Primeiro post do blog

Este é o resumo do post.

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O dia em que fui o primeiro.

Eu nunca fui bom em futebol. Nunca. Minha falta de aptidão ao esporte bretão se espelhava na minha posição – sempre me voluntariava a ir pro gol, uma vez que lá o time não dependeria tanto do meu talento com a bola nos pés. Talento esse que, bom, não existia. Estando no gol eu oferecia alguma resistência, afinal segundo conceitos da física, onde eu estava a bola não poderia estar. Estar parado no meio do gol era uma contribuição maior do que eu jogando na linha.

Quando não era goleiro, era zagueiro. Ou o equivalente a “cara que fica perto do gol pra atrapalhar o time adversário” do futsal, uma vez que nunca joguei futebol de campo na vida. Eu tenho o preparo físico de uma minhoca que acabou de acordar de um coma de vinte anos. Tomo dois impulsos pra levantar da cama. Lateral eu não poderia ser.

Um, dois, três e.... hunf. De novo: um, dois três e...
Um, dois, três e…. hunf. De novo: um, dois três e…

Na zaga, eu sempre adotava a política do carrapato. Onde o melhor cara do time vai, eu vou. Se ele ataca, eu estava lá. Se ele defende, eu estava lá. Se ele decide tomar um banho quente depois do jogo e precisa de alguém pra esfregar suas costas, eu estarei lá. Eu apenas sigo as ordens do professor.

Mas eu também era abusado. Quando o time estava no contra ataque, eu disparava pra frente só pra dizer que estava ajudando. Se a bola acabava no meu pé, eu poderia fazer o que quisesse: chutar pra fora, cruzar errado, perder a bola, tropeçar em mim mesmo. Afinal de contas, era um zagueiro no ataque. Qualquer coisa que fizesse já seria mais do que minha obrigação. Sou pago pra marcar o atacante.

Inteligente como sou, já usava isso como desculpa. O time contra-atacava, perdia a bola e dava origem a um contra-ataque inimigo, que quase sempre resultava em gol – afinal eles não tinham um zagueiro atacante. Seu zagueiro zagueiro estava atacando, ao invés de marcar o atacante atacante. Minha estratégia era sair correndo desenfreadamente do ataque até meu gol, mostrando ao time que pelo menos vontade eu tinha. Capacidade, nem tanto.

- pô galera eu cruzei o campo inteiro pra voltar :( -- FODA-SE VOCÊ NÃO DEVIA ESTAR LÁ
– pô galera eu cruzei o campo inteiro pra voltar 😦 — FODA-SE, VOCÊ NÃO DEVIA ESTAR LÁ

Isso praticamente resume minha carreira no futebol. Exceto por um breve período na quarta série. Naquele tempo eu era bola de ouro.

A educação física era sagrada: toda última hora de aula da quarta-feira era destinada à educação física, que, pra crianças de dez anos, era dizer: “seguinte, eu cansei de dar aula, toma aqui uma bola pra vocês se matarem nessa quadra quente como magma e áspera como a barba do caminhoneiro que namorei na década de 70”.

Sério, vocês não tem ideia de como aquela quadra era imprópria pra qualquer esporte. A não ser que o esporte envolva uma quadra feita de lixa, exposta ao sol sertanezino das duas da tarde, um depósito de cadeiras quebradas no canto da quadra e umas trinta crianças se batendo atrás de uma bola muito pouco preparada para rolar.

Dizem que essa aí é a definição do esporte nacional da Guatemala.

Muitos de nós jogávamos descalços, e na maioria das vezes nem bola tinha. Valia latinha de refrigerante, garrafinhas plásticas (a famosa Pitchulinha) ou qualquer objeto capaz de desempenhar movimento. Se dava pra chutar, era bola. E aquele era nosso Maracanã.

Lembrando que eu não recomendo chutar gordinhos. Não mesmo.
Lembrando que eu não recomendo chutar gordinhos. Não mesmo.

A cena naquela quarta era a mesma: os times eram tirados no par-ou-ímpar e eu era um dos últimos a serem escolhidos. Já tava acostumado, nada demais. Bola em jogo.

Todo mundo sabe que quando criança joga bola, não tem posição. Não tem lateral cobrindo subida de volante. Não tem terceiro zagueiro, libero, segundo volante, nada disso. Só tem uma onda disforme formada por crianças brigando por poucos segundos de domínio da redonda. Segundos de ouro.

Uns se destacam. Sempre assim. Geralmente eles eram os responsáveis por formar o time. Os dois melhores jogadores escolhiam o time. Evitar dois caras bons no mesmo time era uma das primeiras lições de equilíbrio que aprenderíamos na vida. Balanço estequiométrico na quarta série.

A rivalidade entre os times, mesmo que nunca fossem o mesmo, era tanta que no outro dia o time perdedor sempre chegava envergonhado. Sua honra ficaria em cheque até a próxima quarta-feira.

Numa dessas quartas, aconteceu algo diferente. Eu, goleiro da vez, via aquela bagunça de longe. Todo mundo no meio de campo, tirando os goleiros. Bolas chutadas, canelas chutadas, até a mãe de alguém seria chutada se estivesse ali no meio. Até que Thiago, um dos caras bons, escapou daquele buraco negro.

Entre ele e o gol, eu. Dada a imensa diferença de habilidade entre nós dois, era praticamente certo que ele marcaria aquele gol. Aliás, seria um puta golaço, afinal Thiago havia driblado não só todos os jogadores do meu time, mas os do time dele também e, se não me engano, driblou uma família de turistas japoneses que passavam por ali. A gente nunca ouviria o fim da zoação se ele marcasse aquele gol.

Entre ele e o gol, alguns metros. Distância suficiente pra todos os jogadores do meu time simplesmente desistirem de correr. A descrença deles em mim era tão grande que não compensava suar aqueles metros a mais só para, no fim, buscar a bola e ouvir a comemoração alheia mais de perto.

