Relato de um ex-viciado

Olá, meu nome é Raphael e eu sou um ex-viciado.

Essa não é uma história, é apenas um marco na minha vida. É algo que eu preciso colocar no papel (dá um tempo, vai) pra ficar registrado para a posteridade.

Eu nasci com um problema que talvez você tenha e nunca tenha percebido. O desvio de septo é uma condição bastante comum, onde um pedaço de “carne esponjosa” incha descontroladamente dentro do seu septo nasal, bloqueando parte do fluxo de ar. Isso causa um pequeno desconforto, que vai desde a sensação de nariz tampado até a apnéia noturna, que aí sim pode causar complicações e até morte por asfixia.

Ciente do problema, procurei ajuda no lugar mais especializado em doenças crônicas que a humanidade já desenvolveu: a internet. Lá, encontrei a solução pros meus problemas: um certo soro, vendido em qualquer farmácia, que melhorava a respiração nesses casos.

Parti então para o balcão da farmácia:

— Então cara, to precisando de um bagulho aí, certo? Pra dar um barato, cheirar melhor as paradas.
— Tenho um esquema aqui pra ti, tu vai gostar.
— Mas isso aí resolve meu problema?
— Irmão, vai na fé, é só cheirar a paradinha que tu vai pro céu.
— Não faz mal não? Pode usar quando quiser?
— Maluco, ta todo mundo usando, eu mesmo uso direto, isso aqui é do bom.
— Me vê dois então.

Assim conheci o Neosoro.

neosoro

A primeira cheirada no negócio foi horrível. Pra novos usuários, meter água nariz adentro é praticamente como enfiar a cabeça debaixo de uma cachoeira. Aquela coisa salgada entrou no nariz e escorreu pela garganta, onde o gosto só não ficou pior pois meu cérebro se preocupava demais em não deixar o corpo se afogar.

Segundos passaram e nada do tal “barato”. Poucos minutos depois de voltar ao que estava fazendo, descrente de que o negócio ia funcionar, me bateu a realização de uma vida inteira. Durante os últimos anos, eu não sabia o que era respirar direito. Naquele dia, da forma que ele disse, eu tinha chegado ao céu.

O que eu não sabia é que esse “caminho pro céu” tomaria uma curva sinuosa pra me jogar num lugar próximo ao inferno.

No começo, tudo é lindo. Você recupera a capacidade de respirar normalmente, não sente mais o incômodo de um rinoceronte preso na sua cara, consegue sentir cheiros novamente. O mundo inteiro fica mais bonito, menos sua tia Lourdes que ainda se parece com um cachorro velho depois de atropelado por uma manada de mamutes. Eu podia finalmente sentar e assistir um filme no ar condicionado sem ter que levantar e fazer polichinelos pra poder respirar. Eu podia plantar uma árvore, correr num rally, andar de monociclo, domesticar um crocodilo, droga, eu podia finalmente fazer o que quisesse.

Meu corpo havia recuperado uma de suas funções vitais. É mais ou menos como se tu tivesse uma prisão de ventre inviolável por dois anos, descobrisse o Activia e passasse os próximos dois meses no banheiro, recuperando todo o tempo perdido.

Mas, assim como todo vício, esse havia começado a cobrar seu preço.

Cocaína se cheira, maconha se fuma, heroína se injeta. Neosoro se pinga, e no começo eu pingava uma, duas vezes por dia. O efeito durava umas oito horas, e o resto do tempo era suportável. Eu não sentia falta. Depois do primeiro ano de uso, o efeito caiu para cinco horas. Depois, pra quatro. Daí em diante, já não era possível sair de casa sem o maldito remédio.

Já não era mais um prazer poder respirar, era uma necessidade. Mesmo quando o nariz estava bem, o corpo pedia a merda do remédio.

Essa merda VICIA.

Imagina isso aí passando em cima do seu corpo. É o que a abstinência te causa.
Imagina isso aí passando em cima do seu corpo. É o que a abstinência te causa.

Tentei de tudo pra me livrar dele, até uma cirurgia que corrigiria o problema definitivamente, mas que não resultou em nada. Desde 2007, usava a droga do remédio ininterruptamente.

Foi então que comecei a adquirir os hábitos que todo viciado tem.

1- A droga não pode faltar.

