O dia em que eu apanhei de um gordinho na escola

Talvez das maiores mentidas que uma pessoa pode contar é “Eu não me arrependo de nada”.

Pois é. Por mais que você seja daquelas menininhas bonitinhas que saem postando no Facebook que não se arrepende de ter bebido treze doses de tequila na noite passada, vomitado no seu ex (que naquela hora ainda era atual) e tirado a roupa em pleno bar, você tem bagagem pior que isso e se arrepende dela. Essa “bagagem” mudou você, em algum ponto da sua vida.

Todo mundo se arrepende de alguma coisa. Se até aquele soldado badass de filme americano oitentista se remói com fantasmas antigos, o que dirá você, frangote?

Por pior (ou maior) que seja o fantasma que o assombra, esse arrependimento tem um lado bom: servirá de lição pro resto da sua vida. Muitos destes arrependimentos tem origem em decisões tomadas de forma absolutamente equivocada, no calor do momento, como aquela vez que você apelou com o maluco mais gordinho da sua sala, chamou o cara pra briga em pleno intervalo de aula, com o pátio da escola mais lotado que a reitoria da USP em dia de protesto, pagou de gostoso e ainda saiu perdendo vergonhosamente.

Teve aquela vez que você, ao contrário do que todos recomendavam, decidiu vestir seus patins e sair correndo pela rua ensaboada pela combinação das primeiras gotas de chuva e a poeira do asfalto. Os primeiros minutos de adrenalina e diversão deram lugar a horas de dor com seu cóccix fraturado, sendo obrigado a ficar com o rabo engessado por semanas.

Ou ainda aquela vez que você viu uma espinha nascendo e decidiu fuçar o bagulho com uma picareta, dando origem a um vulcão ativo na sua testa a menos de três dias da sua formatura.

Não importa: dez segundos ou dez dias depois, você vai se tocar de que fez merda. No meu caso, foram dez anos.

Eu sou menino criado com a avó, mas crescido em escola pública. Desde pequeno, nunca fui aquele cara que impõe respeito ou que fica fazendo sacanagem com os outros só pela diversão. Eu ia pra escola pra estudar e jogar futebol, apenas isso.

Mas estudar em escola pública e não saber se defender é como entrar em um bosque cheio de ursos e não saber usar um lança-chamas: você vai morrer. Dessa forma, minha tática foi sempre a mais malandra possível: dê a eles o que eles querem e eles te deixarão em paz.

Na segunda série, existia esse cara chamado DON VITO DO SERTÃO (preciso dizer que o nome é falso?). Mais velho, mais forte, mais perigoso. Era o terror da turma da tarde. Todo santo dia DON VITO chegava bem maroto pra miguelar meu lanche, quase sempre um salgadinho do Cascão, e todos os dias ele dizia a mesma coisa:

– Se alguém mexer com você, fala comigo.

vem na minha casa, não me trás nenhum presente...

Eu tinha oito anos e já era protegido pela máfia. Não existem muitas ameaças de verdade na segunda série, portanto DON VITO nunca me foi útil naquele colégio. Mas eu aprendi o truque.

Os perigos que a quarta série não tinha, na quinta e sexta tive aos montes. Da quinta até a oitava série, convivi com pessoas que claramente eram influenciadas pelo lado vida-loka da força. Bandidinhos, aspirantes a marginais, projetos de traficantes, essa é a vida no sistema público de ensino de São Paulo.

E graças ao sistema de protecionismo quase mafioso de DON VITO, aprendido anos atrás, eu sobrevivi aos onze anos de ensino na rede pública. Ameaças não faltavam, principalmente dos próprios caras que me protegiam. Mas, fazer o quê? Se você não coopera com o sistema, o sistema se volta contra você.

Àquela época, salgadinho não era mais o suficiente pra salvar minha vida. Era preciso mais, era preciso fornecer algo que eles não tinham e eu tinha sobrando: inteligência. Não tirando os caras, mas nem todo mundo ia pra escola porque queria aprender. Assumi o posto de “nerd-bro”, aquele cara bacana que faz as parada pra todo mundo, e nunca apanhei na escola.