Essa é uma das memórias mais intensas que tenho da infância. Mãos rígidas, joelhos flexionados. Tudo o que aprendi nesses programas esportivos de domingo a tarde que ninguém assiste. Eu, do alto do meu corpinho roliço, estava pronto.

Thiago deu mais alguns passos com a bola. Chutou forte, meia altura, canto esquerdo. Meu lado ruim, longe demais pra pegar. Todo mundo ali na quadra já sabia que seria gol. Tenho certeza que já tinha alguém virando o placar.

--- PORRQUE PRRA MIM É ASSIM QUE TEM QUE BATER, FORTE E NO ÂNGULO
— PORRQUE PRRA MIM É ASSIM QUE TEM QUE BATER, FORTE E NO ÂNGULO

Nesse momento, eu pensei “Hoje não“. Saltei. Braços esticados, olhos fechados. Encostei naquela bola com a ponta dos dedos. Caí no chão como uma torta virada pra baixo, uniforme já rasgado, pensando “eu fiz isso mesmo? Eu peguei aquela bola?“.

Na minha cabeça, o salto demorou um século. Os três, quatro metros do gol se tornaram quilômetros. Da hora que pulei até o momento que toquei o chão com a energia cinética de dez bombas nucleares, eu poderia ter cantado uma canção.

Daria tempo de cantar Faroeste Caboclo durante o salto e ainda não chegaria ao chão.
Não tinha medo tal João do Santo Cristo, era o que todos diziam…

Ouvi gritaria. Ainda jogado no chão, imaginei que seria o time comemorando o gol antológico marcado por Thiago. Nem Pelé havia feito um gol daqueles na quadra do Anacleto Cruz. Talvez porque Pelé nunca tenha pisado ali, mas não tira o mérito do moleque.

A gritaria foi chegando mais perto. “Eles vão comemorar em cima da gente.”. Pouco depois, senti um peso em mim. “Seria esse o peso do fracasso?”, filosofei. Era como se um dinossauro tivesse me escolhido como penico e despejado toneladas de cocô pré histórico em cima de mim. Sensação comum, quem nunca?

Acontece que eu tinha pego aquela bola. O pequeno toque que dei nela, em meio ao vôo mais longo da minha vida, foi o suficiente pra impedir o gol e jogar a bola para escanteio.

Eles não estavam me zoando. Estavam me celebrando. Naquele momento, deixei de ser o cone no gol pra ser o goleiro que tinha pegado aquela bola.

eu devia ter comemorado assim
eu devia ter comemorado assim

Não que tenha sido um ato heróico, mas foi algo a ser louvado. Não era comum, pelo menos entre nós, um goleiro se jogar e se ralar inteiro pra salvar uma bola. Eu literalmente dei o sangue por aquela bola. O sangue e o uniforme. Foda-se, virei herói.

O jogo acabou pouco depois, afinal tínhamos muito pouco tempo pra jogar. Durante o resto da semana, nas outras peladas que jogávamos nós recreios, eu continuava no gol. Chega a imundo na sala. Valia a pena.

O melhor aconteceu na quarta-feira seguinte. Lembra que eu disse que eram os melhores jogadores que tiraram os times? Pediram pra que eu e Thiago escolhêssemos.

Curiosamente, naquele jogo eu não fiquei no gol. Portando minha camisa 10 (falsificada) do Corinthians de 98, joguei na linha. O zagueiro deles ficava na minha cola. Se eu atacava, ele estava lá. Se eu defendia, ele estava lá. Eu devia ter ido pro vestiário tomar um banho quente.

TL;DR: eu era ruim de bola, defendi uma bola impossível e virei herói.

Sobre mendigos, iogurte e as cabeças de pedra na Ilha de Páscoa

Nos últimos dias, um fenômeno curioso tem ocorrido nos arredores da minha residência. De um dia para o outro, a quantidade de gente pedindo dinheiro ou comida na minha casa aumentou significativamente. Em dias comuns é um por dia, no mínimo. Ultimamente, tem sido três ou quatro pessoas pedindo “um trocado pra viajar pra uma cidade próxima” todos os dias.

Eu sempre dou. Eu já perdi a conta do número de adesivos O SENHOR É MEU PASTOR que comprei nos últimos meses, ou de adesivos com aquela formiga idiota que é mascote dos evangélicos, ou de adesivos brilhantes de cachorrinhos. É tanto adesivo que vai faltar janela pra colar tudo. Muitos deles vão parar no lixo. Os outros ficam jogados no meu carro por semanas, até eu me lembrar de jogá-los no lixo também.

Tem que ter muita força de vontade pra não sair colando nos carros dos outros.
Tem que ter muita força de vontade pra não sair colando nos carros dos outros.

Quando o pessoal pede comida lá em casa, eu sou solidário. Precisa se estar em uma situação muito cruel pra pedir comida em casa de desconhecidos. Vai saber o que nego andou colocando naqueles lanches. O que impede alguém de colocar laxante na comida dos caras? Se bem que laxante não vai ser problema: se eles mal comem, não vão ter o que cagar também. Eu ficaria mais feliz de comer uma feijoada com laxante do que comer aquela droga de sanduíche de iogurte que um gordinho me deu na quarta série.

Nunca contei essa história? Bom, vamos lá.

É difícil não se sentir o maioral quando, numa escola que ia até a quarta série, você estivesse na quarta série. É como ser o formando do seu curso na faculdade: você se sente como se todos tivessem a obrigação de te receber com trombetas e carpetes vermelhos em todo lugar que entra. Mesmo sabendo que a vida não é assim, gosto de pensar que um dia foi.

