Sobre o canto do cisne e as Cabeças de Pedra na Ilha de Páscoa

Essa é a hora em que eu peço pra que você pare exatamente tudo o que está fazendo. Cancele os downloads, desligue a televisão. Pause aquele pornô alemão envolvendo mulheres que já foram bonitas uns vinte anos atrás jogando graxa industrial umas nas outras e lambendo.

Pare e preste atenção no que eu vou dizer. Essa vai ser uma longa história.

Segundo pesquisas desenvolvidas pelos cientistas da Faculdade Odair Deodato Abreu, do Sergipe (FODA-SE), os cientistas não estão desenvolvendo nenhuma pesquisa no momento. Foram precisos dez anos e quinze milhões de dólares de investimento para descobrir que todos eles passam suas tardes vendo memes e compartilhando promoções de Facebook.

Já segundo o INPI, Instituto Nacional de Pesquisas Incompletas, 50% do público entrevistado disse que. Já 23% confirma que. Apenas 12% não. São dados bastante conclusivos.

Sabe, eu costumava abrir meus textos de forma teatral e exagerada. Demorava três parágrafos pra começar a falar de algo específico. Eu me divertia mais cunhando esses três parágrafos do que fazendo o resto do texto.

Inícios são complicados. É falado mundo afora que o primeiro passo é o mais importante. Eu digo que não é. Pra mim, o segundo passo é muito mais importante que o primeiro. Se começar é difícil, continuar algo é a mais nobre das artes.

Foi difícil começar o OJ. Aos 14 anos, auge da minha babaquice, tive um blog onde escrevia besteira e postava fotos. Eu me dizia grunge, me vestia como um bóia fria e era revoltado com a vida (se é que um adolescente de classe média-baixa pode ser revoltado com alguma coisa na vida). Aquele blog não durou.

Aos 14 anos, fui jogado em um mundo completamente diferente do meu. Saí de um lugar onde eu me sentia estranho por ser diferente e fui jogado num lugar onde eu me sentia estranho por ser parecido com os demais. Por falta de referências pessoais, criei uma personalidade (muito babaca, não canso de falar) pra conseguir sobreviver. O Raphael de 14 anos odiava tudo. O Raphael de 14 anos durou uns 5 anos.

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Precisa dizer alguma coisa?

Conheci o Faz Sentido e o Hoje é um bom dia. Comecei a idolatrar os caras, o que me encorajou a começar a fazer textos de verdade. Em 2005, comecei a escrever no Loompas, blog colaborativo que já não existe. Meu primeiro texto foi “Países idiotas: Dinamarca”. Era surpreendentemente bom.

Então chegou o OJ. Em 27 de Outubro de 2005, criei o OJ pra lidar com esse “demônio interior”, pra botar pra fora as coisas que nunca tive espaço pra dizer nas rodinhas que frequentava. Por muito tempo, o OJ foi só um blog “de humor”, mas o foco foi mudando.

A “zoeira” – como eu detesto escrever essa palavra hoje em dia – dos posts deu lugar à indignação. Escândalos nacionais, assassinatos de repercussão e praticamente tudo o que aparecia na mídia virava texto em questão de minutos. Depois horas, depois dias. Isso tem um motivo.

Escrever um texto pro OJ é extremamente complicado. Eu não tenho dificuldades em escrever, na verdade é bem natural pra mim. Não perco tempo corrigindo, não fico me dando tempo para vaidades ou pra procurar sinônimos melhores pra embelezar o texto.

Mas, de longe, a pior parte é começar. Pra escrever essas coisas, eu preciso ficar num estado… diferente. Eu fico focado, adquiro uma espécie de “tunnel vision”, parece que fico desligado do mundo. A parte realmente ruim é que eu fico muito, muito nervoso. Esse nervosismo tem um preço.

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Com o passar dos anos, fui escrevendo menos porque eu sei como é extremamente cansativo. Eu sinto essa tensão se espalhando pelo corpo – as costas doem, os olhos ficam ressecados por piscar menos. A cabeça fica pesada, cansada. Eu fico irritadiço. Aliás, é incrível ver como uma repentina mudança de humor tem efeitos físicos tão notáveis em mim.

Esse é o primeiro (e menor dos) motivos que me faz escrever menos pro blog.

O grande motivo é porque… bom, eu mudei. Não digo que cresci, mas mudei. Não sou mais aquele cara que odeia o mundo, que tem mil coisas a reclamar do menor dos problemas.

