Como tirar uma bela foto de churrasco

Fotografias costumavam ser momentos especiais. Posados ou espontâneos, o valor que cada foto do filme tinha era especial. Não se podia dar o luxo de tirar trinta fotos do jantar japonês. Ninguém tirava foto no espelho do banheiro.

Havia aquela apreensão em pegar o álbum no estúdio uma semana depois pra saber se o irmão pentelho da sua namorada havia feito chifres em você na foto do seu casamento.

Não me entenda mal, eu não sou defensor “dos velhos tempos”. É muito melhor poder tirar várias fotos pra escolher a melhor do que esperar uma semana pra ver que tudo saiu cagado.

O problema é que, com a “banalização” das fotografias, o sentido de se tirar uma foto mudou. Hoje, me parece que o único motivo que alguém tira uma foto com a desgraça da câmera do celular é pra atualizar o combo facebook, instagram e twitter.

Não se tira mais foto pra “imortalizar o momento”, pra guardar lembrança, pra tornar especial a presença daquelas pessoas naquele lugar. Hoje, se tira foto pra esfregar na cara dos outros que você saiu de casa e eles não. Se tira foto pra receber um dedão pra cima no facebook.

Então, como é impossível lutar contra a corrente, vamos ensinar você a tirar a melhor foto de churrasco.

Não precisa ser só churras, pode ser balada também. As regras se aplicam da mesma forma.
Não precisa ser só churras, pode ser balada também. As regras se aplicam da mesma forma.

O fenômeno conhecido como “fotos de churrasco” é a forma mais comum de você fazer as pessoas pensarem “nossa, eles estão numa festa fodona e eu tô aqui no computador… eles é que estão felizes e eu que tenho uma merda de vida”. Ou seja, pra quem vai na festa, o importante é fazer com que quem não foi se sentir mal. Simples assim. Quer aprender como se faz?

Papel, caneta e lata de cerveja de pedreiro na mão e vamos tomar nota.

Você vai precisar:

– Um churras top só pra diretoria com evento no face criado e convite antecipado vendido antes em imagem tosca compartilhada no facebook;
– As mesmas pessoas que estão em todas as festas;
– Uns maluco sem camisa e óculos oakley segurando cerveja;
– Uma piscina;
– Álcool suficiente pra sustentar a frota brasileira de automóveis por dez anos;

Antes de qualquer coisa: pegue a câmera mais fudida à sua disposição. Tem uma câmera de celular? Ótimo! Agora passe esse dedo seboso na frente da lente. Isso vai criar um efeito desfocado que é muito importante para o resultado final.

O próximo passo é planejar um antes-e-depois. Sabe as bebidas que vocês pagaram caro pra cacete pra ter? Organize isso de forma a destacar a quantidade absurda de embalagens. Agora vem os toques mágicos.

Se há uma quantidade significativa de latas de cerveja, coloque um suporte na fileira de trás de modo a “simular” que as latas de trás estão em cima de outras latas. Isso praticamente duplica a quantidade de latas disponíveis.

Se, por outro lado, vocês são pessoas sofisticadas e preferem destilados, faça o seguinte: na foto, tire as garrafas de dentro das embalagens e as posicione na frente. As embalagens vazias ficam atrás, pra dar a impressão de que, além das garrafas abertas, existe mais bebida dentro da embalagem.

Ou senão, seja criativo.

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É tudo sobre marketing.

Com o antes pronto, vamos pensar em depois. Aqui não há segredo: pegue tudo o que sobrou inteiro (latas, garrafas, barris de vinho) e organize em um só lugar. Mesmo que 84% dessas latas estejam cheias de cerveja quente que neguinho desistiu de tomar, ninguém vai saber na foto. Só não cometa o erro de deixar à mostra garrafas cheias. Garrafa cheia significa festa ruim né!!

kkk foi 10 caixa de litrão igual agua kkkkkkk
kkk foi 10 caixa de litrão igual agua kkkkkkk

Fotos tiradas, vamos para o próximo passo: o povo. Essa é a parte simples. Se atente às três regras da foto de churrasco:

– Fotos sempre com duas ou mais pessoas:
Aumentam as chances de pessoas comentarem, curtirem ou compartilharem sua foto, aumentando as visualizações.

– Todo mundo segurando copo
Mostra que todos vocês são pessoas descoladas e desafiam o comportamento padrão imposto pela sociedade opressora.

– É encorajada a presença de pessoas sem camisa de óculos escuros.
Porque mulher fala que homem no facebook é tarado mas não resistem a um cara com mais fendas no abdome que o Grand Canyon sem comentar “nossa meu paiiiii kkkk”.