Na quarta série, eu escrocava (do verbo das ruas “escrocar“, se aproveitar de algo que não é seu apenas pelo prazer de ser um cusão) lanche de um gordinho da segunda série. Eu não conhecia o cara, não fazia a menor idéia de como isso começou. Eu simplesmente cheguei e pedi um pedaço de algo num dia. No outro, fiz o mesmo. Daí nasceu uma profunda e bela amizade fundamentada exclusivamente na qualidade do alimento que ele podia me fornecer naquele dia.

Na segunda, salgadinho do Cascão. Na terça, um lanche de atum. Na quarta, uns biscoitos recheados. Na quinta, o jogo virou. Cansado da ingratidão do veterano e do consecutivo abuso do seu espaço pessoal, sem falar do pedaço ridiculamente grande que ele perdia do próprio lanche, IGOR resolveu revidar.

Nada de lanches deliciosos, frutas fresquinhas ou alimentos industrializados com níveis de açúcar suficientes pra tornar menos amarga a vida daquele seu tio que mora na floresta culpando o governo por tudo. Não, naquela quinta IGOR preparou algo diferente pra mim. Algo que me faria parar com a escrocagem pra sempre.

Naquela quinta-feira, pedi um pedaço do lanche a IGOR. Ele, já saboreando o doce néctar da vitória de forma passivo-agressiva, não hesitou e já tirou um sanduíche a mais da lancheira. Não perguntei o que era. Como um leão abocanhando o pescoço de uma zebra na savana africana, mordi aquele sanduíche sem dó. Doce, doce arrependimento.

IGOR realizou a vingança mais maquiavélica que já vi na minha vida. Ao sentir o sabor peculiar do sanduíche oferecido, eu o questionei.

— Que porra é essa?
— Pão com iogurte.

Pão com iogurte. A raça humana demorou cem mil anos pra descer das árvores e criar coisas como a internet, o ônibus espacial e a torradeira elétrica (nessa ordem crescente de importância). Nos asseguramos no topo da cadeia alimentar, mesmo sendo mais fracos, menores e infinitamente menos inteligentes que os macacos.

Se colocássemos numa sala Hitler, todos os vilões dos filmes de James Bond e todos os inimigos do Chapolin, tenho absoluta certeza de que sequer seria mencionada a ideia de colocar iogurte entre dois pães de forma. Teríamos máquinas capazes de destruir todo o Universo, mas jamais algo tão… simples. Tão elegante. Tão eficaz. Eu não terminei de comer aquele lanche. Também não voltei no outro dia. Naquela quinta, IGOR havia me derrotado quase sem esforço.

De quebra, IGOR ainda me deu uma lição de humildade: se a vida anda te batendo na cara sem motivo, coloque iogurte no pão de forma e ofereça a ela. Imagina quantos conflitos mundiais seriam evitados se houvesse mais iogurte em mais pão de forma.

***

Há duas explicações para acontecimentos que se repetem por dias: ou há algo muito organizado por trás, ou algo muito caótico. OK, talvez o fato de morar a alguns quarteirões da rodoviária intermunicipal da cidade tenha uma relativa contribuição a esse número de gente pedindo dinheiro. Mas entre esta rodoviária e minha casa existem outras dezenas de casas. Porque só a minha?

Desconfio de que há algo organizado por trás. Precisa ter, é assim que as coisas funcionam. Pensando muito a respeito, acho que comecei a desvendar a verdade por trás disso. Existe apenas uma resposta:

Existe alguma espécie de rede de troca de informações entre pedintes. Um submundo onde a informação se move mais rápido que camelô correndo da polícia em dia de arrastão.

Deve haver uma espécie de grupo de whatsapp de mendigos, onde eles informam uns aos outros das localidades propícias à mendicância.

whatsapp mendigo

Ainda existe a possibilidade de existir uma rede social de pedintes de rua. Um lugar mágico onde eles não só fazem novas amizades, como compartilham informações indispensáveis pra vida de quem não tem CEP.

mendibook

Mendibook é a socialização entre os menos sociais. É a inclusão da camada mais baixa da sociedade na rede mundial de computadores. É através desta rede social que os mendigos se comunicam entre si e se avisam de que na minha casa sempre vai ter dois reais e um sanduíche de pão de forma.

Agora, se você me dá licença, tão batendo aqui na porta. Hora de fazer um sanduíche. Onde está aquele tal iogurte?

Sobre o canto do cisne e as Cabeças de Pedra na Ilha de Páscoa

Essa é a hora em que eu peço pra que você pare exatamente tudo o que está fazendo. Cancele os downloads, desligue a televisão. Pause aquele pornô alemão envolvendo mulheres que já foram bonitas uns vinte anos atrás jogando graxa industrial umas nas outras e lambendo.

Pare e preste atenção no que eu vou dizer. Essa vai ser uma longa história.

Segundo pesquisas desenvolvidas pelos cientistas da Faculdade Odair Deodato Abreu, do Sergipe (FODA-SE), os cientistas não estão desenvolvendo nenhuma pesquisa no momento. Foram precisos dez anos e quinze milhões de dólares de investimento para descobrir que todos eles passam suas tardes vendo memes e compartilhando promoções de Facebook.

Já segundo o INPI, Instituto Nacional de Pesquisas Incompletas, 50% do público entrevistado disse que. Já 23% confirma que. Apenas 12% não. São dados bastante conclusivos.

Sabe, eu costumava abrir meus textos de forma teatral e exagerada. Demorava três parágrafos pra começar a falar de algo específico. Eu me divertia mais cunhando esses três parágrafos do que fazendo o resto do texto.

Inícios são complicados. É falado mundo afora que o primeiro passo é o mais importante. Eu digo que não é. Pra mim, o segundo passo é muito mais importante que o primeiro. Se começar é difícil, continuar algo é a mais nobre das artes.

