A síndrome de celebridade herói

Bom, creio que todo mundo que respira oxigênio e vive no planeta Terra sabe que todo começo de ano o Rio de Janeiro se transforma num atoleiro sem fim. Pra você que caiu de cabeça do berço, vou explicar rapidinho:

O interior do Rio é praticamente todo formado por  serranas, e as chuvas de verão provocam problemas seríssimos na região. O lugar onde as pessoas teimam em construir casas é uma camada relativamente fina de terra fofa que sobrepõe a rocha sólida. Com as chuvas e a completa falta de responsabilidade de liberar construções em lugares de risco extremo de desmoronamento, a camada de terra molhada desliza morro abaixo, levando o que encontrar na frente.

É isso que acontece.
É isso que acontece.

O pessoal vê um morro e pensa:

— Ei, vamos arrancar todas as árvores da redondeza e instalar um monte de residências nesse morro, apoiadas em fundações leves e baratas e que claramente não oferecem segurança alguma?
EXCELENTE IDÉIA!

Nos últimos anos, a programação da televisão se tornou padrão. Os desmoronamentos e tragédias pluviais no Rio de Janeiro se tornaram evento anual assim como o Carnaval e o Ano Novo, só que sem direito a vinheta colorida. Piadinhas à parte, o problema é sério. Tem família inteira rolando morro abaixo, sob escombros e cidades inteiras à beira do colapso.

Eis que surge a figura salvadora. Zeca Pagodinho, aquele nosso amigão do samba que é sempre lembrado por sua barriga de chope e suas músicas grudentas. Deixando o conforto do lar, que também foi alvo das inundações, Super Zeca foi ao resgate. Sim. Zeca pagodinho ajudou vítimas da chuva em Xerém, cidade onde mora.

Abordado por um repórter que obviamente só quer crescer com a tragédia, Super Zeca respondeu tudo como se fosse um cidadão qualquer, com a voz embargada e os olhos marejados, cara de cansado e tudo mais. Super Zeca acabou deixou o repórter falando sozinho pra ir trabalhar.

E isso foi legal pra caralho.

FALO AE REPORTER OTARIO VO LA CATA AS MINA UHEHUEUHE AGORA FIQUEI DOCE DOCE DOCE

No intervalo de um dia, Zeca foi de um cantor de samba amante do etanol a entidade divina do panteão dos santos brasileiros. De sambista a super herói. Eu não sou da cena sambista e muito menos tenho Zeca Pagodinho na minha lista de dez mais. Não sei se ele faz sucesso. Mas com certeza seu nome voltou à mídia. Esta aí o problema.

Zeca, na humildade de um cara que para as férias pra ajudar uma cidade que vive o caos, arregaçou as mangas e mostrou que existe um homem por trás da celebridade. Porém Zeca nunca pensaria na herança maldita que deixou. Ao sair do status de celebridade pra virar herói nacional, Zeca traçou um precedente perigosíssimo. Afinal, tudo o que te faz aparecer na mídia vira procedimento padrão pra pseudo-celebridades fazerem também.

É fantasioso mas faz sentido. Uma subcelebridade, ao ver que ajudar pessoas te traz fama instantânea, vai querer fazer o mesmo. Pode ser que, daqui pra frente, veremos ex-BBBs fazendo trabalho voluntário em tragédias praticamente toda semana.

O Super Zeca, sem querer, colocou uma semente na cabeça da Geisy Arruda de que ajudar a gurizada é bom. Lady Gaga chuta bola com crianças da favela e é capa da Globo. Paulinho Vilhena salva uma turista de se afogar na praia, capa da Globo.  Porque a Geisy não pode fazer o mesmo?

A nossa esperança é de que ela, depois de fazer sua boa ação do dia, seja capa da Globo por ser encontrada no meio de escombros depois que uma pedra gigante rolou em sua direção depois dela salvar um ninho de corujas de cima de uma árvore. 🙂

Quanta piada pronta.
Quanta piada pronta.

Essas coisas alimentam todo um mercado. Celebridades instantâneas são um dos motores que empurram a mídia fútil no Brasil. Se um dia o Ego deixar de existir, toda uma profissão deixaria de existir. É como se, de um dia pro outro, atendentes de telemarketing sumissem do mapa.

Sem atendentes de telemarketing, o Procon deixaria de existir. Sem celebridades, não existiriam paparazzi e a imprensa poderia ser levada a sério, um dia.

Se a profecia se concretizar, teremos subcelebridades tentando desesperadamente aparecer de forma heróica, pra tentar tirar proveito da situação criada por Super Zeca, o herói nacional. E dá-lhe Ego.

Como todo ano essa merda no Rio se repete, e sempre fica pior, infelizmente oportunidade não vai faltar. Mãos à obra, sub celebs. Estamos de olho.

Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

2 comentários em “A síndrome de celebridade herói”

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