Sobre mendigos, iogurte e as cabeças de pedra na Ilha de Páscoa

Nos últimos dias, um fenômeno curioso tem ocorrido nos arredores da minha residência. De um dia para o outro, a quantidade de gente pedindo dinheiro ou comida na minha casa aumentou significativamente. Em dias comuns é um por dia, no mínimo. Ultimamente, tem sido três ou quatro pessoas pedindo “um trocado pra viajar pra uma cidade próxima” todos os dias.

Eu sempre dou. Eu já perdi a conta do número de adesivos O SENHOR É MEU PASTOR que comprei nos últimos meses, ou de adesivos com aquela formiga idiota que é mascote dos evangélicos, ou de adesivos brilhantes de cachorrinhos. É tanto adesivo que vai faltar janela pra colar tudo. Muitos deles vão parar no lixo. Os outros ficam jogados no meu carro por semanas, até eu me lembrar de jogá-los no lixo também.

Tem que ter muita força de vontade pra não sair colando nos carros dos outros.
Tem que ter muita força de vontade pra não sair colando nos carros dos outros.

Quando o pessoal pede comida lá em casa, eu sou solidário. Precisa se estar em uma situação muito cruel pra pedir comida em casa de desconhecidos. Vai saber o que nego andou colocando naqueles lanches. O que impede alguém de colocar laxante na comida dos caras? Se bem que laxante não vai ser problema: se eles mal comem, não vão ter o que cagar também. Eu ficaria mais feliz de comer uma feijoada com laxante do que comer aquela droga de sanduíche de iogurte que um gordinho me deu na quarta série.

Nunca contei essa história? Bom, vamos lá.

É difícil não se sentir o maioral quando, numa escola que ia até a quarta série, você estivesse na quarta série. É como ser o formando do seu curso na faculdade: você se sente como se todos tivessem a obrigação de te receber com trombetas e carpetes vermelhos em todo lugar que entra. Mesmo sabendo que a vida não é assim, gosto de pensar que um dia foi.

Na quarta série, eu escrocava (do verbo das ruas “escrocar“, se aproveitar de algo que não é seu apenas pelo prazer de ser um cusão) lanche de um gordinho da segunda série. Eu não conhecia o cara, não fazia a menor idéia de como isso começou. Eu simplesmente cheguei e pedi um pedaço de algo num dia. No outro, fiz o mesmo. Daí nasceu uma profunda e bela amizade fundamentada exclusivamente na qualidade do alimento que ele podia me fornecer naquele dia.

Na segunda, salgadinho do Cascão. Na terça, um lanche de atum. Na quarta, uns biscoitos recheados. Na quinta, o jogo virou. Cansado da ingratidão do veterano e do consecutivo abuso do seu espaço pessoal, sem falar do pedaço ridiculamente grande que ele perdia do próprio lanche, IGOR resolveu revidar.

Nada de lanches deliciosos, frutas fresquinhas ou alimentos industrializados com níveis de açúcar suficientes pra tornar menos amarga a vida daquele seu tio que mora na floresta culpando o governo por tudo. Não, naquela quinta IGOR preparou algo diferente pra mim. Algo que me faria parar com a escrocagem pra sempre.

Naquela quinta-feira, pedi um pedaço do lanche a IGOR. Ele, já saboreando o doce néctar da vitória de forma passivo-agressiva, não hesitou e já tirou um sanduíche a mais da lancheira. Não perguntei o que era. Como um leão abocanhando o pescoço de uma zebra na savana africana, mordi aquele sanduíche sem dó. Doce, doce arrependimento.

IGOR realizou a vingança mais maquiavélica que já vi na minha vida. Ao sentir o sabor peculiar do sanduíche oferecido, eu o questionei.

— Que porra é essa?
— Pão com iogurte.

Pão com iogurte. A raça humana demorou cem mil anos pra descer das árvores e criar coisas como a internet, o ônibus espacial e a torradeira elétrica (nessa ordem crescente de importância). Nos asseguramos no topo da cadeia alimentar, mesmo sendo mais fracos, menores e infinitamente menos inteligentes que os macacos.

Se colocássemos numa sala Hitler, todos os vilões dos filmes de James Bond e todos os inimigos do Chapolin, tenho absoluta certeza de que sequer seria mencionada a ideia de colocar iogurte entre dois pães de forma. Teríamos máquinas capazes de destruir todo o Universo, mas jamais algo tão… simples. Tão elegante. Tão eficaz. Eu não terminei de comer aquele lanche. Também não voltei no outro dia. Naquela quinta, IGOR havia me derrotado quase sem esforço.

De quebra, IGOR ainda me deu uma lição de humildade: se a vida anda te batendo na cara sem motivo, coloque iogurte no pão de forma e ofereça a ela. Imagina quantos conflitos mundiais seriam evitados se houvesse mais iogurte em mais pão de forma.

***

Há duas explicações para acontecimentos que se repetem por dias: ou há algo muito organizado por trás, ou algo muito caótico. OK, talvez o fato de morar a alguns quarteirões da rodoviária intermunicipal da cidade tenha uma relativa contribuição a esse número de gente pedindo dinheiro. Mas entre esta rodoviária e minha casa existem outras dezenas de casas. Porque só a minha?

Desconfio de que há algo organizado por trás. Precisa ter, é assim que as coisas funcionam. Pensando muito a respeito, acho que comecei a desvendar a verdade por trás disso. Existe apenas uma resposta:

Existe alguma espécie de rede de troca de informações entre pedintes. Um submundo onde a informação se move mais rápido que camelô correndo da polícia em dia de arrastão.

Deve haver uma espécie de grupo de whatsapp de mendigos, onde eles informam uns aos outros das localidades propícias à mendicância.

whatsapp mendigo

Ainda existe a possibilidade de existir uma rede social de pedintes de rua. Um lugar mágico onde eles não só fazem novas amizades, como compartilham informações indispensáveis pra vida de quem não tem CEP.

mendibook

Mendibook é a socialização entre os menos sociais. É a inclusão da camada mais baixa da sociedade na rede mundial de computadores. É através desta rede social que os mendigos se comunicam entre si e se avisam de que na minha casa sempre vai ter dois reais e um sanduíche de pão de forma.

Agora, se você me dá licença, tão batendo aqui na porta. Hora de fazer um sanduíche. Onde está aquele tal iogurte?

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Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

3 comentários em “Sobre mendigos, iogurte e as cabeças de pedra na Ilha de Páscoa”

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