O dia em que fui o primeiro.

Eu nunca fui bom em futebol. Nunca. Minha falta de aptidão ao esporte bretão se espelhava na minha posição – sempre me voluntariava a ir pro gol, uma vez que lá o time não dependeria tanto do meu talento com a bola nos pés. Talento esse que, bom, não existia. Estando no gol eu oferecia alguma resistência, afinal segundo conceitos da física, onde eu estava a bola não poderia estar. Estar parado no meio do gol era uma contribuição maior do que eu jogando na linha.

Quando não era goleiro, era zagueiro. Ou o equivalente a “cara que fica perto do gol pra atrapalhar o time adversário” do futsal, uma vez que nunca joguei futebol de campo na vida. Eu tenho o preparo físico de uma minhoca que acabou de acordar de um coma de vinte anos. Tomo dois impulsos pra levantar da cama. Lateral eu não poderia ser.

Um, dois, três e.... hunf. De novo: um, dois três e...
Um, dois, três e…. hunf. De novo: um, dois três e…

Na zaga, eu sempre adotava a política do carrapato. Onde o melhor cara do time vai, eu vou. Se ele ataca, eu estava lá. Se ele defende, eu estava lá. Se ele decide tomar um banho quente depois do jogo e precisa de alguém pra esfregar suas costas, eu estarei lá. Eu apenas sigo as ordens do professor.

Mas eu também era abusado. Quando o time estava no contra ataque, eu disparava pra frente só pra dizer que estava ajudando. Se a bola acabava no meu pé, eu poderia fazer o que quisesse: chutar pra fora, cruzar errado, perder a bola, tropeçar em mim mesmo. Afinal de contas, era um zagueiro no ataque. Qualquer coisa que fizesse já seria mais do que minha obrigação. Sou pago pra marcar o atacante.

Inteligente como sou, já usava isso como desculpa. O time contra-atacava, perdia a bola e dava origem a um contra-ataque inimigo, que quase sempre resultava em gol – afinal eles não tinham um zagueiro atacante. Seu zagueiro zagueiro estava atacando, ao invés de marcar o atacante atacante. Minha estratégia era sair correndo desenfreadamente do ataque até meu gol, mostrando ao time que pelo menos vontade eu tinha. Capacidade, nem tanto.

- pô galera eu cruzei o campo inteiro pra voltar :( -- FODA-SE VOCÊ NÃO DEVIA ESTAR LÁ
– pô galera eu cruzei o campo inteiro pra voltar 😦 — FODA-SE, VOCÊ NÃO DEVIA ESTAR LÁ

Isso praticamente resume minha carreira no futebol. Exceto por um breve período na quarta série. Naquele tempo eu era bola de ouro.

A educação física era sagrada: toda última hora de aula da quarta-feira era destinada à educação física, que, pra crianças de dez anos, era dizer: “seguinte, eu cansei de dar aula, toma aqui uma bola pra vocês se matarem nessa quadra quente como magma e áspera como a barba do caminhoneiro que namorei na década de 70”.

Sério, vocês não tem ideia de como aquela quadra era imprópria pra qualquer esporte. A não ser que o esporte envolva uma quadra feita de lixa, exposta ao sol sertanezino das duas da tarde, um depósito de cadeiras quebradas no canto da quadra e umas trinta crianças se batendo atrás de uma bola muito pouco preparada para rolar.

Dizem que essa aí é a definição do esporte nacional da Guatemala.

Muitos de nós jogávamos descalços, e na maioria das vezes nem bola tinha. Valia latinha de refrigerante, garrafinhas plásticas (a famosa Pitchulinha) ou qualquer objeto capaz de desempenhar movimento. Se dava pra chutar, era bola. E aquele era nosso Maracanã.

Lembrando que eu não recomendo chutar gordinhos. Não mesmo.
Lembrando que eu não recomendo chutar gordinhos. Não mesmo.

A cena naquela quarta era a mesma: os times eram tirados no par-ou-ímpar e eu era um dos últimos a serem escolhidos. Já tava acostumado, nada demais. Bola em jogo.

Todo mundo sabe que quando criança joga bola, não tem posição. Não tem lateral cobrindo subida de volante. Não tem terceiro zagueiro, libero, segundo volante, nada disso. Só tem uma onda disforme formada por crianças brigando por poucos segundos de domínio da redonda. Segundos de ouro.

Uns se destacam. Sempre assim. Geralmente eles eram os responsáveis por formar o time. Os dois melhores jogadores escolhiam o time. Evitar dois caras bons no mesmo time era uma das primeiras lições de equilíbrio que aprenderíamos na vida. Balanço estequiométrico na quarta série.