Você precisa dela. Mais do que isso, seu cérebro é capaz de tocar o terror no resto do teu corpo se você não dá aquela pingada logo pela manhã. A ansiedade te consome, você passa a mastigar até solado de porta pra conter o nervosismo.

2- Tem que estar disponível, sempre.

Você precisa dela, mais do que você pensa. Nada de sair de casa sem aquela bisnaga salvadora no bolso, ou você terá problemas sérios. Minhas calças chegaram ao cúmulo de estarem marcadas com o formato do remédio no bolso. Nas viagens, carregava dois ou três frascos pra caso perdesse um. Em lugares novos, fazia um scout na região pra identificar farmácias ou pontos de venda.

3- Secret stash

Todo viciado tem um esconderijo, um lugar que guarda uma reserva de emergência. O desespero te faz armazenar frascos do remédio em caixas, gavetas, sapatos, armários, bolsa dos amigos. Todo lugar é lugar pra um Neosoro a mais.

4- O Network

Você passa a identificar usuários a distância e cria sua base de contatos. Afinal, se um dia você esquecer seu suquinho mágico em casa, alguém pode fornecer. Assim, nunca falta.

E como todo bom viciado, uma hora você passa do ponto e sofre uma overdose. Não é porque o remédio é praticamente soro caseiro com um tempero que não pode te fazer mal. Brincadeiras à parte, foi uma das situações mais assustadoras que passei na minha vida.

O Neosoro é um vasoconstritor, um remédio que comprime os vasos pra aumentar a pressão sanguínea em uma região. A carne esponjosa que incha e atrapalha a respiração é largamente irrigada por vasos, ou seja, o remédio contrai esses vasos e faz a carne diminuir de tamanho. O remédio causa uma constrição nos vasos sangüíneos do nariz, o que diminui o inchaco daquela carne esponjosa. O problema e que o gênio aqui usou dois remédios diferentes com o mesmo efeito.

O resultado foi mais ou menos como se alguém implantasse uma broca dentro do seu cérebro e a acionasse de dentro pra fora. Uma pressão absurda na parte de cima da cabeça, uma dor aguda que persistiu por bons e longos minutos. Meu vicio engraçadinho quase me causou um AVC.

Eu estaria escrevendo com a testa numa hora dessa.

Aí vi que era hora de parar. Respirar pouco é melhor que não respirar. Procurei tratamento e o coloquei em prática, e tem funcionado muito bem. Pela primeira vez em seis anos, posso respirar normalmente sem necessitar do desgraçado do Neosoro.

Já se passou um mês desde o “dia D” e não houve uma reincidência sequer. Posso dizer que estou livre dessa maldição. Apalpar o bolso direito e perceber que não preciso mais andar com aquela bisnaga maldita no bolso pra todo lugar é um alívio sem tamanho.

Tá certo que o formato cilíndrico dela às vezes causava um certo volume em minhas causas, que uma ou outra vez pode ter sido confundido com um formato avantajado de meus órgãos genitais, atraindo olhares curiosos de outras pessoas (não apenas mulheres, infelizmente).

Sentirei falta desses olhares. Paciência. Não se pode ter tudo.

Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

72 comentários em “Relato de um ex-viciado”

  1. tentei muito responder o comentario do Mac Oliveira, mas não sei oq houve que não vai, entao quero deixar meu comentario aq: Acho o cumulo quem vem comentar asneira sem saber, tem que se fu der msm ????? poupe-me. Fui ao medico, pois estava impossivel conseguir respirar, e … MEU MEDICO ME DEU PRESCRIÇÃO PARA USAR O NARIDRIN, QUE TAMBÉM VICIA, NÃO ME AUTO MEDIQUEI, CONSULTEI E ELE ME RECEITOU, só fiquei sabendo que vicia depois de muito tempo quando resolvi pesquisar mais sobre o remédio!!! Gente que comenta e se acha demais é uma praga no Brasil.

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  2. Cara, você descreveu exatamente a maldito situação que vivo hoje. Faz 4 anos que uso o maldito Naridrin e só agora comecei a pesquisar a respeito. Se fico 2 hora sem usar é muito. Meu nariz bloqueia totalmente e fico em desespero. E quando não tem, pareço aqueles viciados em crack. Tenho minhas reservas de naridrin e ando sempre com um no bolso. Agora, já estou até pensando em cirurgia pra remover, pelo menos parcialmente, a "carne esponjosa". Mas antes disso, vou buscar primeiro um tratamento mais suave. Se não de certo, vai ser cirurgia mesmo….

