Sou corinthiano e não matei ninguém

Acho que o blog chegou num ponto em que praticamente todo mundo que lê me conhece pessoalmente, pela internet ou em carne-e-osso. Isso é bom, pois dispensa explicações maiores. Então acho que grande parte de vocês sabem que eu sou corinthiano, maloqueiro e sofredor. Sei também que, pelo estilo das pessoas que lêem meu blog, vocês não só odeiam futebol, como odeiam corinthianos. Aliás, quem não odeia corinthiano?

Essa história começou no Paulista de 98, quando o Corinthians perdeu o título para o São Paulo. Até ali, com 7 anos, eu era palmeirense, mas sequer acompanhava futebol. Aliás, não sei nem porque era palmeirense.

Em um dos jogos finais, me falha a memória, houve um lance interessante. O goleiro deu um daqueles lançamentos na fogueira, verdadeiro tijolo, que o lateral não alcançaria nem se montado em um leopardo. O jogador, coitado, fez o que pode pra alcançar e, num esforço final, se arremessou em direção a bola, evitando a saída da bola mas indo parar metros adiante da linhal lateral.

A torcida foi à loucura. Um amigo que assistia o jogo ao meu lado comentou:

– Jogador de outro time não faz isso não. Só no Corinthians.

Daí, então, virei torcedor. Todo mundo que um dia passa a acompanhar algo novo, se alimenta de tanta informação pra acompanhar o ritmo que acaba exagerando. Aos 10 anos, eu lia revistas sobre o Corinthians o dia todo. Relia, lia novamente, fazia recortes, pôsteres, tudo. Ia para a escola de uniforme completo, cara. Deve ser por isso que demorei doze anos pra beijar uma menina.

Se continuasse nesse ritmo, eu me tornaria um desses torcedores fanáticos. Aos vinte anos, teria três tatuagens do escudo, teria ido a cinquenta jogos do time e participaria de discussões online sobre times de futebol durante horas e horas. Eu ficaria o dia todo na internet comentando em posts do Globoesporte.

E nada na internet é mais retardado que a seção de cometários do globoesporte.

detalhe pro segundo

Minha mãe me ensinou que existem duas coisas que não se deve discutir: religião e política. A isso, cara mãe, eu adiciono o futebol. Não se deve discutir futebol.

Futebol é uma coisa saudável, algo que você vê ou pratica pra se divertir e te fazer bem. Futebol é algo pra ser conversado em mesa de bar, argumentado, exagerado. Futebol é pra ser levado na esportiva.

Futebol é arte, é o maior esporte do mundo, é a alegria de bilhões de pessoas. É abraçar os amigos e comemorar títulos, ou chorar derrotas avassaladoras.

Mas algumas pessoas vêem diferente. Pra elas…

Futebol é ódio. Ir em estádio, hoje em dia, é ter medo de colocar a carteira no bolso de trás com medo de roubarem. É ter que tirar a camisa da cor do rival por passar perto de um bar frequentado por torcedores daquele time, com medo de ter a bunda chutada até a morte.

Futebol é generalizar, chamar uma torcida inteira de marginal porque um ou outro rouba bicicletas nas horas vagas. É dizer que uma torcida inteira é homossexual. É dizer que um cara “vive de passado” porque seu time teve um ídolo maior nos anos sessenta.

Futebol faz pessoas se acertarem com murros e chutes porque um time ganhou, sem nenhum esforço da pessoa em específico, um título a mais que o outro. Futebol faz as pessoas sangrarem.

Chegamos ao ponto em que futebol faz pessoas morrerem.

corinthians

E os mesmos idiotas que generalizam ao dizer que “todo corinthiano é bandido” são as que dizem que o clube é responsável pelo que aconteceu ontem. O clube não tem culpa nenhuma.

O Corinthians tem maior cobertura da imprensa porque é o maior time do Brasil na atualidade. Lidem com isso.

[aqui é o momento em que vocês comentam e dizem ‘corinthians segundona kkk’, ‘6-3-3’, ‘flamengo time de zico’, ‘coitado corinthians kkkk rebaixado’ e todos aqueles comentários escrotos que vocês costumam fazer por aí, IGUALZINHO os caras do globoesporte]

É escrotíssimo dizer que “a Globo beneficie o Corinthians”, afinal uma rede de televisão precisa de público, e público é o que o Corinthians mais tem.

O Corinthians, atual campeão da Libertadores, que no ano passado deu não só um banho de futebol como uma aula de fair play e jogo limpo, não pode ser responsabilizado pela atitude covarde e imbecil de UMA pessoa.