A raça mais desgraçada da internet hoje em dia são os haters – aqueles caras que odeiam tudo e passam o dia inteiro tretando em redes sociais ou criticando cegamente trabalho alheio. Olhando pra trás, e vejo que eu era assim. Esse blog já foi assim. O Odeio e Justifico era, na realidade, um antro de ódio cego a mil coisas que eu não fazia ideia do que eram.

Talvez o primeiro grande texto de repercussão no blog foi o do Kurt Cobain, onde eu escrevi uma sequência de pontos válidos mas pouquíssimo embasados sobre uma das figuras mais importantes do rock nos últimos vinte anos. Hoje eu me sinto um IMBECIL por ter falado mal do cara.

Ainda na música, falei mal do Cazuza. Isso me custou caro, afinal uma amiga leu o texto e ficou extremamente chateada comigo. Foi a primeira vez que algo que fiz aqui impactou minha vida pessoal – e foi ali que eu comecei a assinar como Raphs, não mais como Raphael. Eu precisei criar um personagem pra me justificar, e desde então é esse personagem que escreve aqui.

Mas todo mundo se cansa de viver o mesmo personagem.

Outro texto que me trouxe problemas pessoais foi a Crônica do Cascão, que ironicamente é um dos textos que mais gosto no OJ. O texto serviu de catalisador em meio a uma confusão de sentimentos, mentiras, coisas e pessoas que sobressaíram o pessoal e abalaram até minha vida acadêmica e o profissional. Mesmo assim sinto orgulho de ter escrito aquilo até hoje – mais ainda de saber que muita gente se identificou.

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O melhor amigo que se pode ter, desde 2010

Eu sempre soube que eu tinha uma arma poderosa nas mãos: a palavra. Ter esse poder em mãos me fez ser ainda mais cauteloso com o blog. Não à toa, a Crônica do Cascão foi o último texto com contexto tão íntimo que escrevi.

***

Com toda a modéstia do mundo, existiram alguns textos geniais por aqui também. Os Blackstreet Boys, os Animais mais Perigosos do mundo, o texto sobre as Cigarras… Mais recentemente, o Como tirar fotos de churrasco também foi muito legal. Além de, claro, meu favorito, o post do Celso Portiolli – que me trouxe uma treta com a Desciclopédia. Acreditem, vocês não querem lidar com o povo da Desciclopédia.

***

Hoje penso que não se pode confiar em quem sorri ou reclama o tempo todo. Ninguém é feliz vinte e quatro horas por dia, e ninguém tem a vida tão desgraçada que precisa reclamar dela a cada minuto. Quem convive comigo sabe que eu reclamo sim, e muito, mas sempre de forma a fazer piada, provocando um sorriso de canto de boca em alguém.

Que convive comigo sabe da minha necessidade patológica de fazer piada com praticamente tudo. Sabe que eu sou especialista em fazer humor de mim mesmo. Eu sou o principal responsável pela má publicidade feita a meu respeito.

Não tenho mais interesse em fazer justiça na internet. Não tenho mais saco pra lidar com “movimentos sociais” ou pra quem tenta cagar regra na internet, principalmente gente que julga o que você PENSA como certo ou errado.

Nas últimas duas semanas, tivemos aquele maluco que levou tiro por roubar a Hornet do cara, as manifestações contra o pré-sal, o roubo dos beagles e outras tretas nacionais – coisa que geralmente viria parar aqui na hora – e eu não tive o menor tesão de começar a escrever. Justamente por saber o que se seguiria: um monte de gente discordando do que eu penso ou do que escrevi.

Eu simplesmente não tenho mais saúde, saco ou paciência pra lidar com aquela galera que vai contra o que tu fala por esporte. Ou que faz isso só pra te irritar.  Também tem aquela galera que ataca tudo o que tu gosta, só pela “zoeira sem limites”.

Por exemplo, quando pensei em escrever esse texto, pensei em chamá-lo apenas de “O Canto do Cisne”.

Pra quem caiu do bercinho quando era criança, eu explico. Existia uma crença de que o cisne branco fosse completamente mudo durante toda vida, mas que é capaz de cantar a mais bela das canções antes de morrer.

Se eu falasse sobre isso, logo apareceria um idiota carregando mil argumentos internéticos dos três primeiros sites do Google dizendo “cara como você é burro, nada a ver isso aí, já foi provado que eles cantam bla bla bla a zoeira não pode parar”. Pouco se fodendo pra licenças poéticas, o cara quer ser o campeão da internet e se sente por me provar errado.

