Sobre ursos polares voadores, impressoras 3D e as cabeças de pedra na Ilha de Páscoa

O mau uso de coisas boas é consequência de sua existência. Carros matam. Suplementos vitamínicos causam câncer. Água em excesso é mais perigoso que desidratação. Anúncios de cigarro avisam que fumar faz mal.

Existe aquele velho clichê de que tudo na vida tem um lado ruim. Não demora muito até que alguém use uma tecnologia espetacular pra fazer algo realmente estúpido que vai foder a sua vida cedo ou tarde. Já não me surpreende o homem pegar algo muito bom e fazer mau uso disso. A própria internet é o maior exemplo dessa atitude infeliz.

Todo santo dia, quando abro meu e-mail pela manhã, me sinto num campo minado no interior da Argélia – qualquer link que eu abrir sem pensar profundamente a respeito pode causar danos consideráveis ao meu computador, meus dados pessoais ou à minha conta bancária.

Quer fazer um download? Boa sorte! Os sites de hospedagem hoje em dia estão tão cheios de botões de “download aqui” que é preciso uma equipe de detetives particulares pra descobrir qual o link verdadeiro. Clicou no link errado? Você acaba de instalar treze toolbars diferentes no seu navegador, mais dois anti-virus e um sistema de busca que você nunca vai conseguir desinstalar na sua vida.

askcomAí chegaram as impressoras 3D. Ainda estou modelando minha impressão (trocadilhos são permitidos) a respeito das impressoras 3D.

Podemos dizer que a popularização dessas impressoras vai ter o mesmo efeito no mundo que a aplicação em massa do cloro na água potável teve no início do século XX. Naquela época, a população urbana do mundo todo enfrentava problemas de saneamento básico decorrentes da contaminação da água potável, como leptospirose e cólera. Depois do cloro, houve um decréscimo exponencial na incidência dessas doenças.

Isso foi, literalmente, um divisor de águas na história das metrópoles. Embora as cidades já estivessem crescendo, essa reviravolta na condição das águas de abastecimento permitiu que as cidades voltassem a crescer – dessa vez, com uma população saudável. O cloro e a penicilina são denominados como as maiores medidas de saúde pública de todos os tempos.

As impressoras 3D têm todo o potencial de se tornar tão grandes quanto.

Não tem como quantificar a quantidade de benefícios que podem sair disso. A impressoras 3D tornarão possível não só a impressão em casa daquela escultura burusera de boneco de hentai, como também realizar a impressão de réplicas de ossos e próteses para aplicação em cirurgias de reconstrução. Isso vai muito além de ser espetacular, é um dos maiores avanços na história da humanidade.

Com o passar do tempo, não vai ser difícil imaginar que elas sejam capazes de imprimir estruturas cada vez menores – nanométricas, até – com a precisão do computador. Imagine um robô “impresso” em laboratório, programado para detectar placas de gordura nas paredes das artérias. Depois de implantado na corrente sanguínea, ele simplesmente previne problemas no coração.

Já que estamos viajando, porquê não imaginar membros inteiros projetados pelo computador? Com os avanços da robótica e automação, não é difícil imaginar que seja possível construir membros articulados que captem a corrente elétrica do cérebro e traduza em movimento – coisa que já é feita hoje em dia, mas com uma precisão muito maior?

Quer mais? Imagine que o homem decida voltar a explorar o espaço. Não seria preciso levar toneladas de ferramentas – elas podem ser feitas em órbita!

MAS NÃO, A GENTE PEGA ESSA PORRA E FAZ O QUE COM ELA? 

AFINAL, O QUE PODE DAR ERRADO?!
AFINAL, O QUE PODE DAR ERRADO?!

Não é notícia de hoje, mas já estão circulando na interwebs vários projetos de armas de fogo que usam munição de verdade – cujo dano é comparável ao de uma arma de fogo comum.

— Até aí tudo bem, afinal a impressora 3D ainda é bem cara e não está ao alcance de todos!!!

Realmente, uma impressora 3D é cara e sua resina é tão cara quanto. Não é qualquer zé que vai ter uma dessas em casa pra imprimir suas pirocas de plástico. Mas a gente tá cansado de saber que tem gente no mundo que não tá nem aí pro benefício que algo traz, desde que toque o terror em muita gente.

-- it's about sending a message.
— it’s about sending a message.

Eu fico pensando no que pensou o primeiro cara a desenvolver um protótipo dessas armas em casa.

— Finalmente chegou a minha impressora 3D! O que eu vou fazer agora? Uma escultura? Um braço direito pro meu Falcon que caiu lá em 1983 e eu nunca comprei um novo? NÃO, JÁ SEI, VOU FAZER UMA ARMA DE FOGO COMPLETAMENTE FUNCIONAL E VOU TORNAR O PROJETO PÚBLICO PRA QUE TODO MUNDO POSSA TER UMA TAMBÉM.

Essas armas são indetectáveis. É humanamente impossível evitar sua circulação pela internet, e praticamente tão difícil quanto impedir que civis carreguem essas armas nos bolsos ou nas malas. Os detectores de metal não conseguem captar sua presença – porque, dã, não são feitas de metal.

Isso é um perigo muito, muito sério. Os ataques em Boston, no mês passado, foram feitos com pregos, rolamentos, explosivos e panelas de pressão. Coisa que qualquer criança guarda embaixo da cama. Imagina o estrago que um grupo terrorista pode fazer com essas armas de plástico em um voo comercial?

O homem deve ser o único ser vivo que se empenha em construir formas de se destruir. Quanto mais avançada é uma tecnologia, mais ainda se esforçam os que pretendem subvertê-la. Me chame de pessimista, mas eu acho que a galera do mal tá mais criativa que a galera do bem.

É bom que o apocalipse chegue rápido, senão viveremos o suficiente pra vermos algum cientista brilhante descobrir como fazer AIDS ser transmitida por mosquitos.

Ou fazer ursos polares que voam.

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Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

3 comentários em “Sobre ursos polares voadores, impressoras 3D e as cabeças de pedra na Ilha de Páscoa”

  1. É complicado, basicamente TUDO por melhor que seja pode ser usado para ferir seja por uso em excesso ou qualquer outra forma pela fragilidade natural do nosso corpo. O contrário já não ocorre, você não pode curar alguém com um tiro. A única maneira de evitar que algo seja usado contra alguém seria educar a população pra que não seja necessário o uso danoso do objeto, mas estamos longe disso.

    Resumo: Fim do mundo e revolução das máquinas.

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