Tudo num lugar só
Tudo num lugar só, menos o homem sem camisa porque isso aqui é de família

Os óculos escuros são pra proteger de raios UV que fazem mal à saúde – e talvez essa seja a única dica de verdade do post.

Agora chega a hora da verdade: a foto oficial do churras. Aquela que vai pro face. Aquela que todo mundo vai compartilhar, marcar, comentar. É a foto oficial do time da final da Copa do Mundo. É a foto que todo mundo que não foi vai ver e ficar com inveja.

Atenção: muita atenção. Em um ponto do churras, todo mundo tá naquele ponto em que o álcool começou a fazer efeito mas não deixou ninguém se cagando ainda. É a hora que todo mundo se ama.

Junte o máximo de pessoas que puder. Juntou? Ótimo. Vamos ao passo a passo:

Coloque pessoas que não se dão bem lado a lado.

Isso vai fazer com que conhecidos mandem links uns pros outros e comentem sua foto, o que é exatamente o que você quer fazer ao colocar uma foto no facebook.

— Nossaaaa olha isso!!! *link*
— Meninaaa como a Mari é falsa!! Outro dia ela tava falando super mal da Brunaaaa!!
— Cê acredita??? Acha!!!!

Faça a piscina aparecer na foto.

Estamos em agosto. Não importa se você tenha a resistência física de um esquimó, agosto não é mês pra se pular em piscina. “Ah mas ela é aquecida” – aquecida é como vai ficar sua cara se você não me ouvir, seu maldito.

Mas, como eu disse, é tudo sobre marketing. Ter uma piscina em casa é como ter um iPhone: grande parte da população mundial se dá bem perfeitamente sem, mas todo mundo quer ter.

Ter uma piscina por perto aumenta as chances de quem ver a foto pensar “uau, eles estão num lugar espetacular e eu tô aqui no computador, que bosta de vida” – que é exatamente a reação que você quer causar com a sua foto de churrasco, lembra?

Esconda os feios.

Ninguém quer abrir o facebook no domingo de manhã pra ver que seu churras tinha mais gente feia que metrô na hora do rush. Povo quer ver beleza, quer ver gostosa, quer ver bombado. Então faça esse favor de colocar os feios atrás e, de preferência, usar as pessoas bonitas para tampá-los.

Pra quem é feio, só um rosto aparecendo nessa foto já são quinze segundos de fama. Se possível, faça os bonitos erguerem suas latas de cerveja em comemoração a algo, de forma a tampar “acidentalmente” os quinze segundos de fama daquele cara escroto que trabalha contigo e tu só chamou porque ele descobriu o churras pelo facebook.

Agora, se você faz churrasco e só chama homem, não tire foto.

Todo mundo é feliz.

Nem todo mundo reage da mesma forma ao álcool. Sim, a primeira reação dele no organismo é de euforia, pois ele bloqueia a área do cérebro responsável pela inibição, timidez, vergonha. Só que daí em diante é um trem descarrilado: um copo além do limite e você passa de alegria da festa a festa na privada.

Bêbados vomitam, falam enrnolllaaaddo, ligam para a ex-namorada aos prantos, ficam violentos, arrumam briga, ficam em coma… mas nada disso vai afetar a sua foto de churras. Não importa a condição que o peão está: ele tem que fazer aquela cara de formatura de quinze anos pra não estragar a foto.

Nessa hora não há tristeza. A casa está pegando fogo, seu amigo foi baleado, alguém comeu sua namorada e trancaram seu cachorro dentro da caixa de gelo? Não importa: tá todo mundo feliz de estar aqui.

Último passo: divulgação.

Quantas fotos cabem no cartão da sua câmera? Duzentas e oitenta e quatro? Não perca tempo reduzindo tamanho, ajustando formato. Escolher as melhores? Pffff são todas boas. Crie um álbum no facebook e jogue TODAS DE UMA VEZ. Não importa que demore dois anos pra completar o envio: você fez a sua parte.

Marque todas as pessoas possíveis, assim elas obrigatoriamente saberão sobre suas fotos. Observe os comentários pulando como pipoca e use-os para fazer propaganda de si mesmo. Se você for mulher, retorne todos os elogios com “você que é, Flor!!”.

Tudo pronto! Você pode esfregar na cara de todo mundo que não estava na festa que sua vida é completa e que você é uma pessoa feliz e que não liga pro que os outros pensam.

No próximo post, vamos saber como mostrar pra todo mundo que você tá feliz solteiro(a) e que você superou o último pé na bunda compartilhando imagens da “lei do desapego”.

Até lá!

Sobre aquele professor boladão

A Internet é uma ferramenta maravilhosa. Aliás, na minha modesta opinião, talvez tirando os ônibus espaciais, o LHC e aquelas máquina de fazer gelo, a Internet é a melhor invenção da história do planeta Terra.