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  3. Olá a todos. Vou deixar meu relato aqui e é importante que todos vocês leiam. Tenho 40 anos e desde os 12 anos eu uso descongestionante nasal, como vou explicar a seguir. Vale lembrar que todos os outros remédios não funcionavam, nem rinosoro, nem neosono, absolutamente nada. E justamente era como todos falaram anteriormente, sobre a sensação maravilhosa de poder respirar e como você fica desimpedido de sentir cheios. O primeiro remédio receitado para mim, foi por um médico pediatra. O nome do descongestionante era Aturgyl, que naquela época tinha como composto ativo o Cloridrato de Fenoxazolina (1mg/ml em frasco de 10ml), que inclusive foi proibido a sua fabricação e comercialização devido aos problemas cardíacos que ele causava à longo prazo em estudo feito pelo FDA americano. Desde esse estudo, o fabricante passou a usar o Cloridrato de Oximetzolina. Quando houve a mudança do composto e esse novo Aturgyl chegou às farmácias, ele simplesmente não desentupia o nariz de jeito nenhum, somente se pingasse umas dez gotas em cada narina e não durava muito. Eu não vencia de comprar esse remédio, eram 4 frascos por semana, sem efeito algum. Depois de mais ou menos 1 mês nesse via sacra, fiquei sabendo do Nasofelin por um farmacêutico, que ele tinha o mesmo composto ativo, o Cloridrato de Fenoxazolina com a mesma dosagem (1mg/ml em frasco de 10ml). Como todos podem adivinhar, a sensação de bem estar voltou desde que pinguei a primeira gota. Foi uma maravilha. Então, fazendo as contas, usei Aturgyl desde os 12 anos, mais ou menos até os 25 anos. Dos 25 até os 34 anos, continuei a utilizar o Nasofelin. Depois, conheci o Naridrin 12 horas também por um farmacêutico, porque o meu frasco de Nasofelin tinha acabado e pra ajudar estava em outra cidade, e pra ajudar em um Domingo aonde tudo fecha. Desesperado e rodei a cidade inteira, sorte que estava em São Paulo, e encontrei uma farmácia aberta. Desde então, desde os 34 uso Naridrin 12 horas. Façam as contas, são 28 anos usando esse tipo de remédio e lhes digo que meu coração pagou um preço muito alto. Atualmente estou com uma hipertensão bem alta (15 por 10) e frequência cardíaca acima do normal. Ocorre que isso deu uma espécie de problema na válvula mitral e estou fazendo tratamento cardíaco por causa do meu vício. Para ajudar, a pressão do meu olho tambem aumentou e o médico oftalmologista disse que é provável que eu tenha glaucoma, isso mesmo, você não leu errado. Por isso eu peço, aliás, faço um apelo para quem usa esse veneno, PARE ENQUANTO É TEMPO. Senão, além de tudo isso, você ainda pode ter um AVC ou ter morte súbita. TENHA CONSCIÊNCIA DISSO. Lembro que você que dirige, não vai mais enxergar bem por causa da oscilação dessa pressão e por ser um risco para você e para as outras pessoas, o médico não vai liberar a sua carta. PENSE NISSO. Se você quiser morrer antes dos 50, utilizar vaso-constritores é uma opção. LARGUE DESSE VÍCIO AGORA!
    Desejo sorte aos que tentarem. Façam o impossível. E procurem um otorrinolaringologista o mais rápido possível, assim como um cardiologista e falem TUDO sobre esse vício. NÃO ESCONDAM NADA. Abraços.