Todo idiota que leva um sinalizador pro estádio deve ser responsabilizado pelos problemas que o mesmo pode vir a causar. Quem já frequentou geral de estádio, muito provavelmente, já teve de conviver com aquelas fumaças coloridas e sabe o quanto aquilo é insuportável.

Se alguém passa mal por causa da fumaça, parte da festa da TORCIDA, o clube tem que ser responsabilizado? Em parte, sim, por permitir que tal equipamento entrasse no estádio. Mas a iniciativa de acender o bagulho é do torcedor, então quem responde pelo ato deve ser ele.

Imagine a cena:

A banda da torcida está tocando, embalando a festa. De repente, a baqueta de um dos membros se quebra e sai voando. O estilhaço de madeira então atinge uma criança, perfurando seu olho. O membro da banda é responsável? Sim, por não ter visto que a baqueta iria se romper e continuar tocando.

O clube deve ser responsabilizado? Não.

Dizer que o Corinthians é um clube de assassinos porque um boçal cometeu um erro é muito, muito errado. Dizer que toda a torcida é culpada por causa de um acidente é uma atitude infantil, escrota, irresponsável.

O culpado? O cara que atirou o sinalizador. Quer mais um? A segurança do estádio, por consequência, o clube mandante, por permitir que entrassem com uma ARMA no estádio.

Arma? Sim, arma. Já viu essa porra funcionando? Avança o vídeo pros 30 segundos.

Segundo o regulamento da Libertadores, o time pode ser punido de acordo com atitudes da torcida. Só que daí a ser excluído é um pulo imenso, um exagero sem tamanho. Até perder o mando de campo pelo resto da competição seria um exagero. O time precisa ser punido pra que haja a lição, mas não impedido de exercer seu direito de jogar a competição que ganhou, com louvores, no ano anterior.

Seria injustiça com todos os jogadores que disputaram vaga no time. Com todos os torcedores que vão em paz aos estádios. Com todo mundo. Isso não traria o moleque de volta à vida, cara.

Pra ser excluído, teria que ser algo muito, muito mais grave. Se um dos jogadores entrasse em campo com um lança granadas e explodisse metade da torcida rival – aí sim o time é responsável.

Em 2005, quando o São Paulo conquistou a Libertadores de forma indiscutível, parte dos seus torcedores foi comemorar o título na avenida Paulista e fizeram dela um campo de guerra. Assim como a guerra do Pacaembu em 1995. O times não podem pagar pela violência das torcidas.

Culpa, sim, teria no caso das embaixadinhas de Edílson, na final do Paulista de 1999.

Aí sim, o time é responsável.

Ainda tem aquela galera que diz que “o time força a torcida a ser assim”. Cara, são 30 milhões de pessoas, em sua grande maioria, homens barbados. Tudo bem que, pra alguns, futebol é religião e existe fanatismo. Mas daí a um time forçar um cara a acertar um rojão numa criança da torcida rival?

Sério? Esse argumento cola pra alguém? Faz algum sentido?

Culpem as pessoas certas. Não foi o Guerrero quem comprou o sinalizador, não fui eu quem mirou, não foi meu primo que mandou atirar. Não me chame de assassino porque eu torço pro mesmo time daquele animal.

***

Fugindo um pouco do assunto:

Em 1985, na final da Champions League foi disputada entre Liverpool e Juventus, em Heysel, na Bélgica. Só que o resultado da partida pouco importa. Naquele dia, uma briga generalizada causou a morte de 38 pessoas e incontáveis feridos, tendo como estopim a tradicional violência dos hooligans.

A tragédia fez o Liverpool ser banido por seis anos de competições européias pela UEFA.

Quatro anos depois, ocorreu o desastre de Hillsborough, na Inglaterra.

Na partida entre Liverpool e Nottingham Forest, válido pelas semifinais da Taça da Inglaterra, 96 torcedores do Liverpool morreram, e outros 766 ficaram feridos, graças a superlotação do estádio. Pessoas foram esmagadas contra o alambrado. É uma das maiores tragédias da história do futebol mundial.

Aí sim, é justo.