Foi difícil começar o OJ. Aos 14 anos, auge da minha babaquice, tive um blog onde escrevia besteira e postava fotos. Eu me dizia grunge, me vestia como um bóia fria e era revoltado com a vida (se é que um adolescente de classe média-baixa pode ser revoltado com alguma coisa na vida). Aquele blog não durou.

Aos 14 anos, fui jogado em um mundo completamente diferente do meu. Saí de um lugar onde eu me sentia estranho por ser diferente e fui jogado num lugar onde eu me sentia estranho por ser parecido com os demais. Por falta de referências pessoais, criei uma personalidade (muito babaca, não canso de falar) pra conseguir sobreviver. O Raphael de 14 anos odiava tudo. O Raphael de 14 anos durou uns 5 anos.

raphs
Precisa dizer alguma coisa?

Conheci o Faz Sentido e o Hoje é um bom dia. Comecei a idolatrar os caras, o que me encorajou a começar a fazer textos de verdade. Em 2005, comecei a escrever no Loompas, blog colaborativo que já não existe. Meu primeiro texto foi “Países idiotas: Dinamarca”. Era surpreendentemente bom.

Então chegou o OJ. Em 27 de Outubro de 2005, criei o OJ pra lidar com esse “demônio interior”, pra botar pra fora as coisas que nunca tive espaço pra dizer nas rodinhas que frequentava. Por muito tempo, o OJ foi só um blog “de humor”, mas o foco foi mudando.

A “zoeira” – como eu detesto escrever essa palavra hoje em dia – dos posts deu lugar à indignação. Escândalos nacionais, assassinatos de repercussão e praticamente tudo o que aparecia na mídia virava texto em questão de minutos. Depois horas, depois dias. Isso tem um motivo.

Escrever um texto pro OJ é extremamente complicado. Eu não tenho dificuldades em escrever, na verdade é bem natural pra mim. Não perco tempo corrigindo, não fico me dando tempo para vaidades ou pra procurar sinônimos melhores pra embelezar o texto.

Mas, de longe, a pior parte é começar. Pra escrever essas coisas, eu preciso ficar num estado… diferente. Eu fico focado, adquiro uma espécie de “tunnel vision”, parece que fico desligado do mundo. A parte realmente ruim é que eu fico muito, muito nervoso. Esse nervosismo tem um preço.

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Com o passar dos anos, fui escrevendo menos porque eu sei como é extremamente cansativo. Eu sinto essa tensão se espalhando pelo corpo – as costas doem, os olhos ficam ressecados por piscar menos. A cabeça fica pesada, cansada. Eu fico irritadiço. Aliás, é incrível ver como uma repentina mudança de humor tem efeitos físicos tão notáveis em mim.

Esse é o primeiro (e menor dos) motivos que me faz escrever menos pro blog.

O grande motivo é porque… bom, eu mudei. Não digo que cresci, mas mudei. Não sou mais aquele cara que odeia o mundo, que tem mil coisas a reclamar do menor dos problemas.

A raça mais desgraçada da internet hoje em dia são os haters – aqueles caras que odeiam tudo e passam o dia inteiro tretando em redes sociais ou criticando cegamente trabalho alheio. Olhando pra trás, e vejo que eu era assim. Esse blog já foi assim. O Odeio e Justifico era, na realidade, um antro de ódio cego a mil coisas que eu não fazia ideia do que eram.

Talvez o primeiro grande texto de repercussão no blog foi o do Kurt Cobain, onde eu escrevi uma sequência de pontos válidos mas pouquíssimo embasados sobre uma das figuras mais importantes do rock nos últimos vinte anos. Hoje eu me sinto um IMBECIL por ter falado mal do cara.

Ainda na música, falei mal do Cazuza. Isso me custou caro, afinal uma amiga leu o texto e ficou extremamente chateada comigo. Foi a primeira vez que algo que fiz aqui impactou minha vida pessoal – e foi ali que eu comecei a assinar como Raphs, não mais como Raphael. Eu precisei criar um personagem pra me justificar, e desde então é esse personagem que escreve aqui.

Mas todo mundo se cansa de viver o mesmo personagem.

Outro texto que me trouxe problemas pessoais foi a Crônica do Cascão, que ironicamente é um dos textos que mais gosto no OJ. O texto serviu de catalisador em meio a uma confusão de sentimentos, mentiras, coisas e pessoas que sobressaíram o pessoal e abalaram até minha vida acadêmica e o profissional. Mesmo assim sinto orgulho de ter escrito aquilo até hoje – mais ainda de saber que muita gente se identificou.

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O melhor amigo que se pode ter, desde 2010

Eu sempre soube que eu tinha uma arma poderosa nas mãos: a palavra. Ter esse poder em mãos me fez ser ainda mais cauteloso com o blog. Não à toa, a Crônica do Cascão foi o último texto com contexto tão íntimo que escrevi.

***

Com toda a modéstia do mundo, existiram alguns textos geniais por aqui também. Os Blackstreet Boys, os Animais mais Perigosos do mundo, o texto sobre as Cigarras… Mais recentemente, o Como tirar fotos de churrasco também foi muito legal. Além de, claro, meu favorito, o post do Celso Portiolli – que me trouxe uma treta com a Desciclopédia. Acreditem, vocês não querem lidar com o povo da Desciclopédia.

***

Hoje penso que não se pode confiar em quem sorri ou reclama o tempo todo. Ninguém é feliz vinte e quatro horas por dia, e ninguém tem a vida tão desgraçada que precisa reclamar dela a cada minuto. Quem convive comigo sabe que eu reclamo sim, e muito, mas sempre de forma a fazer piada, provocando um sorriso de canto de boca em alguém.

Que convive comigo sabe da minha necessidade patológica de fazer piada com praticamente tudo. Sabe que eu sou especialista em fazer humor de mim mesmo. Eu sou o principal responsável pela má publicidade feita a meu respeito.