A rivalidade entre os times, mesmo que nunca fossem o mesmo, era tanta que no outro dia o time perdedor sempre chegava envergonhado. Sua honra ficaria em cheque até a próxima quarta-feira.

Numa dessas quartas, aconteceu algo diferente. Eu, goleiro da vez, via aquela bagunça de longe. Todo mundo no meio de campo, tirando os goleiros. Bolas chutadas, canelas chutadas, até a mãe de alguém seria chutada se estivesse ali no meio. Até que Thiago, um dos caras bons, escapou daquele buraco negro.

Entre ele e o gol, eu. Dada a imensa diferença de habilidade entre nós dois, era praticamente certo que ele marcaria aquele gol. Aliás, seria um puta golaço, afinal Thiago havia driblado não só todos os jogadores do meu time, mas os do time dele também e, se não me engano, driblou uma família de turistas japoneses que passavam por ali. A gente nunca ouviria o fim da zoação se ele marcasse aquele gol.

Entre ele e o gol, alguns metros. Distância suficiente pra todos os jogadores do meu time simplesmente desistirem de correr. A descrença deles em mim era tão grande que não compensava suar aqueles metros a mais só para, no fim, buscar a bola e ouvir a comemoração alheia mais de perto.

Essa é uma das memórias mais intensas que tenho da infância. Mãos rígidas, joelhos flexionados. Tudo o que aprendi nesses programas esportivos de domingo a tarde que ninguém assiste. Eu, do alto do meu corpinho roliço, estava pronto.

Thiago deu mais alguns passos com a bola. Chutou forte, meia altura, canto esquerdo. Meu lado ruim, longe demais pra pegar. Todo mundo ali na quadra já sabia que seria gol. Tenho certeza que já tinha alguém virando o placar.

--- PORRQUE PRRA MIM É ASSIM QUE TEM QUE BATER, FORTE E NO ÂNGULO
— PORRQUE PRRA MIM É ASSIM QUE TEM QUE BATER, FORTE E NO ÂNGULO

Nesse momento, eu pensei “Hoje não“. Saltei. Braços esticados, olhos fechados. Encostei naquela bola com a ponta dos dedos. Caí no chão como uma torta virada pra baixo, uniforme já rasgado, pensando “eu fiz isso mesmo? Eu peguei aquela bola?“.

Na minha cabeça, o salto demorou um século. Os três, quatro metros do gol se tornaram quilômetros. Da hora que pulei até o momento que toquei o chão com a energia cinética de dez bombas nucleares, eu poderia ter cantado uma canção.

Daria tempo de cantar Faroeste Caboclo durante o salto e ainda não chegaria ao chão.
Não tinha medo tal João do Santo Cristo, era o que todos diziam…

Ouvi gritaria. Ainda jogado no chão, imaginei que seria o time comemorando o gol antológico marcado por Thiago. Nem Pelé havia feito um gol daqueles na quadra do Anacleto Cruz. Talvez porque Pelé nunca tenha pisado ali, mas não tira o mérito do moleque.

A gritaria foi chegando mais perto. “Eles vão comemorar em cima da gente.”. Pouco depois, senti um peso em mim. “Seria esse o peso do fracasso?”, filosofei. Era como se um dinossauro tivesse me escolhido como penico e despejado toneladas de cocô pré histórico em cima de mim. Sensação comum, quem nunca?

Acontece que eu tinha pego aquela bola. O pequeno toque que dei nela, em meio ao vôo mais longo da minha vida, foi o suficiente pra impedir o gol e jogar a bola para escanteio.

Eles não estavam me zoando. Estavam me celebrando. Naquele momento, deixei de ser o cone no gol pra ser o goleiro que tinha pegado aquela bola.

eu devia ter comemorado assim
eu devia ter comemorado assim

Não que tenha sido um ato heróico, mas foi algo a ser louvado. Não era comum, pelo menos entre nós, um goleiro se jogar e se ralar inteiro pra salvar uma bola. Eu literalmente dei o sangue por aquela bola. O sangue e o uniforme. Foda-se, virei herói.

O jogo acabou pouco depois, afinal tínhamos muito pouco tempo pra jogar. Durante o resto da semana, nas outras peladas que jogávamos nós recreios, eu continuava no gol. Chega a imundo na sala. Valia a pena.

O melhor aconteceu na quarta-feira seguinte. Lembra que eu disse que eram os melhores jogadores que tiraram os times? Pediram pra que eu e Thiago escolhêssemos.

