Fast Food Odeio e Justifico

Sugestão de @PeaShrek, o Tarcísio Meira da blogosfera brasileira:

Eram tempos difíceis na Itália pós-Mussolini. Os imigrantes deixavam a terra da bota na mesma intensidade que uma diarréia arromba as entranhas de um gordo numa tarde de domingo, em direção à louça branca e imaculada do banheiro do Maurício.

Maurício fazia a melhor feijoada do bairro.

Filho de imigrantes italianos, Roberto Arre recebeu este nome em homenagem à sua terra natal. Antes que você duvide, realmente existe uma região de Arre na Itália, seu merda. E, como todo imigrante italiano, Arre tinha uma pizzaria e gritava nos almoços de família.

Era um rapaz feliz, tinha uma vida tranquila. Trabalhador, pagador de impostos e temente a Cristo, Arre tinha a vida comum que todos os personagens de histórias têm, por mais que autores falhem miseravelmente ao tentar mudar isso de alguma forma. Até que numa tarde de quinta-feira sua esposa foi estuprada e morta, sua pizzaria pegou fogo e sua filha foi morar com um rapaz de 33 anos que ela conheceu pela internet.

Arre tinha sangue nos olhos. Queria se vingar, queria dar o tapa na cara da sociedade. Queria se voltar contra o sistema. Desiludido com a vida, Arre passou a integrar o time de campeões de jiu-jitsu da academia de Mento.

“Mento” é como era conhecido Javier, imigrante mexicano de língua presa, tetra-campeão de UFC no Playstation e atual campeão sulamericano de rinha de galo. Bigode latino, músculos que falavam por si próprios e um carisma capaz de convencer um vulcão islandês a não acabar com o tráfego aéreo na Europa.

Ficaram muito amigos logo de início. Com sua dieta cheia de carboidratos italianos, Arre passou a andar com os big boys da academia LOS MAROMBADOS e disputava suas lutas ilegais em ringues improvisados. Até que começou a chamar a atenção de Maria, mulher de Mento, dona das pernas mais peludas da região Leste de São Paulo.

Esqueci de falar, mas a história passa em São Paulo. Você vai notar nos próximos parágrafos que isso é completamente irrelevante.

Arre notava os olhos de Maria, cheios do fogo ardente de imigrante ilegal cubana. Era capaz de sentir os quadris largos de Maria quicando sobre suas coxas apenas com um olhar. E Mento se tocou disso: estava perdendo sua namorada para o filho de imigrante italiano.

Os treinos foram ficando cada vez mais acirrados. Mento, que nunca conseguira quebrar um palito de sorvete, injetou todo tipo de anabolizante existente e inexistente, e obteve o maior trapézio de Itaquera. Mento agora era alto, forte, destruía a face dos inimigos com um punho. Ninguém era capaz de bater em Mento.

Foi então que Arre, deixando seu seu sangue italiano irracional borbulhar, cerrou os olhos e gritou a plenos pulmões, pra que todos do quarteirão ouvissem:

– EI MENTO
– o q
– EU QUERO TE DIZER UMA COISA
– fla brow
– … NÃO SEI COMO VOCÊ VAI ENTENDER ISSO, SOMOS AMIGOS MAS
– fla mano to aqui matando um kra
– … É CHEGADA A HORA
– q hora
– AQUELA HORA
– q hora porra
– É CHEGADA…
– …
– A hora do almoço vem gente tá pronto

E todos foram almoçar.

Os olhares de Maria para Arre continuariam por semanas, e o ódio latino de Javier “Mento” Rodriguez  só fazia aumentar. Era realmente chegada a hora. Mento já não conseguia encostar em María sem sentir o gosto de vômito invadir seu esôfago. Foi então que cerrou seu punho imenso e acertou María na face repetidamente, arrancando uma boa quantidade de dentes e deixando-a desfigurada.

Fugitivo da polícia, Mento sequestrou María e entrou em contato com Arre, o único que podia salvá-la além da polícia civil, militar, rodoviária, o GOE, o Garra, o BOPE, a polícia federal e os Cybercops.

Com a determinação de um leão que corre atrás da zebra na savana africana, Arre foi atrás de María e, depois de vasta investigação, conseguiu encontrar pistas com uma vendedora de camisetas falsas do Corinthians no trânsito da Marginal Pinheiros. A vendedora, que havia perdido a língua lambendo césio enriquecido em Goiânia, foi categórica.

–  A Aaanhía olda a asa esde que Ae ada Endo
– Oi? Senhora, não estou entendendo nada do que  a senhora disse.
– A AANHÍA OLDA A CASA ESDE QUE AE ADA ENDOO – ela disse mais alto, falhando de forma miserável em soar mais nítida.
– Sério porra, não tô entendendo. A bainha solda a casa que ar entra dentro?

A vendedora então pega um canetão e escreve no pára-brisa de um Monza 84 ali estacionado. Então tais palavras, antes confusas, se tornaram claras para Arre.

MARIA SÓ VOLTA PRA CASA DESDE QUE ARRE BATA MENTO

Aí ele bateu, ela voltou e eles viveram felizes até dezembro na serra carioca. Digo até dezembro porque em janeiro chove e o barranco vem abaixo, aí eles morrem.

***

Este foi mais um FAST FOOD ODEIO E JUSTIFICO: Você pede, a gente faz nas coxas e entrega algo que você tinha a ilusão de que viesse exatamente como viu na foto, mas na mão parece uma pomba leprosa morta 🙂

Agradecemos a preferência e volte sempre!

Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

12 comentários em “Fast Food Odeio e Justifico”

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