Até o dia que eu quis cantar de galo.

***

Aquele 2002 foi um dos anos mais bizarros da minha vida. Eu “”namorei”” (sim, entre aspas quádruplas) uma patricinha que hoje é tatuadora e pin-up, virei vizinho de um monte de bandidagem gente boa do dia pra noite (inclusive tendo problemas por causa disso, outro dia contarei), fiz grandes amizades e perdi algumas também. Aquele ano meio que “moldou” quem eu iria ser, ou quem eu não iria ser nos próximos anos.

Minha sala tinha figurões. Alguns caras eram do alto clero da bandidagem, outros eram gente boa, e outros tenho amizade até hoje. Só que a diversão é muito maior do lado do capeta: eu me fazia questão de me enturmar e zoar mais com o lado negro da força.

E existiam os neutros. Dentre os neutros, tinha um cara chamado TOBIAS (nome obviamente trocado pro nome mais escroto que consegui pensar, para evitar possíveis ameaças de morte. Se bem que não é preciso um GÊNIO pra triangular os fatos e chegar até mim).

TOBIAS era um cara… diferente. No auge dos seus 12 anos, ele possuía uma massa corporal um pouco mais avantajada do que o resto do pessoal. Um exemplo clássico de obesidade infantil, TOBIAS beirava os 120 quilos. Era o mais próximo de um boneco da Michelin que eu já havia visto na vida.

Sem zoar, o mlk era praticamente assim mesmo

Vou ser sincero, eu nunca gostei dele. Não tinha nada a ver com o fato dele ser gordo, mas porque ele era chato, desagradável. Sendo ainda mais sincero, era mais difícil ainda ficar perto de TOBIAS em dias quentes ou depois de uma partida de futebol na quadra, sob o sol escaldante da Marrocos brasileira. Era um pouco de preconceito, sim, porque todos somos preconceituosos. Mas ele era mais chato do que gordo.

No intervalo, que ainda era chamado de recreio, costumávamos nos entregar ao prazer milenar do jogo de cartas mais famoso do sistema educacional brasileiro: o Truco.

Neste dia, em especial, acabávamos de sair da educação física, suados e cheirando a macho (TOBIAS cheirava a TOBIAS). Não feliz em ter sua aura sendo compartilhada por todos nós, TOBIAS começou com brincadeiras idiotas, como contar nossas cartas ao adversário, ou derrubar o baralho no chão.

Eu sou um cara tranquilo, nunca havia brigado na vida. Claro, havia brincado de lutar mas era brincadeira de criança, brigar com amiguinho na rua e tal. Arrumar briga na escola era algo tão saudável quanto enfiar o próprio pau num formigueiro. Pra mim, aquele discurso de que “violência gera violência” vale até hoje, e sentar a mão em alguém era algo completamente fora do meu universo.

Só que naquele dia eu tinha acordado com a macaca. Alguns ainda dizem que briguei pelo excesso de coragem que a presença daquela namoradinha (estranha) no mesmo banco, mas não me lembro dela na ocasião. Sabe-se lá porque, eu fui excessivamente agressivo com TOBIAS:

– Gordo, pára.
– Para com que? – seguido de mais uma provocação, derrubando as cartas.
– Gordo… pára, Gordo….
– Você não vai parar?
– Não tô fazendo nada!! – e continuava me trollando.
– Ahhh filho da puta…

… e foi quando meu lado covarde veio à tona. TOBIAS, pra mim, era indefeso. Era um gordo chato que jamais tinha lutado na vida. Eu era moleque de rua, já tinha batido em metade dos meus amigos e apanhado de outra metade.

De todas as pessoas da minha sala, o mais vulnerável era ele. Sempre zoado, sempre excluído. Na minha cabeça, TOBIAS era um cara tão perdedor que só de querer brigar com ele, eu já sairia ganhando.