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    1. Passei o mesmo mas com o terrível remédio chamado Aturgyl.. Mesmo sintomas e desesperos só mudando de nome… No meu caso o tratamento que deu certo pra mim foi trocar o remédio de gotas para se pingar nas narinas por remédios ministrados por via oral.. Aliás apenas um pra ser honesto… Fui repreendido pelo médico e proibido veementemente de pigar qualquer coisa no nariz daquele dia em diante… Infelizmente não me recordo do nome do remédio que tomei… Tomei porque para me livrar da desesperadora sensação de estar com uma caixa d’água dentro da testa, quando paramos de usar este tipo de remédio, somente torcando por outro… ao inves de pingar passei a tomar … foi demorado … um mês mais ou menos…. mas me livrei do maldito Aturgyl…

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  4. É assim mesmo, eu cheguei a usar dois frascos por semana. Ele piorou a arritmia que eu já tinha e o meu coração numa noite chegou a bater 230 batimentos por minuto durante duas horas (o meu coração quase explodiu). Decidi que ia parar de usar, meu marido escondeu o remédio e eu ficava igual uma louca procurando, crise de abstinência. Fiz uma ablação para corrigir a arritmia cardíaca e parei de usar o Neosoro definitivamente.
    Graças a Deus correu tudo bem e estou um ano e meio sem usar essa droga.

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  5. Nossa ,pensava que era so eu.
    Sou viciada em neosoro tenho tipo 10 frascos um em cda lugar, acordo 3 vezes a noite para usar e horrivel mas lendo essed depoimentos vou tentar parar , mesmo pq engordei 7 quilos acho que essa droga ,mas ficar entupida e desesperador.Mas vou consiguir

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  6. Passei o mesmo mas com o terrível remédio chamado Aturgyl.. Mesmo sintomas e desesperos só mudando de nome… No meu caso o tratamento que deu certo pra mim foi trocar o remédio de gotas para se pingar nas narinas por remédios ministrados por via oral.. Aliás apenas um pra ser honesto… Fui repreendido pelo médico e proibido veementemente de pigar qualquer coisa no nariz daquele dia em diante… Infelizmente não me recordo do nome do remédio que tomei… Tomei porque para me livrar da desesperadora sensação de estar com uma caixa d'água dentro da testa, quando paramos de usar este tipo de remédio, somente torcando por outro… ao inves de pingar passei a tomar … foi demorado … um mês mais ou menos…. mas me livrei do maldito Aturgyl…

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  7. Viciou porque é besta e fraco. Uso o naridrin, mas somente em último caso. Quando estou com gripe é fatal, mas nos outros meses do ano nem lembro dele. Fumei meu primeiro cigarro com 12 anos, e me pergunte: você ainda fuma? Não, sabe porque? Sei quando devo parar e me controlo para não me arrepender num futuro. Já usei até mesmo drogas pesadas, mas em um belo dia, decidi que não queria mais, e isso já se passaram 5 anos. Povo mais besta é aquele que fica se chamando de 'viciado' pq usa remédio de nariz. Tem que se tratar, mas não por causa disso, mas por variar da idéias.

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  8. O melhor é essa gente ESCROTA, RIDÍCULA que diz " bem, feito, tem q se fuder mesmo. Fraco!. Besta!" Olha, vão à merda vcs com essas opiniões. Qualquer vício é muito sério. Não se trata da pessoa ser "fraca" e não conseguir parar. O corpo não deixa vc parar. Só quem passa é que sabe. Ninguém começa a usar neosoro pra dar onda não, minha gente! A pessoa usa qd tem problemas pra respirar e não sabe mais os fazer!!!!
    Para os haters de plantão: pensem antes de falar marda por aí.

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  9. pois é, infelizmente a biologia humana, por ser também quimica, também tende a se viciar em coisas quimicas e quando isso acontece não é facíl simplesmente parar… Seja pra qualqur coisa, "dragas, remédios, pornografia, sexo etc."

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  10. Eu, uso o Neosoro desde o ano de 2010 creio eu… Depois que saiu a noticia do H1N1 nesse dia me ataco dor de ouvido, nariz trancado e febre. E, gasto R$ 6,00 em cada três dias por semana… Não vivo sem o Neosoro, não durmo e não respiro sem ele, tenho vergonha de usar mas o meu único jeito é usar essa merda… Por favor, se alguém conseguiu parar de usar, me dêem dicas por favor. Obrigada!!

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  11. Tu sabe que existe um fator genético ligado à dependência química né?
    Se teu corpo não sofre tanto com abstinência, sorte sua cara. Mas não ache que todos sentem o mesmo que você. Tem gente que decide parar com heroína e para, tem gente que morre com a abstinência, sim morrer de verdade.
    Não julgue os outros com base em você.

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