Trazendo a paz na ponta da faca

Por menor que seja a minha fé na raça humana, eu ainda consigo me surpreender.

De forma negativa, claro. Eu já não vejo nada de novo em alguém pular do Everest montado em uma llama em chamas e para bater o recorde de “salto do Everest em uma llama em chamas”. Toda semana alguém faz isso.

Agora, assassinar um ditador líbio não é todo dia.

Eu sugiro que você pare absolutamente tudo o que esteja fazendo neste momento, e isso inclui os downloads da terceira temporada de Glee, para acompanhar meu raciocínio.

Caso você tenha morado os últimos vinte anos em uma caverna escura, se alimentando de lagartas e morcegos mortos e fazendo esculturas de guano como diversão, você provavelmente não sabe quem é Muammar Abu Minyar al-Gaddafi, popularmente conhecido como “mais um ditador árabe megalomaníaco e que eles tão querendo matar agora”.

Veja, tudo no Oriente Médio funciona como a Teoria do Caos. Um pequeno incidente acontece aqui, desencadeia um fato histórico de proporções épicas ali.

Em fevereiro deste ano, um grande levante aconteceu no Egito, que resultou na renúncia do antigo chefe de estado Hosni Mubarak, que governou o país por nada menos que trinta anos.

E o povo, em rara oportunidade, venceu o governo no Oriente Médio.

Agora se liga aí, que é hora da revisão:

Um pouco de geografia do Oriente Médio

A cultura ocidental do século XX nos ensinou que o Oriente Médio é um só país dividido em tribos. Cada tribo habita uma ilha, um pedaço de terra cercado de petróleo por todos os lados.

A cultura do país é basicamente falar uma língua engraçada e incompreensível, gesticular com vigor e vestir panos de prato na cabeça.

O esporte nacional é estar em guerra com pelo menos uma ou duas tribos vizinhas, enquanto encara as outras trinta com aquele olhar que seu cachorro dá quando você tenta tirar dele o pedaço de costela que acabou de oferecer.

O povo líbio, que mora ali do lado, viu que era possível desbancar o líder do poder e decidiu a fazer a mesma coisa: protestar. Aí que começou a dar merda.

Brincadeiras à parte, existe democracia no mundo árabe. O Egito é uma das poucas nações do umbigo do mundo onde existia um regime democrático “funcional” – entre aspas pois alguém que fica no poder por 30 anos não é bem escolha do povo.

Pois bem: em um país onde aceita-se a democracia como regime, respeita-se a opinião do povo. Houve luta, houve protesto, e o poder do povo superou o poder político. Não houve guerra. Mubarak caiu e deu lugar a uma junta militar que comanda o país (risos).

Golpe de 64, alguém?

Na Líbia, a parada não funcionava bem assim.

Kadhafi era um militar, colocado no comando por um golpe de estado – e ali ficou por 40 anos. Como todo ditador árabe, cometeu crimes horríveis contra a humanidade (coisa que nós, ocidentais evoluídos, jamais faríamos, não é mesmo?), matou muita gente e tudo mais. O povo, vendo que era possível tirar Kadhafi do poder, resolveu se rebelar.

E foi aí que a coisa pegou fogo.

Em um país de regime tão opressor quanto a Líbia de Kadhafi, a oposição ao governo se manifesta da forma mais civilizada possível naquelas terras: revoluções armadas. E o pau comeu, e comeu bonito.

Sendo sumariamente derrotado, Kadhafi tomou a decisão que somente grandes líderes como Hitler, Sadam Hussein e Bin Laden são capazes de tomar: se escondeu dentro de um buraco. Covardia? Praticamente nada, vindo do homem que ordenou o bombardeio do próprio povo para atingir grupos rebeldes inimigos.

Gadhafi foi capturado em uma tubulação de esgoto. Morto com dois tiros.

É isso que me incomoda.

O homem é um bicho que precisa ser controlado, dominado. É praticamente impossível idealizar uma sociedade onde não existem líderes, ou dominada por um senso comum.

Porque senso comum, embora pregado como a solução para a maioria dos problemas, é uma coisa que o ser humano é completamente incapaz de ter.

Até quando teremos que causar guerras em nome da paz? Porque é tão racional bombardear cidades inteiras pra acabar com um problema? Um assassinato servir de meio para alcançar a paz é, mais ou menos, como se você convencesse sua família de rolar sobre um poço de lava borbulhante para poder chegar ao resort onde vocês tirarão férias.

Enquanto cada país do nosso planetinha miserável se comportar como uma menininha invejosa e fofoqueira, teremos problemas como estes.

Peguem o líder de cada uma das nações do planeta, coloquem-nas num lugar do tamanho de uma sala de cinema e deixem-nas conversar por algumas horas. Pronto: teremos a solução para todos os problemas do mundo.

Se existe política, ela devia ser a solução para esses problemas. A conversa e o senso comum seriam suficientes pra superar os interesses pessoais de cada um. Guerras são necessárias? Infelizmente, sim.

Mas isso porque o ser humano é um bicho muito filho da puta.

***

Fato curioso: devo ter escapado algumas grafias diferentes de Kadhafi  durante o texto. Tá tudo bem agora. Segundo a CNN, existem 112 maneiras de escrever o nome do ditador líbio. A mais próxima do árabe correto é Gathafi, e ninguém nunca usou o nome do cara assim.

Mais ou menos como quando escrevem meu nome com F. Malditos.

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Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

5 comentários em “Trazendo a paz na ponta da faca”

  1. Um rapaz aí nas vindas desse mundo maluco disse que quando se acaba o homem, se acaba os problemas. Não lembro quem era, mas era famoso e provavelmente já morreu, assim como os problemas dele.

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  2. Uns dizem que ele foi morto durante a captura. Outros que ele foi capturado, levado ao clube dos rebeldes e executado, onde até implorou por misericórdia. O G1 noticiou as duas coisas. Enfim, meu ponto é

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