Essa certeza de que iria vencer me subiu à cabeça. Naquele momento reuni toda minha arrogância e meu preconceito, somei ao ódio repentino e concentrei tudo em meu pé direito, também chamado de PATA FURIOSA DO URSO POLAR.

Foi quando que me levantei, e no auge da minha fúria, concentrei toda aquela energia em um só golpe, certeiro como sempre.

E ele não sentiu absolutamente nada. 

VOU TE COMER VOU TE COMER VOU TE COMER

Se você teve uma infância feliz, já viu essa cena. Goku lutando contra Majin Boo, o gordo. Goku, já na sua forma super Saiyajin 3, desfere dúzias de golpes violentíssimos no gordo rosado, que só os absorve. Os golpes ainda faziam um barulho engraçadinho, o que aumentava a humilhação.

As camadas extras de gordura de TOBIAS funcionavam melhor que Kevlar. Na conta, foram os dois chutes mais fortes que já dei na vida e uma voadora que faria o Liu Kang se inscrever na escolinha de voadora de novo.

Era surreal demais. Ali, no meio da briga, meu cérebro teve tempo pra lembrar de Goku apanhando de Majin Boo – e era exatamente a mesma cena que acontecia naquele momento. Tudo o que eu fazia era simplesmente ignorado, e TOBIAS nem fazia questão de me agredir, mesmo porque qualquer golpe dele, naquele momento, era absolutamente desnecessário.

O humilhado ali era eu, exatamente por apelar para a violência. E mesmo no meio da briga, eu dava razão a ele.

Lembra do gordinho Zangief? Se aquele vídeo tivesse passado na TV Globinho dez anos atrás, eu jamais levantaria a mão para TOBIAS.

TOBIAS desferiu apenas um chute. UM CHUTE com uma perna direita tão pesada quanto um filho de baleia jubarte. Você aí, brigão, já levou uma baleia jubartada na vida? Eu já, e foi o suficiente pra aprender a lição.

Eu poderia até “sair vitorioso” da luta, embora não saiba o que “sair vitorioso” signifique quando se trata de uma briga no pátio da escola, eu ali era o perdedor. Foi o auge da minha babaquice. Nunca na minha vida eu havia sido um cara tão idiota, e espero nunca mais voltar a ser. TOBIAS era o vencedor ali só por não retrucar – mesmo porque, se o fizesse, eu provavelmente não estaria aqui para contar essa história.

Tudo aquilo durou muito menos de um minuto. Em menos de um minuto, passei a maior vergonha da minha vida (até aquele dia), e hoje levo não menos que meia hora pra contar tudo o que aconteceu.

Agora é uma vida inteira pra me arrepender de ter brigado com a única pessoa que eu julgava ser capaz de derrotar na porrada. Foi preciso passar vergonha na frente da escola inteira pra nunca mais arrumar uma briga na vida.

Hoje, antes de dizer “eu não me arrependo de nada”, eu lembro de TOBIAS e sei que já fiz muita merda nessa vida. Me arrependo, por exemplo, da época que eu só vestia preto e me achava o maior roqueiro do mundo. Me arrependo de ter trocado meus amigos do mundo real por horas e horas de Ultima Online no auge da adolescência. Me arrependo de muita coisa.

Mas, quer saber? Faria de novo. Se um dia meu filho passar pela mesma situação que eu, vou torcer pra que aconteça a mesma coisa.

Brigue, filho. Brigue bastante, e saiba que estarei torcendo pra que você apanhe como um cachorro de rua. Assim tu vai criar vergonha na cara e entender que descer a mão em alguém é a coisa mais babaca que alguém pode fazer – mesmo que a outra pessoa mereça muito.

Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

9 comentários em “O dia em que eu apanhei de um gordinho na escola”

  1. Se te confortar, foi em 2002 também que eu consegui ‘uma namoradinha’ assim como você, ela era bem legal, tinha começado a treinar karatê no mesmo lugar aonde eu fazia judô e gostava de tocar piano, apesar de não conhecer mais de cinco músicas.

    Daqui à quatro meses vai fazer nove anos desde que ela morreu

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s