Hoje eu sei que se eu postar que eu gosto de fazer sexo com cadeiras, haverão pessoas me provando com toda a ciência que a internet é capaz de fornecer, que eu estou errado em fazer isso.

Eu aceito estar errado, aliás adoro estar errado porque sempre inspira discussões interessantes – quando a pessoa consegue ser construtiva. Nessa “Era da Zoeira” que a gente vive, é praticamente impossível ser construtivo na internet.

Hoje o OJ faz 8 anos e eu continuo odiando muita coisa. Brigadeiro, lasanha, carro de som. O problema é que eu cansei de justificar isso. Eu não tenho mais tempo, saúde ou paixão pra falar do que odeio.

Durante os oito anos do OJ, muita gente perguntou o que eu mais odiava, ou porque eu não escrevia mais frequentemente. Nunca ninguém me perguntou “ei cara, o que tu realmente gosta?”. Isso começou a incomodar. Eu tô aqui a oito anos e praticamente ninguém me conhece.

Meu nome é Raphael, tenho 24 anos e moro no interior de São Paulo.

Sou estudante do quarto ano de Engenharia Química, me formo no próximo ano. Assim que me formar, pretendo fazer Mestrado pra lecionar na faculdade em que estudo hoje, algo como um sonho de infância. Sou apaixonado por todas as ciências, mas tento me manter mais aberto às artes.

Passo meu tempo vendo séries – sou pós doutorado em How I Met Your Mother e Breaking Bad – e jogando videogames. Adoro jogos de corrida e sou doido por Pokémon até hoje. Gosto de Ficção Científica – meu livro favorito é 2010: O ano em que fizemos contato, de Arthur Clarke. Gosto de HQ mas não tenho tempo pra acompanhar. Também não sou muito ligado em cinema – gosto mais da experiência de ir ver o filme do que a arte em si. Meu filme favorito é Into the Wild (Na Natureza Selvagem).

Minha vida é movida a música. Toco violão e arranho guitarra. Sou APAIXONADO por bandas cover, um dia escrevo mais sobre isso. Praticamente só escuto Engenheiros do Hawaii e Pearl Jam. Gostaria de ter falado mais sobre os dois aqui.

Algumas coisas aconteceram em minha vida que me forçaram a dar o próximo passo. Dizem que nenhum fantasma fica em paz enquanto não seguir em frente. Essas coisas, esses fantasmas, me prenderam no mesmo lugar por tempo suficiente pra me isolar do mundo. Não vejo o OJ como parte dessa carga negativa, mas acho que já era hora de tocar adiante.

Eu vou continuar a escrever, mas em outro lugar e de outra forma.

Só sei que, hoje, eu cansei de odiar.

Hoje, quero gastar meu curto tempo falando sobre as coisas que amo.

Começar o OJ foi o primeiro passo. Esse é o segundo.

Esse é meu canto do cisne.

Obrigado pelo carinho, leitor.

Obrigado por tudo, OJ.

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Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

12 comentários em “Sobre o canto do cisne e as Cabeças de Pedra na Ilha de Páscoa”

  1. Cara, falando sério agora. Esse texto é estranho pra mim, em um nivel pessoal.

    No final de 2006, o pequeno Ricardo ganhou acesso a internet. Nesse meio tempo, conheceu o tão querido odeio e jus…ATO OU EFEITO.

    Com toda aquela maluquice de AOE blog's, conheci de uma vez, o grande abobora, que diabos (o luke é uma bicha) e o odeio e justifico. Caras sensacionais que acompanho até hoje.

    Naquela época, era como se eu, o carinha sem turma, odiasse tudo aquilo que me rodeava. Odiava os grupinhos felizes. Odiava mais bandas do que gostava. Odiava aqueles ao meu redor.

    Com os textos de vocês, me sentia feliz por ver pessoas como eu. Tirava argumentos, me divertia, conhecia coisas novas.

    Mas tempo passou.

    Hoje em dia fujo de uma discussão. Vejo todo aquele processo se repetindo a cada "polêmica". E como vai ser inutil conversar com a grande maioria das pessoas. Acabei fugindo dessa parte "hater" de mim mesmo. Acho que entendo seus motivos.

    Faz tempo que não entro aqui, e por algum motivo cliquei no seu link do twitter. Fui jogado em um retrrospectiva internética. Lembro das risadas que dei ao ler o texto do celso imortal (teoria que divulgo até hoje), de como fiquei triste com o fim do AOE e de como chinguei o luke por terminar o blog 92 vezes.