Talvez os macacos tenham feitos coisas mais legais, ou as chinchilas, ou os golfinhos. Mas, entre os humanos, a Internet reina soberana. Talvez se os golfinhos fizessem ônibus espaciais eles teriam alguma chance, afinal a raça humana jamais teria chance contra os golfinhos do espaço.

Principalmente porque nós, humanos, responsáveis por projetar a coisa mais espetacular da história, somos as piores criaturas que a natureza já inventou. Afinal, somos capazes de utilizar a Internet em grande parte para disseminar o ódio, contaminar e destruir tudo o que parece bom.

Hoje, uma amiga me enviou um vídeo sobre um professor que ensina química ao ritmo do funk carioca. Te dou uma coxinha com catupiry se você adivinhar qual foi a reação da galera.

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Quando criança, eu tinha o sonho de ser cientista, repórter de revista de videogame ou professor. O lance de repórter ficou pra trás, mas hoje posso dizer que sou, sim, cientista (afinal trabalho de jaleco e tudo em um laboratório). Só me faltou ser professor, o que ainda espero ser um dia.

Esse desejo de ser professor bateu forte quando vi o vídeo. Não fiquei, de forma alguma, ofendido ou incomodado pelo uso do horroroso funk carioca na explicação de uma matéria tão importante quanto oxi-redução.

Mas, também, não disse que… bem, concordei com o que vi.

A Química é a mais nobre das ciências. É nada menos do que a ciência da origem da própria vida, e atrelada à física e à matemática, é a explicação de tudo o que existe. E, talvez pela sua complexidade, é uma matéria de difícil absorção.

Como disse, pretendo ser professor, mas desde hoje já sei que não vou fazer uso das técnicas do professor do vídeo. Embora o uso de musiquinhas ou acrônimos seja uma forma autêntica (e até válida) de se decorar a matéria, está longe do ideal quando se quer realmente aprender.

Ciências exatas seguem uma ordem lógica. Quando se quer REALMENTE APRENDER sobre um fenômeno, seja ele uma pequena mistura ou uma colisão entre planetas, as ciências exatas exigem que você saiba todos os envolvidos e seus respectivos papéis.

Musiquinhas e acrônimos te ajudam, sim, a lembrar o que acontece na provinha do Ensino Médio. Mas, pra quem sabe e entende o fenômeno, sabe que pra algo acontecer é necessária uma série de condições e eventos – e isso já é muito mais interessante do que decorar uma ordem direta de respostas.

Em exatas, principalmente em química, Fato X acontece porque A e B estão em condição C, que ocasiona D e produz E. Se você souber o porquê que cada um desses eventos realmente acontece, não precisa decorar uma linha sequer.

Quanto mais fundo você vai nas ciências, menos válidas essas “táticas” funcionam. Decorar fórmulas é interessante no Ensino Médio, mas para o uso em aplicações de engenharia, por exemplo, é extremamente falho. Existem equações que mudam de acordo com as condições do evento – ou seja, decorar não te levaria a lugar algum.

O professor do vídeo tem um carisma espetacular. Até eu, que gosto tanto de funk quanto gosto de ver palhaços colocando fogo em um orfanato de filhotes de labrador, fiquei com um sorriso no rosto ao ver a aula. Não dá pra negar que o cara sabe motivar a classe, e o faz com uma naturalidade absurda.

Mas, se falando em ensinar, ele é nada senão um entertainer, um palhaço de rodeio. Embora tudo o que ele tenha dito seja, de fato, verdade, todos os alunos ali estavam interessados no que o professor engraçadão ia fazer em seguida, não em entender o fenômeno químico da oxi-redução e a relação ânodo-cátodo.

Afinal, é como eu disse: em exatas, musiquinhas não funcionam.

Digo isso pois nenhum cientista na história do Universo publicou suas teorias em forma de funk carioca, ou sertanejo universitário. E também nunca ouve um MC PhD em mecânica quântica.

Ou houve, sei lá, nunca se sabe se existiu um lado boladão em MC Albert Einstein.

JÁ NAS MELHORES BARRAQUINHAS DE CAMELÔ
JÁ NAS MELHORES BARRAQUINHAS DE CAMELÔ

ESSA RELATIVIDADE
É UM BAGULHO BEM BOLADO
UM SALVE DO MANO EINSTEIN
PROS MALUCO BEM DOTADO
EU DISSE QUE A ENERGIA
É IGUAL MC AO QUADRADO

Ou então, um show de MC Newton – afinal, seria só coincidência que no funk carioca eles são fissurados em chão, chão, chão? Sabe quem gosta de chão? A GRAVIDADE. BOOM, CIÊNCIA, lide com isso.