Não tenho mais interesse em fazer justiça na internet. Não tenho mais saco pra lidar com “movimentos sociais” ou pra quem tenta cagar regra na internet, principalmente gente que julga o que você PENSA como certo ou errado.

Nas últimas duas semanas, tivemos aquele maluco que levou tiro por roubar a Hornet do cara, as manifestações contra o pré-sal, o roubo dos beagles e outras tretas nacionais – coisa que geralmente viria parar aqui na hora – e eu não tive o menor tesão de começar a escrever. Justamente por saber o que se seguiria: um monte de gente discordando do que eu penso ou do que escrevi.

Eu simplesmente não tenho mais saúde, saco ou paciência pra lidar com aquela galera que vai contra o que tu fala por esporte. Ou que faz isso só pra te irritar.  Também tem aquela galera que ataca tudo o que tu gosta, só pela “zoeira sem limites”.

Por exemplo, quando pensei em escrever esse texto, pensei em chamá-lo apenas de “O Canto do Cisne”.

Pra quem caiu do bercinho quando era criança, eu explico. Existia uma crença de que o cisne branco fosse completamente mudo durante toda vida, mas que é capaz de cantar a mais bela das canções antes de morrer.

Se eu falasse sobre isso, logo apareceria um idiota carregando mil argumentos internéticos dos três primeiros sites do Google dizendo “cara como você é burro, nada a ver isso aí, já foi provado que eles cantam bla bla bla a zoeira não pode parar”. Pouco se fodendo pra licenças poéticas, o cara quer ser o campeão da internet e se sente por me provar errado.

Hoje eu sei que se eu postar que eu gosto de fazer sexo com cadeiras, haverão pessoas me provando com toda a ciência que a internet é capaz de fornecer, que eu estou errado em fazer isso.

Eu aceito estar errado, aliás adoro estar errado porque sempre inspira discussões interessantes – quando a pessoa consegue ser construtiva. Nessa “Era da Zoeira” que a gente vive, é praticamente impossível ser construtivo na internet.

Hoje o OJ faz 8 anos e eu continuo odiando muita coisa. Brigadeiro, lasanha, carro de som. O problema é que eu cansei de justificar isso. Eu não tenho mais tempo, saúde ou paixão pra falar do que odeio.

Durante os oito anos do OJ, muita gente perguntou o que eu mais odiava, ou porque eu não escrevia mais frequentemente. Nunca ninguém me perguntou “ei cara, o que tu realmente gosta?”. Isso começou a incomodar. Eu tô aqui a oito anos e praticamente ninguém me conhece.

Meu nome é Raphael, tenho 24 anos e moro no interior de São Paulo.

Sou estudante do quarto ano de Engenharia Química, me formo no próximo ano. Assim que me formar, pretendo fazer Mestrado pra lecionar na faculdade em que estudo hoje, algo como um sonho de infância. Sou apaixonado por todas as ciências, mas tento me manter mais aberto às artes.

Passo meu tempo vendo séries – sou pós doutorado em How I Met Your Mother e Breaking Bad – e jogando videogames. Adoro jogos de corrida e sou doido por Pokémon até hoje. Gosto de Ficção Científica – meu livro favorito é 2010: O ano em que fizemos contato, de Arthur Clarke. Gosto de HQ mas não tenho tempo pra acompanhar. Também não sou muito ligado em cinema – gosto mais da experiência de ir ver o filme do que a arte em si. Meu filme favorito é Into the Wild (Na Natureza Selvagem).

Minha vida é movida a música. Toco violão e arranho guitarra. Sou APAIXONADO por bandas cover, um dia escrevo mais sobre isso. Praticamente só escuto Engenheiros do Hawaii e Pearl Jam. Gostaria de ter falado mais sobre os dois aqui.

Algumas coisas aconteceram em minha vida que me forçaram a dar o próximo passo. Dizem que nenhum fantasma fica em paz enquanto não seguir em frente. Essas coisas, esses fantasmas, me prenderam no mesmo lugar por tempo suficiente pra me isolar do mundo. Não vejo o OJ como parte dessa carga negativa, mas acho que já era hora de tocar adiante.

Eu vou continuar a escrever, mas em outro lugar e de outra forma.

Só sei que, hoje, eu cansei de odiar.

Hoje, quero gastar meu curto tempo falando sobre as coisas que amo.

Começar o OJ foi o primeiro passo. Esse é o segundo.

Esse é meu canto do cisne.

Obrigado pelo carinho, leitor.

Obrigado por tudo, OJ.

Sobre as figurinhas do chat do Facebook

REUNIÃO NO QUARTEL GENERAL DO FACEBOOK

— Seguinte pessoal, a gente precisa inventar umas coisas novas pra deixar o chat mais interessante, mais dinâmico.

— A gente podia colocar uns emoticons novos…

— NÃO. A GENTE PRECISA DE COISAS QUE TRAGAM INOVAÇÃO E TENHAM SIGNIFICADO

— Habilitar o usuário a CRIAR os emoticons?

— NÃO. SANDOVAL, DÁ UMA SUGESTÃO AÍ.

— PO COLOCA AÍ UM COELHO GORDO NUMA BICICLETA

coelho

— CARALHO SANDOVAL, TÁ PROMOVIDO

— BELEZA CHEFE

— VAMO BEJA NA BOCA

— ENTÃO VAMO

— DEMORO

— DEMORO ENTÃO

A reunião terminou com os dois besuntados em calda de chocolate, porque calda de caramelo tem gosto de cocô.

 

Como tirar uma bela foto de churrasco

Fotografias costumavam ser momentos especiais. Posados ou espontâneos, o valor que cada foto do filme tinha era especial. Não se podia dar o luxo de tirar trinta fotos do jantar japonês. Ninguém tirava foto no espelho do banheiro.

