O dia do cortador de cana

Adolescência. Época de ouro onde cometemos os erros que, em poucos anos, serão causa de arrependimento eterno. Tempos em que fazemos tanta merda que, em suma, se torna a melhor época das nossas vidas. É aqui que começamos a jogar a culpa de tudo nos hormônios.

Essa tormenta de hormônios é responsável por uma maré de eventos. O crescimento anormal de pêlos, o suor excessivo e o descontrole vocal nos meninos, o desenvolvimento dos monumentos femininos à altura do tórax e aquela condição bizarra em que o corpo das meninas pensa “ei, agora que estou extremamente atrativa aos olhos masculinos, acho que é uma boa hora de sangrar descontroladamente por dias e dias”…

Somado a tudo isso, existe o fator BABAQUICE. Existem certas coisas na vida que se provam verdades absolutas com o tempo. O fato de todo adolescente ser babaca, por exemplo.

Não existe uma pessoa sequer neste mundo perturbado que não tenha sido um adolescente babaca. Você foi, seu pai foi e seus filhos serão também. Até Jesus deve ter sido m adolescente babaca e chutado placas de trânsito em algum momento entre 0 e 16 d.C. Aliás, nossos filhos serão babaquinhas ainda mais cedo, afinal tudo é tão precoce hoje em dia que criança nasce pagando imposto de renda.

É injustiça dizer que o fator babaquice é relacionado com o meio em que a criança cresce. Pode ter sido criado com todo o amor de uma família de classe média, ou vendido pela mãe ainda infanto por algumas pedras de crack. Todos nós um dia fomos babaquinhas arrogantes que acham que o mundo é nosso umbigo.

Já disse aqui uma vez que eu fui um adolescente babaca, mas nunca disse quando foi que me dei conta do que estava fazendo.

O ano era 2005. Eu estava curtindo meus primeiros meses de trabalho como digitador em um jornal local. O trabalho era simples, com muito tempo vago, inclusive tempo vago suficiente para criar este blog, mas com atribuições inusitadas.

Na verdade, eu passava mais tempo fazendo coisas extras do que fazendo meu trabalho (o qual executava de forma magistral, deus, como eu era bom naquilo). De office boy a técnico em informatica, de quebra galho a designer, fazia de tudo um pouco. Inclusive manter a barriga do pessoal alimentada, mas chegaremos nisso mais tarde.

O lance é que toda sexta feira trabalhavamos até mais tarde, as vezes até a madrugada. Isso, obviamente, obrigava-nos a fazer uma refeição.

A “refeição” era um ritual semanal onde cada funcionário podia escolher entre dois e três salgados, desses que colecionam moscas dentro daquela estufa horrorosa no boteco mais próximo da sua casa. Eu era o encarregado de anotar os pedidos e buscar comida, como a mãe leoa que anota o pedido dos filhos e vai buscar alimento em uma manada de zebras que passa por ali.

Nessa época, eu era um adolescente retardado que achava que ser roqueiro era se vestir de preto, usar correntes e calcas rasgadas. Por isso, eu só usava preto, correntes e calças rasgadas, afinal eu precisava mostrar pra todo mundo que meu gosto musical era esse. Todos precisava saber.

O negócio é que o clima no interior paulista não colabora com isso. Temperaturas abaixo de 30 °C são temidas e causam problemas sérios de saúde pública, como o cheiro de naftalina e mofo que cobre a cidade pois todos os agasalhos foram forçados de seus confinamentos eternos no fundo do armário.

Neste dia, em especial, fazia frio. Pra proteger-me do congelante frio de 26 graus de Sertãozinho, eu vestia por baixo de uma camiseta do Legião Urbana outra camisa, uma cinza extremamente fuleira, de mangas longas.

Na lanchonete, eu sempre demorava uns 10 minutos pra completar o pedido, já que 20 salgados não eram coisa rápida de se arrumar. Enquanto esperava, ouvi uns caras dando risada, mas que faziam de tudo pra disfarçar o que diziam – sinal clássico de que estavam falando de alguém, ou de mim.

Eu não me incomodei. Esperei minha comida pacientemente, até que ouvi a expressão “bóia fria” vindo dos mesmos caras que estavam rindo da outra vez.

Pra você que caiu do berço quando criança, “bóia fria” é como são conhecidos os trabalhadores de lavoura, que se vestem de forma parecida com esta:

Ai fiquei incomodado. Eu não estava fazendo nada a eles, na verdade nem cheguei a olhar pra eles por um segundo sequer. Mas sabe aqueles momentos da vida em que a ficha cai de forma tão violenta que o tempo para e você filosofa sobre toda a historia do universo em um segundo?

Depois de ouvir a expressão “bóia fria“, eu percebi sobre o que estavam falando e rindo. Olhei pra mim e vi um tenis batido, uma calça jeans rasgada, uma camiseta de manga comprida e um boné bastante danificado escondendo cabelos mal cuidados.

Eu, sem perceber, havia me tornado um bóia fria.

Na minha vontade adolescente babaca de mostrar pra todo mundo como eu era hardcore e desapegado, eu virei motivo de piada. E de certa forma, sou grato a esses caras, pois sem eles eu jamais perceberia o quão escrotamente me comportava.

Arrependimentos existem pois eles nos fazem aprender lições. Seja apanhando de um gordo na escola ou sendo chamado de bóia fria por desconhecidos, eu me arrependo de trilhões de coisas feita no intervalo de 2000 a 2004 – o período de minha vida onde eu não tinha referência alguma do que fazer.

Eu dizia ser grunge, e queria me vestir daquela forma. Na tentativa de ser diferente, eu acabei me tornando igual uma tribo inteira. Isso era 2005, e esse mesmo universo se mantém igual. Hoje saio na rua e ainda vejo pessoas diferentes sendo iguais. Tribos de góticos, tribos de malandritos, tribos de roqueiros, tribos de sertanejos universitários. Gente igual pra todo lado.

Pensado nisso, veio a realização: todos os que esforçam em ser diferentes sao iguais.

Cabelos compridos já foram sinal de rebeldia. Tatuagens, meu deus, tatuagens já foram o sinal na terra de que o demônio esta tomando conta da civilização. Quinze anos atrás, um cara de cabelo comprido e um símbolo japonês no braço era o maluco mais hardcore da região.

Hoje, até sua prima de 12 anos tem tatuagem.

Daqui quinze anos, a moda vai ser implantar assentos de privada na espinha dorsal. Esses caras vão ser os mais hardcore da região.

A única certeza é de que um dia eles vão se arrepender de colocar a própria personalidade de lado pra obedecer as regras de certas modinhas ou tribos, só para serem aceitos. Um dia, o arrependimento bate. Um dia eles vão ouvir conversa numa lanchonete.

Nisso fica uma certa lição, pelo menos pra mim. Em um mundo em que ser diferente é ser igual, a única forma de ser realmente diferente é ser normal. O normal nunca sai de moda.

E você,  já garantiu seu assento de privada?

Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

9 comentários em “O dia do cortador de cana”

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