NEWTON

A SEGUNDA LEI DE NEWTON
MOVIMENTA O BATIDÃO
DIZ QUE TUDO QUE TEM FORÇA
SEGUE UMA EQUAÇÃO
ONDE F É IGUAL A EME
VEZES A ACELERAÇÃO
É O PRINCIPIO DA DINAMICA
ABALANDO O PANCADÃO

Essas musiquinhas só servem para deixar o estudante alienado, convencido de que sabe a matéria e treinado pra passar no vestibular. Mas, na verdade, ele não vai aprender nada porque perdeu tempo ouvindo a explicação engraçadinha do professor.

O professor, aliás, se chama Silvio Predis. Não é só essa aula do vídeo que ele faz gracinhas e tal, tem várias outras. Mas não vou puxar a capivara do cara pra julgar. O maluco é sensacional, pro Ensino Médio.

E só pra isso.

Relato de um ex-viciado

Olá, meu nome é Raphael e eu sou um ex-viciado.

Essa não é uma história, é apenas um marco na minha vida. É algo que eu preciso colocar no papel (dá um tempo, vai) pra ficar registrado para a posteridade.

Eu nasci com um problema que talvez você tenha e nunca tenha percebido. O desvio de septo é uma condição bastante comum, onde um pedaço de “carne esponjosa” incha descontroladamente dentro do seu septo nasal, bloqueando parte do fluxo de ar. Isso causa um pequeno desconforto, que vai desde a sensação de nariz tampado até a apnéia noturna, que aí sim pode causar complicações e até morte por asfixia.

Ciente do problema, procurei ajuda no lugar mais especializado em doenças crônicas que a humanidade já desenvolveu: a internet. Lá, encontrei a solução pros meus problemas: um certo soro, vendido em qualquer farmácia, que melhorava a respiração nesses casos.

Parti então para o balcão da farmácia:

— Então cara, to precisando de um bagulho aí, certo? Pra dar um barato, cheirar melhor as paradas.
— Tenho um esquema aqui pra ti, tu vai gostar.
— Mas isso aí resolve meu problema?
— Irmão, vai na fé, é só cheirar a paradinha que tu vai pro céu.
— Não faz mal não? Pode usar quando quiser?
— Maluco, ta todo mundo usando, eu mesmo uso direto, isso aqui é do bom.
— Me vê dois então.

Assim conheci o Neosoro.

neosoro

A primeira cheirada no negócio foi horrível. Pra novos usuários, meter água nariz adentro é praticamente como enfiar a cabeça debaixo de uma cachoeira. Aquela coisa salgada entrou no nariz e escorreu pela garganta, onde o gosto só não ficou pior pois meu cérebro se preocupava demais em não deixar o corpo se afogar.

Segundos passaram e nada do tal “barato”. Poucos minutos depois de voltar ao que estava fazendo, descrente de que o negócio ia funcionar, me bateu a realização de uma vida inteira. Durante os últimos anos, eu não sabia o que era respirar direito. Naquele dia, da forma que ele disse, eu tinha chegado ao céu.

O que eu não sabia é que esse “caminho pro céu” tomaria uma curva sinuosa pra me jogar num lugar próximo ao inferno.

No começo, tudo é lindo. Você recupera a capacidade de respirar normalmente, não sente mais o incômodo de um rinoceronte preso na sua cara, consegue sentir cheiros novamente. O mundo inteiro fica mais bonito, menos sua tia Lourdes que ainda se parece com um cachorro velho depois de atropelado por uma manada de mamutes. Eu podia finalmente sentar e assistir um filme no ar condicionado sem ter que levantar e fazer polichinelos pra poder respirar. Eu podia plantar uma árvore, correr num rally, andar de monociclo, domesticar um crocodilo, droga, eu podia finalmente fazer o que quisesse.

Meu corpo havia recuperado uma de suas funções vitais. É mais ou menos como se tu tivesse uma prisão de ventre inviolável por dois anos, descobrisse o Activia e passasse os próximos dois meses no banheiro, recuperando todo o tempo perdido.

Mas, assim como todo vício, esse havia começado a cobrar seu preço.

Cocaína se cheira, maconha se fuma, heroína se injeta. Neosoro se pinga, e no começo eu pingava uma, duas vezes por dia. O efeito durava umas oito horas, e o resto do tempo era suportável. Eu não sentia falta. Depois do primeiro ano de uso, o efeito caiu para cinco horas. Depois, pra quatro. Daí em diante, já não era possível sair de casa sem o maldito remédio.

Já não era mais um prazer poder respirar, era uma necessidade. Mesmo quando o nariz estava bem, o corpo pedia a merda do remédio.

Essa merda VICIA.