Havia aquela apreensão em pegar o álbum no estúdio uma semana depois pra saber se o irmão pentelho da sua namorada havia feito chifres em você na foto do seu casamento.

Não me entenda mal, eu não sou defensor “dos velhos tempos”. É muito melhor poder tirar várias fotos pra escolher a melhor do que esperar uma semana pra ver que tudo saiu cagado.

O problema é que, com a “banalização” das fotografias, o sentido de se tirar uma foto mudou. Hoje, me parece que o único motivo que alguém tira uma foto com a desgraça da câmera do celular é pra atualizar o combo facebook, instagram e twitter.

Não se tira mais foto pra “imortalizar o momento”, pra guardar lembrança, pra tornar especial a presença daquelas pessoas naquele lugar. Hoje, se tira foto pra esfregar na cara dos outros que você saiu de casa e eles não. Se tira foto pra receber um dedão pra cima no facebook.

Então, como é impossível lutar contra a corrente, vamos ensinar você a tirar a melhor foto de churrasco.

Não precisa ser só churras, pode ser balada também. As regras se aplicam da mesma forma.
Não precisa ser só churras, pode ser balada também. As regras se aplicam da mesma forma.

O fenômeno conhecido como “fotos de churrasco” é a forma mais comum de você fazer as pessoas pensarem “nossa, eles estão numa festa fodona e eu tô aqui no computador… eles é que estão felizes e eu que tenho uma merda de vida”. Ou seja, pra quem vai na festa, o importante é fazer com que quem não foi se sentir mal. Simples assim. Quer aprender como se faz?

Papel, caneta e lata de cerveja de pedreiro na mão e vamos tomar nota.

Você vai precisar:

– Um churras top só pra diretoria com evento no face criado e convite antecipado vendido antes em imagem tosca compartilhada no facebook;
– As mesmas pessoas que estão em todas as festas;
– Uns maluco sem camisa e óculos oakley segurando cerveja;
– Uma piscina;
– Álcool suficiente pra sustentar a frota brasileira de automóveis por dez anos;

Antes de qualquer coisa: pegue a câmera mais fudida à sua disposição. Tem uma câmera de celular? Ótimo! Agora passe esse dedo seboso na frente da lente. Isso vai criar um efeito desfocado que é muito importante para o resultado final.

O próximo passo é planejar um antes-e-depois. Sabe as bebidas que vocês pagaram caro pra cacete pra ter? Organize isso de forma a destacar a quantidade absurda de embalagens. Agora vem os toques mágicos.

Se há uma quantidade significativa de latas de cerveja, coloque um suporte na fileira de trás de modo a “simular” que as latas de trás estão em cima de outras latas. Isso praticamente duplica a quantidade de latas disponíveis.

Se, por outro lado, vocês são pessoas sofisticadas e preferem destilados, faça o seguinte: na foto, tire as garrafas de dentro das embalagens e as posicione na frente. As embalagens vazias ficam atrás, pra dar a impressão de que, além das garrafas abertas, existe mais bebida dentro da embalagem.

Ou senão, seja criativo.

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É tudo sobre marketing.

Com o antes pronto, vamos pensar em depois. Aqui não há segredo: pegue tudo o que sobrou inteiro (latas, garrafas, barris de vinho) e organize em um só lugar. Mesmo que 84% dessas latas estejam cheias de cerveja quente que neguinho desistiu de tomar, ninguém vai saber na foto. Só não cometa o erro de deixar à mostra garrafas cheias. Garrafa cheia significa festa ruim né!!

kkk foi 10 caixa de litrão igual agua kkkkkkk
kkk foi 10 caixa de litrão igual agua kkkkkkk

Fotos tiradas, vamos para o próximo passo: o povo. Essa é a parte simples. Se atente às três regras da foto de churrasco:

– Fotos sempre com duas ou mais pessoas:
Aumentam as chances de pessoas comentarem, curtirem ou compartilharem sua foto, aumentando as visualizações.

– Todo mundo segurando copo
Mostra que todos vocês são pessoas descoladas e desafiam o comportamento padrão imposto pela sociedade opressora.

– É encorajada a presença de pessoas sem camisa de óculos escuros.
Porque mulher fala que homem no facebook é tarado mas não resistem a um cara com mais fendas no abdome que o Grand Canyon sem comentar “nossa meu paiiiii kkkk”.

Tudo num lugar só
Tudo num lugar só, menos o homem sem camisa porque isso aqui é de família

Os óculos escuros são pra proteger de raios UV que fazem mal à saúde – e talvez essa seja a única dica de verdade do post.

Agora chega a hora da verdade: a foto oficial do churras. Aquela que vai pro face. Aquela que todo mundo vai compartilhar, marcar, comentar. É a foto oficial do time da final da Copa do Mundo. É a foto que todo mundo que não foi vai ver e ficar com inveja.

Atenção: muita atenção. Em um ponto do churras, todo mundo tá naquele ponto em que o álcool começou a fazer efeito mas não deixou ninguém se cagando ainda. É a hora que todo mundo se ama.

Junte o máximo de pessoas que puder. Juntou? Ótimo. Vamos ao passo a passo:

Coloque pessoas que não se dão bem lado a lado.

Isso vai fazer com que conhecidos mandem links uns pros outros e comentem sua foto, o que é exatamente o que você quer fazer ao colocar uma foto no facebook.

— Nossaaaa olha isso!!! *link*
— Meninaaa como a Mari é falsa!! Outro dia ela tava falando super mal da Brunaaaa!!
— Cê acredita??? Acha!!!!

Faça a piscina aparecer na foto.

Estamos em agosto. Não importa se você tenha a resistência física de um esquimó, agosto não é mês pra se pular em piscina. “Ah mas ela é aquecida” – aquecida é como vai ficar sua cara se você não me ouvir, seu maldito.

