O verdadeiro significado da felicidade

Antes de começar a ler este texto, eu lhe aviso: ele será extenso, não terá piadas imbecis e terá um conteúdo um pouco infantil. Sim, lá vem um daqueles textos introspectivos, aqueles que fazem você desistir no meio do caminho porque não tem lá tantas piadas mas possui uma mensagem legal.

Também queria dizer que andei pensando muito, ultimamente.

Pensei pra caramba. Sabe, é como se minha cabeça simplesmente não parasse de pensar um momento sequer. Oh, me perdoe, a sua faz isso também? Bom sinal, já tinha começado a pensar que tinha um tumor no cérebro.

Pensando bem, isso diz que… ou nós dois estamos livres de um tumor, ou nós dois temos um tumor.

Em alguns destes pensamentos que não envolvem tumores cerebrais, eu fico pensando sobre coisas. Coisas como minha infância. Penso mais na minha infância, hoje longe perdida, do que nos meus problemas atuais. E creio que é isso que me permite acordar todo santo dia.

Acredito não ser preciso consultar o Doutor Óbvio, neurologista formado pela USP de São Carlos, para confirmar o fato de que todos nós temos lembranças de infância. Todos tendemos a acreditar que nossas experiências são muito mais interessantes do que as de outras pessoas. A única coisa em comum entre todas as histórias é que lembranças de infância sempre são coisas boas.

Claro, a não ser que você tenha passado toda sua infância em um coma ou acorrentado no porão da sua casa sendo abusado sexualmente pelo seu sequestrador todos os dias durante 17 anos. Aí as lembranças podem não ser tão boas, sabe como é.

Certamente, uma das coisas mais legais da minha infância é o ano do senhor de dois mil e um.

Eu era um guri gordinho, viciado em videogames e revistas de videogames. Também colecionava revistas sobre Pokémon e Dragon Ball Z. Acompanhava o melhor anime porrinolento de todos os tempos através das eternas reprises da Band, que o exibia repetidamente até a saga de Frieza – e começava de novo.

Por volta de abril ou maio daquele ano, depois de anos e anos de reprises, o Cartoon Network começara a exibir os episódios inéditos de Dragon Ball Z, mais especificamente a saga de Cell.

Lembro como se fosse exatamente agora: estávamos todos reunidos na sala quando um comercial de DBZ começou. A diferença era que este mostrava um Frieza todo diferente, os andróides 16 e 17 e Trunks, até então somente vistos em imagens estáticas de revistas.

Numa era sem internet, um anúncio inesperado de novos episódios da sua série favorita só era possível através da televisão. Nossos olhos ficaram vidrados, congelados na televisão, quase incrédulos. Mesmo que por dentro estivéssemos urrando e gritando como se tivéssemos acabado de ganhar um torneio de International Superstar Soccer Deluxe, o frio que subiu pelas nossas espinhas foi suficiente para paralisar nosso corpo todo.

Para uma criança de 12 anos em 2001, era como se exibissem um filme onde mulheres extremamente peitudas esfregassem Elma Chips pelo corpo enquanto jogavam Playstation. Não, era mais do que isso.  Era o anúncio de episódios inéditos de Dragon Ball Z, depois de anos.

Eu não tinha CN em minha casa. Continuava assistindo os episódios reprisados enquanto meus amigos André e Guilherme contavam os detalhes de cada episódio.

Com a devida permissão, passei a sair da escola (estudava à tarde) e ir direto para a casa da avó deles, dona Marina, para enfim matar o que estava me matando.  Eu não só assistia Dragon Ball Z, como assistia episódios inéditos de Pokémon e, caso saísse mais cedo da escola por algum motivo obscuro, ainda pegava episódios adiantadíssimos da primeira temporada de Digimon.

Além disso, ainda desfrutava dos lanches vespertinos da dona Maria, a empregada da casa. Aliás, isso merece uma descrição especial. Era sempre uma coisa simples: pão de forma com hamburguer e suco feito na hora, um pedaço de bolo, biscoitos, enfim. Absolutamente tudo que Maria servia pra gente era a melhor comida do mundo.

A casa de dona Marina era o lugar mais legal do mundo. Pensávamos que aquela casa imensa, de paredes de vidro, cercada de plantas e com portas por todos os lados, possuía entradas secretas. A área de serviço era enorme, palco de disputas acirradas de “galinha-no-ar” (“gol de cabeça” em algumas regiões) e “gol a gol evolution” e…

– Gol a gol evolution?
– É. É como o gol a gol tradicional, mas…
– Mas…
– A cada gol marcado, a gente ia evoluindo e tal.
– Como… Pokémons?
– … É.
– …
– Eu sei.

Hoje, dez anos depois, cada um vive sua vida. Guilherme estuda Medicina na USP, André é Cientista Social formado pela Unicamp e deve falar mais idiomas que a ONU, eu estudo Engenharia Química na Unaerp de Ribeirão Preto. Provavelmente somos pessoas completamente diferentes, e por termos perdido contato, nunca tive a chance de dizer a eles o quão foda eram esses momentos.

Mesmo que a distância nos faça acreditar que algo é muito melhor do que realmente era, sabemos que momentos assim não voltarão. O que torna a infância especial é justamente a sensação de que tudo que vivíamos enquanto crianças, seja o aprendizado, as sensações ou as brincadeiras, não voltará mais.

E pior: mesmo que fôssemos capazes de recriar as situações, não somos mais capazes de sentir as mesmas coisas pois não somos mais crianças. Crianças não se importam com atitudes, com razões, com argumentos, com nada. Crianças apenas se divertem.

E pensar que isso tudo se resume apenas uma frase simples:

A real felicidade acontece quando você simplesmente não se importa com os motivos de estar feliz ou não. Acontece quando apenas estamos felizes, e é simples assim.

Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

6 comentários em “O verdadeiro significado da felicidade”

  1. por coincidência hoje mesmo estava falando com um amigo meu de longa data, sobre a nossa infância. Daquela turma da rua, de 8 garotos que iam andar de bicicleta, jogar bola, ou apenas bater papo, todo dia, nenhum mais anda junto. Cada um tomou seu rumo. Dos 8, 4 são casados, e 2 já tem filhos, apenas eu me formei na faculdade, cada um tem a sua profissão, e a Senhora Vida nos levou por caminhos completamente opostos. Felizmente as memórias que tenho de minha infância, essas ficarão para sempre. Pensei em fazer uma reunião daquela turminha de outrora, mais isso ia apenas servir para uma coisa: mostrar que somos cada vez mais diferentes…

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  2. Tem um indiano fodao chamado krishnamurti q ensina como ser assim, a felicidade só é no momento em q é, qnd vc tem consciência dela, ela já n é mais felicidade.

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  3. “…os andróides 16 e 17 e Trunks, até então somente vistos em imagens estáticas de revistas.”

    Cara, já te falaram que o Odeio e Justifico é o blog de mais personalidade desse mundão da Internet? Acho legal essas piadas internas do site, como essa frase (que bate com aquela falando da cobrinha atravessando paredes, coisa jamais possível em celulares de menor tecnologia) ou os “a não ser que você tenha passado os últimos X anos fazendo tal coisa”.

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