Imagina isso aí passando em cima do seu corpo. É o que a abstinência te causa.
Imagina isso aí passando em cima do seu corpo. É o que a abstinência te causa.

Tentei de tudo pra me livrar dele, até uma cirurgia que corrigiria o problema definitivamente, mas que não resultou em nada. Desde 2007, usava a droga do remédio ininterruptamente.

Foi então que comecei a adquirir os hábitos que todo viciado tem.

1- A droga não pode faltar.

Você precisa dela. Mais do que isso, seu cérebro é capaz de tocar o terror no resto do teu corpo se você não dá aquela pingada logo pela manhã. A ansiedade te consome, você passa a mastigar até solado de porta pra conter o nervosismo.

2- Tem que estar disponível, sempre.

Você precisa dela, mais do que você pensa. Nada de sair de casa sem aquela bisnaga salvadora no bolso, ou você terá problemas sérios. Minhas calças chegaram ao cúmulo de estarem marcadas com o formato do remédio no bolso. Nas viagens, carregava dois ou três frascos pra caso perdesse um. Em lugares novos, fazia um scout na região pra identificar farmácias ou pontos de venda.

3- Secret stash

Todo viciado tem um esconderijo, um lugar que guarda uma reserva de emergência. O desespero te faz armazenar frascos do remédio em caixas, gavetas, sapatos, armários, bolsa dos amigos. Todo lugar é lugar pra um Neosoro a mais.

4- O Network

Você passa a identificar usuários a distância e cria sua base de contatos. Afinal, se um dia você esquecer seu suquinho mágico em casa, alguém pode fornecer. Assim, nunca falta.

E como todo bom viciado, uma hora você passa do ponto e sofre uma overdose. Não é porque o remédio é praticamente soro caseiro com um tempero que não pode te fazer mal. Brincadeiras à parte, foi uma das situações mais assustadoras que passei na minha vida.

O Neosoro é um vasoconstritor, um remédio que comprime os vasos pra aumentar a pressão sanguínea em uma região. A carne esponjosa que incha e atrapalha a respiração é largamente irrigada por vasos, ou seja, o remédio contrai esses vasos e faz a carne diminuir de tamanho. O remédio causa uma constrição nos vasos sangüíneos do nariz, o que diminui o inchaco daquela carne esponjosa. O problema e que o gênio aqui usou dois remédios diferentes com o mesmo efeito.

O resultado foi mais ou menos como se alguém implantasse uma broca dentro do seu cérebro e a acionasse de dentro pra fora. Uma pressão absurda na parte de cima da cabeça, uma dor aguda que persistiu por bons e longos minutos. Meu vicio engraçadinho quase me causou um AVC.

Eu estaria escrevendo com a testa numa hora dessa.

Aí vi que era hora de parar. Respirar pouco é melhor que não respirar. Procurei tratamento e o coloquei em prática, e tem funcionado muito bem. Pela primeira vez em seis anos, posso respirar normalmente sem necessitar do desgraçado do Neosoro.

Já se passou um mês desde o “dia D” e não houve uma reincidência sequer. Posso dizer que estou livre dessa maldição. Apalpar o bolso direito e perceber que não preciso mais andar com aquela bisnaga maldita no bolso pra todo lugar é um alívio sem tamanho.

Tá certo que o formato cilíndrico dela às vezes causava um certo volume em minhas causas, que uma ou outra vez pode ter sido confundido com um formato avantajado de meus órgãos genitais, atraindo olhares curiosos de outras pessoas (não apenas mulheres, infelizmente).

Sentirei falta desses olhares. Paciência. Não se pode ter tudo.

Sério que cês vão me fazer falar do Chorão?

Então que o Chorão morreu.

Eu nunca gostei de Charlie Brown Jr. Nem da atitude anti-capitalista, nem da banda. Muito menos do Chorão. Mas não dá pra negar que eles tocavam um puteiro do caralho nos shows. E, vem cá, tocar o puteiro no palco não é a essência do rock’n roll, a muito, MUITO, perdida?

Uma passagem interessante de CBJR na minha vida. Bom, duas, se tu colocar a icônica abertura de Malhação, que fez parte da vida de todo mundo da minha idade por algum tempo. Sdds 2001~2004.

CPM

Uma vez, em 2010, nossa turma encontrou um andarilho no meio da praia de Ubatuba, às três da manhã. O nome dele era Fabiano, ele era de Santos. O cara começou a puxar umas rimas, sobre a gente e sobre a vida dele. Todo mundo curtiu o cara. Pouco antes de sair, ele disse que, quando criança, andava de skate com um tal Alexandre, e que tinham sido criado juntos. Santos… Alexandre… sim, o cara era amigo do Chorão. Se era verdade ou não, não vejo motivo nenhum pro cara mentir. Se mentisse, também, foda-se. Prefiro viver na ilusão de que todo mundo diz a verdade.