Mas, como eu disse, é tudo sobre marketing. Ter uma piscina em casa é como ter um iPhone: grande parte da população mundial se dá bem perfeitamente sem, mas todo mundo quer ter.

Ter uma piscina por perto aumenta as chances de quem ver a foto pensar “uau, eles estão num lugar espetacular e eu tô aqui no computador, que bosta de vida” – que é exatamente a reação que você quer causar com a sua foto de churrasco, lembra?

Esconda os feios.

Ninguém quer abrir o facebook no domingo de manhã pra ver que seu churras tinha mais gente feia que metrô na hora do rush. Povo quer ver beleza, quer ver gostosa, quer ver bombado. Então faça esse favor de colocar os feios atrás e, de preferência, usar as pessoas bonitas para tampá-los.

Pra quem é feio, só um rosto aparecendo nessa foto já são quinze segundos de fama. Se possível, faça os bonitos erguerem suas latas de cerveja em comemoração a algo, de forma a tampar “acidentalmente” os quinze segundos de fama daquele cara escroto que trabalha contigo e tu só chamou porque ele descobriu o churras pelo facebook.

Agora, se você faz churrasco e só chama homem, não tire foto.

Todo mundo é feliz.

Nem todo mundo reage da mesma forma ao álcool. Sim, a primeira reação dele no organismo é de euforia, pois ele bloqueia a área do cérebro responsável pela inibição, timidez, vergonha. Só que daí em diante é um trem descarrilado: um copo além do limite e você passa de alegria da festa a festa na privada.

Bêbados vomitam, falam enrnolllaaaddo, ligam para a ex-namorada aos prantos, ficam violentos, arrumam briga, ficam em coma… mas nada disso vai afetar a sua foto de churras. Não importa a condição que o peão está: ele tem que fazer aquela cara de formatura de quinze anos pra não estragar a foto.

Nessa hora não há tristeza. A casa está pegando fogo, seu amigo foi baleado, alguém comeu sua namorada e trancaram seu cachorro dentro da caixa de gelo? Não importa: tá todo mundo feliz de estar aqui.

Último passo: divulgação.

Quantas fotos cabem no cartão da sua câmera? Duzentas e oitenta e quatro? Não perca tempo reduzindo tamanho, ajustando formato. Escolher as melhores? Pffff são todas boas. Crie um álbum no facebook e jogue TODAS DE UMA VEZ. Não importa que demore dois anos pra completar o envio: você fez a sua parte.

Marque todas as pessoas possíveis, assim elas obrigatoriamente saberão sobre suas fotos. Observe os comentários pulando como pipoca e use-os para fazer propaganda de si mesmo. Se você for mulher, retorne todos os elogios com “você que é, Flor!!”.

Tudo pronto! Você pode esfregar na cara de todo mundo que não estava na festa que sua vida é completa e que você é uma pessoa feliz e que não liga pro que os outros pensam.

No próximo post, vamos saber como mostrar pra todo mundo que você tá feliz solteiro(a) e que você superou o último pé na bunda compartilhando imagens da “lei do desapego”.

Até lá!

Tudo o que você (nunca) quis saber sobre as cigarras

Pare absolutamente o que você está fazendo. Não importa se é um vídeo de gatinhos no YouTube ou um artigo científico sobre a cura definitiva das unhas encravadas em camelos. Mesmo se você estiver aí, largado na cadeira igual uma preguiça praticando ioga, cheio de migalha de pão em cima do pijama, segurando a cabeça com um braço apoiado na mesa.

Saiba que o mundo está acabando, e que você tem apenas poucos minutos pra aproveitar sua vida ao máximo. A primeira coisa que você deve fazer é aprender estes fatos interessantíssimos sobre as cigarras.

Segundo uma pesquisa realizada pelo C.A.R.A.L.H.O. – Centro Armando Roberto Alves de Literatura e Humanidades Organizadas – as cigarras são bichos legais. Você só precisa se informar a respeito delas.

Chega dezembro, época de férias. Verão, sol rachando, você se reúne com seus amiguinhos no fim da tarde pra uma cerveja – ou suco de goiaba fresquinho feito pela sua vó. Todo mundo animado, vocês ligam o som, chegam as gatas, fica aquele clima gostoso de subúrbio, todo mundo curtindo. A tarde vai caindo, o sol se põe e a alegria de vocês acaba.

– BRUUUUEEEEMMMM HEIN HEI NEIN EINEINENEIEN UUUUUUUUHHHHHH IIENEINEINE NIEINEINENIE

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É nessa hora do dia que começa o show das cigarras, azeitonas pretas com asas que cantam mais alto que um show do AC/DC nos anos 80.

Deus, ou seja lá qual deidade suprema que você acredita dominar a porra toda, quando criou o mundo, tava lá tirando onda de ser supremo da existência e tal, pensou consigo mesmo:

– Pô, domingão, calor pra caralho, Faustão rolando. Tô de boa aqui, terminei o trampo da semana… acho que posso dar uma sacaneada.

Então, num estalar de dedos, criou um bicho que não tem utilidade NENHUMA no ciclo de vida do planeta. Cigarras não plantam árvores. Cigarras não compõem sinfonias, não atuam em peças de teatro. Cigarras não fazem nada senão comer, cantar e foder – basicamente a vida de um astro de rock.

Pra você que acordou hoje e pensou “Cara, seria muito legal se eu aprendesse seis fatos interessantíssimos sobre as cigarras”, este post é especialmente pra você!

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6- Cigarras passam 17 anos debaixo da terra.

Antes de sair chutando cadáver de cigarra morta, pense duas vezes. Aquela carcaça tem idade para ser sua mãe – se ela for bem adiantadinha na vida.

Não estou exagerando. Algumas espécies americanas e a maioria das espécies de cigarras brasileiras passam entre quinze e dezessete anos enterradas próximas a árvores. Durante esse tempo, elas têm a forma de “ninfa”, estágio que precede a forma adulta.