    Acredito que é a primeira vez que comento aqui. Nunca me sinto compelido a comentar, pelos mesmos sintomas que você tem ao escrever. É um processo complexo pra mim.

    Mas então. Agradeço pelo tempo dedicaddo a isso aqui. Espero que continue escrevendo. So quis que soubesse, que mesmo sem querer, que blogs como o seu fazem parte da vida de várias pessoas (da forma menos homossexual possivel, é claro). Tenho cerrteza que não falo só por mim.

    Valeu Raphs

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  2. Meio deprê saber que meu primeiro comentário será no último post, mas enfim, boa sorte com essa nova empreitada na vida, cara. Eu não sou seu leitor mais antigo (acho que comecei a ler há uns dois anos), mas o OJ significa muito pra mim, vindo de um blog com um texto sobre cigarras e suas preferências sexuais inusitadas. Abraço aí, mulék.

    P.S: Li o texto ao som de “Baby Blue” para um efeito dramático adicional.

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  3. Ainda esse ano, eu havia mandado um e-mail pra ti, dizendo como fiquei feliz em saber que o OJ ainda estava vivo. E não tem mais nada negro amor (Breaking Bad+Engenheiros)…

    Fico triste com esta notícia. Depois do falecimento do AoE, OJ também foi pro saco. E tu nem se prestou pra explicar a piada sobre as Cabeças de Pedra na Ilha de Páscoa.

    Enfim, Raphael. SejE feliz, odiando ou não as coisas. Mas, se odiar, escreve aí =D

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  4. Raphs, de uma coisa tu pode se orgulhar: O objetivo foi fazer humor e foi cumprido.

    Sou do Paraná, acompanhei o OJ desde 2007 se não me engano e acredite se quiser, mas aprendi muita coisa com o OJ.

    Toda a dose de auto-ironia e sarcasmo que você injetava nos textos me ajudaram a compreender certas coisas dentro do meu mundinho fechado, e aprendi a rir das minhas tragédias pessoais, que no fim das contas não eram tão trágicas assim, já que não era apenas eu que odiava tal banda, não era apenas eu que me incomodava com as cigarras metaleiras de cada dia, não era apenas eu que era um babaca na adolescência e me vestia como um Boia Fria.

    Me identificava demais com os textos. Quando terminava de ler algo, pensava comigo mesmo: ''Puts, mas isso era o que eu queria um dia ter escrito na minha vida.''

    Acho que o ''personagem'' Raphs não foi apenas um Alter-ego seu, mas o meu também e sem duvida de vários outros leitores.Já fui tão ou mais polêmico como você, mas o tempo passa mesmo, hoje fujo de situações (ainda bem) que meu antigo ''eu'' nos tempos ''áureos' não fugiria…como você disse, não tenho mais saúde…

    E acho que posso creditar ao OJ eu finalmente ter percebido ao longo dos anos de leitura que rir de certas situações da vida ou tratar com ironia é mais saudável (e mais divertido) do que simplesmente guardar ódio gratuito.

    Pois é cara, discurso meio emocionado, mas acho que posso dizer que sou um dos teus fãs.

    Valeu por tudo

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  5. Eu sou uma das pessoas que discordou várias vezes de alguns dos seus textos, sabe, eu acho que o contraponto, às vezes, deixa as coisas interessantes, lamento se em algum momento isto te encheu o saco, mas é minha maneira de ser, que é uma maneira de ser.

    Apesar de lamentar a possibilidade de ter te enchido o saco, tenho que me arriscar a te encher o saco de novo dizendo, discordo da sua metáfora, este não é seu canto do cisne, você tem cantado varavilhosamente através dos seus textos já tem um bom tempo, te digo, li vários dos seus textos tentando apreder como me expressar igual a você, pessoa cuja escrita, cuja forma de odiar é excepcional!!

    Gostaria de lembrar a todos quem nós somos, os “Somos aqueles revolucionários de sofá que reclamam dos revolucionários de sofá. Somos os haters que odeiam os haters”.

    Acho realmente uma pena que você tenha decidido encerrar um dos meus blogs favoritos, você é realmente muito bom, tenho que dizer que, ao ler seu texto, fiquei imaginando que você virou evangélico e que vai abrir o “Adoro e glorifico” 🙂

    Passe bem mano, espero ler textos seus por aí!!

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