Fabiano então se virou e foi embora. Poucos segundos depois, ele se virou e pediu pra gente um lugar pra ficar. Nós, acomodados numa casa da família de um amigo, dissemos que não pensando nas meninas (mas todos queriam deixar o cara ficar). Ele agradeceu na boa, deu as costas e foi embora.

Quando a gente deu conta, o cara tinha desaparecido. Dois quilômetros de areia pros dois lados, e nem sinal de Fabiano. Era Páscoa. Fabiano devia ser um anjo testando a gente. Um anjo ex-viciado em crack que fazia rimas pela madrugada e que tinha andado de skate com o Chorão.

Na atual geração COXINHA, Chorão era um daqueles quibes com um ovo dentro – ou você ama, ou você odeia. Não dá pra ser indiferente.

Cada geração tem o ídolo que merece. A geração 00’s era aquela galera que começava a afundar a bunda no sofá e tomar uma Coca-Cola. Chorão pregava a boa vida e a vida loka, suas letras balançavam entre a cruz e o skate. E era um letrista do caralho. “Ah, mas suas letras eram comerciais” – comercial? Sim, puramente pra tocar na rádio, mas o que não é comercial hoje? A gente vive uma realidade de valores tão distorcidos que ser contra o sistema se tornou o sistema.

Como eu disse, era impossível ser indiferente ao CBJR. Até o roqueirinho mais cuzão já cantou a abertura da Malhação. Já assistiu um clipe na MTV. Ao ver o cara no palco, ou você amava o Chorão ou você odiava o Chorão. A maioria amava. Pra falar a verdade, era difícil não amar também. Porra, ele tretou com o Badauí, bateu no maluco do Los Hermanos, discutia com nego no palco.

No João Rock 2011, ele entrou completamente bêbado, trocou de boné com um cara do público e lascou um beijaço numa mina com o pai do lado. Mais e mais vezes o CBJR saía na imprensa por causa de tretas de Chorão com o público, aliás.

— ah mas isso aí desrespeito com o público
— AH QUE TAL MEU PAU DE ZORBA NO SEU OUVIDO?

Essa geração criada a Coldplay nunca vai entender o que é ser porra louca. Porra louquice, aliás, é coisa de antigamente. Por mais badmanner que um roqueirinho seja hoje em dia, não chega aos pés do The Who por exemplo. Chorão foi o mais perto que essa geração 00’s chegará de ver um carro dentro da piscina do hotel.

Como diria Lobão, “é melhor viver dez anos a mil do que mil anos a dez”. Chorão  viveu quarenta anos a mil. Fez o que quis. A própria banda odiava o cara, mas respeitava. Até me arrisco a chamar o cara de autêntico, desviando de pedras.

É verdade, nunca gostei mesmo do Chorão. Mesmo assim, não tenho nada senão respeito por esse cara. E, olha, você deveria ter também.

chorao

Um estudo científico sobre a eterna rivalidade entre Pernalonga e Pica-Pau

A raça humana pode ser a pior moléstia que existe no Universo, mas uma coisa de boa ela descobriu: os números. Enquanto humanos mentem três vezes a cada dez minutos (freqüência que aumenta exponencialmente se você é pescador, político ou baladeiro), os números não mentem. Nunca.

Dois mais dois nunca será cinco. Nunca haverá raiz quadrada de número negativo. Uma integral indefinida sempre dará origem a uma equação mais uma constante. Não existem circunstâncias ou condições de contorno para verdades estabelecidas por números. O que é, é.

No extremo oposto disso estão as discussões virtuais. Se toda a raça humana fosse dizimada amanhã por um vírus presente na maionese, e sobrassem apenas duas pessoas no mundo com acesso à internet, as duas passariam o resto dos tempos discutindo sobre o que causou a dizimação.

Toda discussão internética acontece da mesma forma: cada um iria distorcer a realidade a seu favor, todos iriam aparecer com argumentos elaboradíssimos, ignorar qualquer verdade dita pelo outro lado, alguém iria perder a razão e citar Deus ou Hitler e, no fim, ambos perceberiam que gastaram horas de suas vidas discutindo sobre personagens de fantasia que não influenciam em nada a realidade.

Entretanto, a Internet (ah, essa Internet) proporciona um meio de comparar duas figuras incomparáveis sem gastar uma gota de saliva virtual sequer: uma Google Fight. O termo que apresentar maior número de resultados no Google vence, por motivos óbvios.