Quando “chega a hora”, todas as ninfas enterradas numa mesma região saem da terra ao mesmo tempo e se agarram ao tronco das árvores, de onde começam a sugar a seiva para se alimentar.

5- Cigarras são feias e morrem cedo.

Essa é a transição da ninfa em cigarra adulta. Completamente nojento.

O fato é que, depois de alcançar a vida adulta, as cigarras têm pouco mais de duas semanas de vida. Não dá tempo pra se fazer muita coisa, então elas se concentram em apenas duas atividades: cantar e trepar.

4- Cigarras cantam alto pra caralho.

A cigarra usa o canto como forma de acasalamento e como proteção. Pássaros, seus maiores predadores, possuem ouvidos muito sensíveis, e o canto da cigarra é absurdamente alto pra algo tão pequeno.

Aliás, a cigarra macho é o inseto que produz o som mais alto da natureza. Aquele canto escroto pode ser ouvido a nada menos que 500 metros de distância Algumas espécies alcançam os 120 decibéis, o que é literalmente mais alto que o som de uma turbina de avião. Outras fazem ainda mais: produzem um som de freqüência tão alta que o ouvido humano não é capaz de ouvir.

As cigarras não ouvem o próprio canto. Uma fina película protege seus ouvidos pra que elas não fiquem surdas.

Ou seja:

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3- Cigarras cantam para achar sua alma gêmea s2

Os machos cantam para atrair as fêmeas. As fêmeas também cantam, mas o som é mais parecido com um estalar de dedos, com a única função de mostrar sua localização para o macho.

Fato curioso: os machos são delicadamente menores em tamanho que as fêmeas. Portanto, se você conseguir avistar uma cigarra macho e estalar os dedos, vai atrair a atenção deles, como se estivessem hipnotizados. Eles literalmente vão pensar que você é uma fêmea, seguir a direção dos estalos e até começar a cantar.

Se você der sorte de conseguir capturar um exemplar desta moléstia de Deus contra a humanidade, vai perceber que não oferece resistência alguma. São insetos pacíficos que só vêm ao mundo pra três coisas: cantar, foder e morrer.

2- Cigarras morrem depois de trepar.

Ok, o macho canta, a fêmea abre as pernas e pronto. Os dois fazem amor gostoso, apaixonado, ao som de canções românticas, mas ao atingir o climax O MACHO MORRE.

Mas não morre de prazer ou cansaço: O MACHO EXPLODE. Se você vive num lugar que ainda não foi consumido por concreto e asfalto e consegue ver algo que pareça uma árvore no caminho para o trabalho, é até comum ver restos do macho por aí, sem o abdômen. A fêmea ainda vive por um tempo, mas morre bem menos dramaticamente depois de depositar os ovos.

Porque eu acho isso estranho? Vamos contar a história de Marquinhos, o menino cigarra.

Marquinhos viveu até os 17 anos na casa dos pais. Praticamente nunca saiu de casa, só queria saber de comer. Marquinhos um dia ficou obeso e decidiu que era hora de tomar vergonha na cara: saiu de casa e começou a fazer exercícios físicos.

Um dia, enquanto praticava escalada, encontrou um folheto da faculdade. Marquinhos gostava muito de música, então fez a matrícula e começou o curso de canto lírico. Um dia, nas aulas de canto, um empresário viu que Marquinhos atingia notas altíssimas e convidou-o para gravar um CD com uma banda de metal.

Então Marquinhos começou a ensaiar com a banda. Um dia, num festival com diversas outras bandas de metal, Marquinhos estava lá cantando e uma fã aproximou-se do palco. Os dois trocaram olhares e Marquinhos disse “passa lá no meu camarim depois do show”. A fã lá apareceu e os dois se pegaram.
No terceiro minuto de fodelança, Marquinhos não resiste e logo avisa:

– AH EU VOU GOZAR

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Estranho? Não é nada, bicho.

1 – Cigarras são bichos incrivelmente depravados.

É praticamente comum que cigarras machos copulem com outros machos. Parte disso se deve à falta de fêmeas ou de pura confusão – afinal os 17 anos são uma fase complicada na vida de todo mundo, não é mesmo?

Achou estranho? Vem cá, e se eu te disser que, além de gostar de abocanhar o croquete, cigarras também copulam com… fêmeas mortas?

Cigarras. Trepam. Com. Cadáveres.

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Quando eu era criança, costumava amarrar linha de pipa na cigarra e soltar ela no ar. Era um animal de estimação voador, coisa final, quase um pokemon.

Escrevendo isso tudo, me dá até medo de pensar no que os parentes daquela cigarra que amarrei farão com meu corpo depois de morto. Se existir karma nesse mundo, estou fodido no pós-vida. Eu e meu cadáver.

——

Você deve estar pensando:

— raphs você já escreveu sobre isso affffafaf tá faltando ideia pra post????

E eu digo: o blog é meu e se eu quiser eu posso escrever uma análise de quinhentas palavras sobre minha rotina intestinal rs.

Mas sabe, noite passada tive uma epifania. Durante um sonho, encontrei o grande Mestre e, em sua infinita sabedoria, ele me disse:

— Raphs, teu blog tem muito texto legal. Mas grande parte deles está esquecida em posts de anos atrás, e nem todo mundo quer procurar os arquivos. Que tal se você fizesse um “remake” de alguns dos melhores posts?

O Mestre então empunhou duas maracas e começou a dançar um ritmo mexicano dotado de muito swing e malemolência. O sonho, provavelmente alimentado pelas doses cavalares de remédios que venho tomando nos últimos dias, diz a verdade. O Mestre sabe das coisas.

[O texto original foi postado aqui e o remake dele foi postado no Histeria, uns meses atrás.]