A coisa que mais odeio no mundo

Sabe, eu me testei.

Durante seis meses, me tranquei em meu quarto em meditação profunda, procurando aquela coisa que desperta meu ódio da forma mais obscura e terrível. Aquele assunto que só de pensar provoca indigestão, algo tão horroroso que fosse capaz de destruir minha mente racional apenas por existir.

Procurei fundo. Pesquisei minhas emoções mais íntimas, minhas lembranças mais longínquas e aproveitei pra procurar um par de meias que havia perdido algum tempo atrás. Desde abril que ando com uma azul e uma verde, pessoas haviam começado a comentar.

Depois de algum tempo, desisti. Embora agora caminhe pela rua com duas meias de cores iguais, continuei não encontrando a coisa que mais odeio.

Mas então me toquei de que havia feito a coisa completamente ao contrário. Ao invés de me fechar e descobrir por mim mesmo, era apenas sair nas ruas por alguns minutos para descobrir algo que estava diante de mim o tempo todo.

O que mais odeio nessa vida não é pornografia infantil, não é foto de gente comendo feto, não é coprofagia ou zoofilia. Andar com meias diferentes chega perto, mas também não é isso.

A coisa que mais odeio na vida são as LIGAÇÕES OBRIGATÓRIAS DE NAMORADOS. Sim, você sabe do que eu tô falando.


Antes de qualquer coisa, eu tenho que deixar claro. Embora não pareça, eu tenho coração e sei que grande parte dessas ligações são porque a outra pessoa faz falta, ou que é a única forma que muita gente tem de ficar perto estando longe.

Mas cacete, precisa ligar a cada 15 minutos só pra avisar sua alma gêmea de que tu tá respirando? Porra!

Os motivos que me levam a odiar tanto isso:

Não há pessoa no mundo que consiga alimentar incontáveis minutos de conversa, todos os dias, o dia todo.

A não ser que você namore um veterano da Segunda Guerra, um bombeiro ou um psiquiatra que ignora o código de ética da profissão, não há pessoa viva neste mundo que tenha assunto suficiente pra alimentar tanto tempo de conversa diária.

Prova disso é que, mesmo que o dia tenha sido sensacional, a conversa cedo ou tarde acaba caindo no famoso “o que você tá fazendo?”. Se o assunto chegar no “o que você comeu hoje?”, é prova de que a ligação tinha de ter sido encerrada quinze minutos atrás.

Não há distinção de gênero

Graças ao fenômeno Overly Attached Girlfriend, aliado a uma imbecil cultura machista, é mais fácil imaginar que este tipo de pegação no pé venha da mulher. Afinal, em dez mil anos de história humana, é comprovado cientificamente que a mulher é mais apegada ao relacionamento que o homem.

Mas, em meus muitos passeios pela vida, atestei que não é uma exclusividade. Na verdade, o homem é tão apegado (ou enche tanto o saco) quanto a mulher.

A diferença é que o homem tem aquele FATOR BABACA, causado por um hormônio liberado pelo emaranhado de nervos e músculos mal situado no meio de suas pernas, o pinto. Enquanto para ele é perfeitamente normal trocar horas de aula por mesas de bar, ela fazer isso é PASSÍVEL DE PENA DE MORTE.

Assim sendo, o homem ciumento (sempre um escroto) liga a cada quinze minutos para a mulher apenas para manter controle. “Onde você está? Com quem está? Tá na aula? De quem é essa voz aí no fundo?”. É mais ou menos como o cachorro que mija no poste e volta a cada dez minutos pra mijar de novo, só pra mostrar que é ele quem manda ali.

E ai dela se não atender.

A obrigação é o inverso da vontade.

Vontade de falar com o namorado é uma coisa. Obrigação de falar é outra. Sentir saudade é a melhor coisa que um relacionamento pode ter.

Ficar um dia sem se falar faz bem. Ficar a semana sem se ver faz bem. Na próxima vez que se falarem, vão ter assunto de verdade. Na próxima vez que se verem, vão trepar como dois coelhos alimentados com Red Bull e Ecstasy por dois dias.

O problema de manter contato constante é, exatamente, manter contato constante. Conversar mais, sem absolutamente nada pra falar, cria um vácuo que precisa ser preenchido rapidamente – e na pressa de fazer isso, diz-se coisas que não deveriam ser ditas. É aí que surgem as deliciosas brigas desnecessárias.

A vontade que tu tem de fazer algo é inversamente proporcional ao quanto tu é cobrado a fazer tal coisa. Ganhar dinheiro é legal, mas com certeza você odeia quando teu chefe te manda trabalhar no fim de semana.

SAI DESSA BOLHA.