Assim, torna-se fácil descobrir quem ganha uma luta entre Goku e Hulk, quem é mais popular entre Jesus e os Beatles, ou sobre o que é pior: comer milho de aparelho ou comer feijão antes do primeiro encontro com a guria mais bonita do colégio quando se tem 13 anos.

Mesmo os números sendo incapazes de mentir, ainda existem problemas sem solução. São os chamados “Problemas do Milênio”, equações cuja solução é tão cabeluda que nem um estudante coreano consegue explicar. O curioso é que você não precisa ir longe pra achar um desses Problemas do Milênio. Eu lhe dou um agora mesmo:

Quem é melhor: Pernalonga ou Pica-Pau? Durante anos, tentei argumentar com meus amigos sobre a clara superioridade do Pernalonga. Os dois são marcos na história da indústria de animação, fazem parte da infância de milhões de pessoas, deram origem a um mercado gigantesco de produtos e tudo mais. Mas como decidir quem é melhor? Como resolver tal problema?

Acho que sei como resolver isso.

PP01

A busca por “Pica-Pau” obteve 13.600.000 resultados. Leva-se em conta que, mesmo sem o hífen, o resultado é exatamente o mesmo, afinal o Google trabalha com keywords. Vejamos como se sai o nosso amigo coelho.

pp02

Apenas 879.000 resultados, o que daria uma vitória esmagadora a Pica-Pau. Só que isso me cheira mal. Não pode ser tão fácil assim. Óbvio que, por pesquisar “Pica-Pau”, o Google me mostrou resultados referentes ao PÁSSARO pica-pau, aquele que bica madeira de verdade. Ok, então a pesquisa não pode ir para esse lado.

Vamos utilizar o nome original dos dois, afinal é impossível comparar “Pica-Pau personagem + Pica-Pau pássaro” com apenas um personagem.

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Apenas 2.680.000 resultados, o que já é muito menos do que o resultado anterior. Vejamos o coelhoso.

pp03

PP05

Você por acaso lembra daquele dia no cinema, em que o Picolino lançou a bola pro Zé Jacaré, que defendeu e passou pro Pica-Pau lançar a bola pro Bill Murray, que jogou pra Michael Jordan fazer a cesta que salvou o Universo? Aquela cena em que todo mundo se espremeu na cadeira de tanta tensão? Lembra?

NÃO, FILHO DA PUTA. FOI O PERNALONGA. PICA PAU JÁ JOGOU COM O BILL MURRAY? E COM O MICHAEL JORDAN? NÃO, PORQUE PICA PAU NUNCA FEZ UM SPACE JAM. SEU MACACO.

Pica Pau está pra sempre na lista “Personagens que nunca salvaram o mundo”. Pernalonga não. Pernalonga está na lista “Personagens que mudaram sua infância e se tornaram IMORTAIS por terem salvado o mundo”. Quem está nessa lista? Goku. Ash. Jesus Cristo, cacete, PRATICAMENTE TODO MUNDO menos o Pica Pau.

— O que você achou de mais essa vitória INQUESTIONÁVEL, Raphs?

— Ah, com certeza, o time jogou bem, a equipe tava preparada, o professor instruiu a gente bem durante a semana, o adversário era forte mas a gente conseguiu superar, e agora é manter o ritmo aí porque a competição é longa e temos aí um adversário forte fora de casa no meio de semana e vamos nos preparar pra conseguir os próximos três pontos.

A conclusão que podemos tirar disso, e acho que toda a pesquisa fechou todas as prováveis lacunas nessa história, é que eu preciso de uma namorada pra preencher o tempo livre que eu tenho.

Sério cara, tipo, urgente.

HOJE EU VI UMA CENTOPÉIA

MALUCO, centopéia era tipo maior que um PRÉDIO CARA

 

SÓ QUE LÓGICO QUE ELA NÃO TAVA VOANDO NÉ MEU NÃO SOU LOUCO
SÓ QUE LÓGICO QUE ELA NÃO TAVA VOANDO NÉ MEU NÃO SOU LOUCO
NÃO IGUAL ESSE MONGOL, esse é  charmanders
NÃO IGUAL ESSE MONGOL, esse é charmanders

Eu tava no trabalho né, aí deu a hora do almoço eu pensei CARALHO VO ALMOÇAR, aí cheguei na moto e PUTA QUE PARIU LÁ ESTAVA ELA  LARGATEANDO PELO CHÃO COMO UMA CENTOPÉIA,

ela era como uma mangueira de incendio criasse patas e se arrastasse pelo chão sozinha, só que sem o carro dos bombeiros e sem cuspir água por aí porque é uma centopéia, não e a porra do squirtle.

mas se pensar mano, no episódio que o ash captura o charmander, diz lá que se a chama do rabo dele apagar, ele morre

MAS MANO, O BICHO EH TIPO UMA LARGATIXA, SE ELE LUTAR COMTRA O SHQUIRTLE É ÓBVIO QUE ELE MORRE PORRA, afinal todo mundo sabe que água apaga fogo da mesma forma que papel ganha de pedra no joqueipo. joquempo.

jaw ken paul
jaw ken paul

então aí voltando na centopéia, deixei ela lá e vim pra casa, porra, fui almoçar e tinha uma barata GIGANTE NO MEU QUARTO PUTA QUE PARIU PORQUE TODO MUNDO ME ODEIA AGORA, que que eu fiz pra vocês CARA?

