz e avacalham o blog!

    Idiotas, os comentários do OJ não precisam de vossas senhorias.
    Voltem a bater punheta no XVIDEOS, por obséquio.

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