Casais muito apegados se transformam em uma bolha amorfa que tem comportamento e universo próprios. Agem como se fossem uma só pessoa. Isso é horrível de ver.

Acontece que ninguém nesse mundo vive sozinho, caralho. Enquanto tu tá na faculdade, que tal desligar a porra do celular e aproveitar teus amigos? Que tal parar de brigar com o namorado sobre “porque você não atendeu a ligação” no corredor do trabalho, na frente da sala do seu chefe?

Porra, se é pra viver grudado, compra uma camisa de força, se amarra na namorada e anda por aí igual um retardado, cara.

***

Não sou a melhor pessoa pra falar sobre relacionamentos, afinal ocupei os últimos sete anos da minha vida em namoros que terminaram tão bem quanto uma colisão frontal de trens carregados de nitroglicerina, mas devo ter alguma razão.

Ser solteiro é a pior coisa do mundo. Embora todo mundo diga que é do caralho, que é sensacional, que te dá passe livre a todas as xoxotas por aí, não deixa de ser um caminho deserto, seco e estranho que leva a lugares onde você geralmente não gostaria de estar.

O único lado bom é que pelo menos fujo dessas ligações obrigatórias. E tenho bastante tempo pra arrumar as minhas meias.

Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

6 comentários em “A coisa que mais odeio no mundo”

  1. Muito bom. Sinceramente, odeio, odeio com meu ódio mais profundo ligações de namoradas (ou até ficantes?. Meu trauma tomou proporções a ponto de passar a ver o celular como meu maior inimigo. Explico: Conhecendo a moça, aquela coisa, tudo maravilhoso, legal, interessante até que ela faz a pergunta que estremeceu meu mundo:
    – Me passa seu Número?
    E como todo garoto ingênuo na época, querendo agradar pra garantir a presa, passei de bom grado. (ora, todo mundo que está se conhecendo passa o número não é mesmo?)
    A garota me mandava mensagens das 7:00 da manhã ao 11:30. Do 12:00 ás 13:00 (hora do MEU almoço no trabalho) ela me LIGAVA. Das 13:00 as 6:30 da tarde, bombardeio de mensagens.(Quando digo bombardeio, digo de 20 a 30 mensagens!) À noite, quando eu pensava ter meus momentos de paz e descanso mental, ELA me ligava. E as ligações duravam cerca de 2:00 pra mais!! Lógico que a culpa foi minha, que dei espaço, que deveria ter cortado, mas aí que entra uma coisa que as mulheres e meninas que são assim não pensam: As vezes estamos sendo apenas educados e fazemos as coisas só pra agradá-las. O texto já diz tudo, mas elas deveriam saber que a maioria dos homens não quer ficar de conversinha por telefone. Ou o cara quer contato físico, presente, olho no olho, ou ele quer ficar sozinho na dele, ou conversando com os amigos. Simples assim.

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  2. Esse não é um problema exclusivo de mulheres, de forma alguma. O sentimento de possessividade e a necessidade de controlar a rotina um do outro são ocasionados pela insegurança da própria pessoa, com relação à ela mesma. É baixa auto estima, insegurança, e principalmente, falta de respeito com o ‘ser’ do outro. Todos deveríamos procurar parceiros que pudessem nos acompanhar na jornada, seguindo lado a lado, e respeitando a individualidade e as diferenças, que obviamente, existem – sempre. Pessoas são ambiciosas, e querem evoluir, e quando você tem alguém que ou está em um patamar de evolução inferior ao seu, você pára de evoluir, às vezes esperando que o outro te alcance. Mas às vezes, ao ver que você parou, a outra pessoa se desmotiva para ir em frente. Relacionamentos fundamentados da forma errada, pelos motivos errados, não evoluem, e trazem frustração para ambos os lados.
    Divaguei, mas o que quis dizer é que sim, concordo contigo, e acho que talvez essa seja uma das coisas que eu mais odeio no mundo também, por todo o contexto envolvido.
    Quanto tempo não vinha aqui! Por quê mesmo é que eu parei? Ah, é mesmo… Relacionamentos tsc tsc. Acho que nós já vimos esse filme.

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  3. Acompanhava esse blog a uns dois anos atrás, do nada lembrei do endereço hj e resolvi conferir. Que agradável suspeita saber q ainda posta. Hj eu tenho um relacionamento grudento de pensarmos q mesmo morando com a pessoa, ainda nos ligamos todos os dias . Mas são ligações rápidas e minhas cervejas de sexta com os amigos ainda são religiosas, então acho q ainda tenho salvação rsrs

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  4. Gostei muito…mas posso colocar esse texto na versão masculina? Pq vcs mulheres tbm não são muito diferentes. Mas concordo quando vc diz…pegação demais…enche o saco mesmo.

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