ARTROPDODa maldita era tão gorda que não conseguia andar direito, as patas eram ridiculamente grandes {parecia que ela tinha sido modificada pra ficar parecida com aqueles monster truck que passa por cima dos carros e tal mó daora{

caralho!!! — geralmente quando tem barata na sua casa, tipo sua gata aparece do nada e come a maldita ((não antes de brincar com ela por uns 300 minutos, que correspondem a cinco horas)), aí como lidar com ela?? chamar os bombeiros?

aí que pensei que toda vez que minha vida corria perigo, apenas uma coisa conseguia me salvar: BUSCAR CONHECIMENTO E SABEDORIA NAS LETRAS DO MOLEJÃO

TODA VEZ QUE CHEGO EM CASA A BARATA DA VIZINHA TÁ NA MINHA CAMA, BARATA copy

ai eu matei ela

fim

Sobre ser encoxado no computador

Olha, existe um costume maldito que se torna cada vez mais freqüente no dia a dia frenético que levamos. Não estou falando de má higiene corporal, ou cabelos molhados no ônibus, ou as gírias que a Globo cria em suas novelas, não. Estou falando de pessoas que interpretam de forma leviana a necessidade de espaço entre dois seres humanos, invadem o espaço alheio e encostam os genitais em você.

É mais ou menos assim que eu me sinto

Você já passou por isso. Chega aquele cara no escritório que ninguém gosta. Ele não fez nada de errado pra ninguém, simplesmente é chato. Ele vai chegando na tua mesa. Você se prepara mentalmente, abaixando gradualmente os níveis de tolerância. Ele chega e se coloca imediatamente atras de você, a poucos centímetros do seu braço. Essa distancia tende a ser sempre menor que o “Limite de AC”.

O “Limite de AC” é uma lei física, criada por mim, baseada na distância mínima que os genitais de alguém podem se aproximar de você, sem se tornar completamente constrangedor. O nome veio das iniciais de um antigo colega de trabalho, cujo nome decidi trocar neste post por questões éticas e morais. Vamos chamá-lo de Antônio Charles.

Eu trabalhava sentado, de frente ao computador e com as costas para a parede. Quem chegava pra falar comigo se colocava imediatamente atrás de mim ou ao meu lado direito, claro, sempre obedecendo o mais primitivo instinto de bom senso. Menos Antônio Charles.

Antônio Charles, pai de família, senhor respeitado, trabalhador, não se continha em ficar ao lado. Ele sempre se colocava tão próximo de mim que, ao menor movimento, meu braço esbarrava em suas calças (que, à esta altura do campenato, apenas servem de abrigo para um pênis em decadência). Não num sentido sexual, Antônio Charles religiosamente visitava perfis de mulheres atraentes na rede social Facebook todos os dias, fato averiguado em seu histórico deixado nos computadores que usava. Apenas pela falta de bom senso.

Em dias críticos, ele praticamente encoxava meu ombro.

Solução para meus problemas

Geralmente, o cara que fica te encoxando no computador também pega pra opinar sobre o que tu faz ou lê suas conversas. Isso é absurdamente desconfortável. Eu odeio ser encoxado enquanto estou no computador. Numa escala de 0 a 84, onde 84 é “Caralho, não consigo mais suportar isso, me mate agora”, 110 é tipo “Deus, descarregue toda sua fúria sobre mim neste instante”, 150 é “Até que dá pra aguentar”. Eu só consigo imaginar isso não sendo pior apenas do que quando chega visita na minha casa e meu cachorro meio cego começa a cheirar as partes divertidas das pessoas.

Seja Antônio Charles, seja sua mãe, seja qualquer um, homem ou mulher, que desafia o “Limite de AC”, merece ser punido e alguma forma. Isso me irrita tanto que já pensei em diversas formas de evitar tal desconforto, desde sinalização própria até cercar minha cadeira como os castelos da idade média, com riachos cercados de jacarés. Não, melhor: jacarés invisíveis armados com espadas de raio laser, montados em rinocerontes ninjas.

Essa segunda não seria muito prática, mas seria sensacionalmente efetiva.