***

ps: peço desculpas por algum erro no meio do texto. Tô com uma gripe absurda, abrir os olhos é um esforço sobre humano. Se tiver algo errado, coloquem nos comentários que eu corrijo assim que der, por favor 🙂

ps2: obrigado ao Guilherme pelas correções referentes ao Liverpool.

ps3 << xbox360 kkkkk vai corinthians

Anúncios

Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

5 comentários em “Sou corinthiano e não matei ninguém”

  1. Não acho que o time tenha culpa alguma, mas uma penalidade forte sobre ele força, querendo ou não, o comportamento da torcida mudar. Ou assumem a carapuça de vândalos de uma vez e saem quebrando a porra toda porque foi injustiça ou sentam a bunda na cadeira e torcem na paz.
    Não creio que vale uma generalização dizendo que todos os torcedores de determinado time são babacas nem nada, mas se for pra generalizar, prefiro dizer que brasileiro, independentemente do clube pro qual ele torce, não sabe como torcer. Brasileiro acha que violência e vandalismo justificado por “paixão pelo futebol” é válido.

    Tenho é medo de como vão se portar na Copa.

    (Sei que tem bastante gente que respeita tudo direitinho na boa, mas essas pessoas não podem nem ir pro estádio torcer de fato porque sentem medo do que pode acontecer por lá.
    Hoje ser torcedor é assistir ao jogo em casa e tirar a camiseta do time assim que colocar o pé na rua.)

    Curtir

  2. (E devo discordar do “pra ser excluído, teria que ser algo muito, muito mais grave.” Grave quanto? Da próxima vez vai rolar um número de mortos necessário pro time ser desclassificado? A regra já existia, o torcedor que entrou ali tinha plena consciência disso. Acho que não punir só vai deixar a impressão de que nenhuma atitude drástica é tomada então ninguém tem que se preocupar com o que pode acontecer. Vão continuar sendo animais.
    E pra mim isso serve de lição pra TODAS as torcidas. Se o Corinthians – cujo nome eu não sei como escreve direito klfasjdkljasldkjasd – é que tem que ser sacrificado, que seja. Injustiça? De fato. Mas a gente não vive no Brasil utópico em que todo mundo aprende com as consequências imediatas. Tem que rolar punição severa – e ainda sim, pode acontecer de ninguém aprender é nada.)

    Curtir

    1. Discordo da sua discordância, dona Sara Maria Pedrosa Cardoso Cominho dos Reis.

      Pra excluir um time, só se ele fosse DIRETAMENTE RESPONSÁVEL por algo.

      O estádio era o San José. O policiamento, esse sim responsável pela revista e LIBERAÇÃO dos artefatos pra torcida, era do estádio, portanto responsabilidade do San José.

      Ao deixar que os torcedores rivais entrassem com artigos tão perigosos, o San José assumiu o risco de que isso poderia dar merda. Não estou dizendo que a culpa é do San José, mas estou tirando sim a culpa do CLUBE Corinthians.

      A torcida tem culpa? Também não. Não houve briga, não houve quebra-quebra antes ou depois do jogo. O culpado pelo acidente em si foi o marginal que atirou o sinalizador na direção da torcida rival. Os outros que tinham o mesmo item poderiam ser responsabilizados também.

      Se isso acontecesse no Pacaembu, o Corinthians seria diretamente responsável. Aí sim, poderia ser considerado culpado.

      Mas exclusão do torneio, não, jamais. Isso é puro sensacionalismo, dá mais manchete. O clube pode perder o mando de jogo por alguns jogos, ou até da primeira fase toda, mas daí a ser excluído da competição é demais. Não serviria de lição à torcida, mas sim geraria mais protesto e mais violência.

      Acho que um time pode ser excluído de uma competição no caso de compra de resultado ou manipulação de jogos. Aí sim, caso comprovado a participação direta de dirigentes do time, é passivo de exclusão e suspensão das competições por vários anos.

      Curtir

  3. Basicamente: Se fosse qualquer outro time (são paulo, palmeiras, flamengo etc) estaria todo mundo falando que a responsabilidade é unicamente do torcedor, e que o time não tem porque ser punido – vide o final da sulamericana, que o SP mandou os leões de chácara espancarem os jogadores do Tigre, e nada aconteceu

    Curtir

  4. Entendi tudo que ‘cê disse, Raphs. Mas eu sou descrente com brasileiro e acho que a gente só aprende quando toma no meio da cara. Não é justo desclassificar o time (assim como não aconteceu), mas deixar a coisa passar sem nenhuma medida considerada drástica vai deixar aquela leve impressão de que “pode fazer que não dá em nada”.
    Tipo aqueles moleques chatos do ensino fundamental que o pai é rico e briga com a escola e o moleque sai impune.
    Aí vai lá e mata o pai e rouba o dinheiro e muda pra Cancun e mora com três prostitutas e dois gatos brancos.

    Tomando piña colada o resto da vida.
    Aeaeaee.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s