Curiosamente, naquele jogo eu não fiquei no gol. Portando minha camisa 10 (falsificada) do Corinthians de 98, joguei na linha. O zagueiro deles ficava na minha cola. Se eu atacava, ele estava lá. Se eu defendia, ele estava lá. Eu devia ter ido pro vestiário tomar um banho quente.

TL;DR: eu era ruim de bola, defendi uma bola impossível e virei herói.

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O dia em que eu apanhei de um gordinho na escola

Talvez das maiores mentidas que uma pessoa pode contar é “Eu não me arrependo de nada”.

Pois é. Por mais que você seja daquelas menininhas bonitinhas que saem postando no Facebook que não se arrepende de ter bebido treze doses de tequila na noite passada, vomitado no seu ex (que naquela hora ainda era atual) e tirado a roupa em pleno bar, você tem bagagem pior que isso e se arrepende dela. Essa “bagagem” mudou você, em algum ponto da sua vida.

Todo mundo se arrepende de alguma coisa. Se até aquele soldado badass de filme americano oitentista se remói com fantasmas antigos, o que dirá você, frangote?

Por pior (ou maior) que seja o fantasma que o assombra, esse arrependimento tem um lado bom: servirá de lição pro resto da sua vida. Muitos destes arrependimentos tem origem em decisões tomadas de forma absolutamente equivocada, no calor do momento, como aquela vez que você apelou com o maluco mais gordinho da sua sala, chamou o cara pra briga em pleno intervalo de aula, com o pátio da escola mais lotado que a reitoria da USP em dia de protesto, pagou de gostoso e ainda saiu perdendo vergonhosamente.

Teve aquela vez que você, ao contrário do que todos recomendavam, decidiu vestir seus patins e sair correndo pela rua ensaboada pela combinação das primeiras gotas de chuva e a poeira do asfalto. Os primeiros minutos de adrenalina e diversão deram lugar a horas de dor com seu cóccix fraturado, sendo obrigado a ficar com o rabo engessado por semanas.

Ou ainda aquela vez que você viu uma espinha nascendo e decidiu fuçar o bagulho com uma picareta, dando origem a um vulcão ativo na sua testa a menos de três dias da sua formatura.

Não importa: dez segundos ou dez dias depois, você vai se tocar de que fez merda. No meu caso, foram dez anos.

Eu sou menino criado com a avó, mas crescido em escola pública. Desde pequeno, nunca fui aquele cara que impõe respeito ou que fica fazendo sacanagem com os outros só pela diversão. Eu ia pra escola pra estudar e jogar futebol, apenas isso.

Mas estudar em escola pública e não saber se defender é como entrar em um bosque cheio de ursos e não saber usar um lança-chamas: você vai morrer. Dessa forma, minha tática foi sempre a mais malandra possível: dê a eles o que eles querem e eles te deixarão em paz.

Na segunda série, existia esse cara chamado DON VITO DO SERTÃO (preciso dizer que o nome é falso?). Mais velho, mais forte, mais perigoso. Era o terror da turma da tarde. Todo santo dia DON VITO chegava bem maroto pra miguelar meu lanche, quase sempre um salgadinho do Cascão, e todos os dias ele dizia a mesma coisa:

– Se alguém mexer com você, fala comigo.

vem na minha casa, não me trás nenhum presente...

Eu tinha oito anos e já era protegido pela máfia. Não existem muitas ameaças de verdade na segunda série, portanto DON VITO nunca me foi útil naquele colégio. Mas eu aprendi o truque.

Os perigos que a quarta série não tinha, na quinta e sexta tive aos montes. Da quinta até a oitava série, convivi com pessoas que claramente eram influenciadas pelo lado vida-loka da força. Bandidinhos, aspirantes a marginais, projetos de traficantes, essa é a vida no sistema público de ensino de São Paulo.

E graças ao sistema de protecionismo quase mafioso de DON VITO, aprendido anos atrás, eu sobrevivi aos onze anos de ensino na rede pública. Ameaças não faltavam, principalmente dos próprios caras que me protegiam. Mas, fazer o quê? Se você não coopera com o sistema, o sistema se volta contra você.

Àquela época, salgadinho não era mais o suficiente pra salvar minha vida. Era preciso mais, era preciso fornecer algo que eles não tinham e eu tinha sobrando: inteligência. Não tirando os caras, mas nem todo mundo ia pra escola porque queria aprender. Assumi o posto de “nerd-bro”, aquele cara bacana que faz as parada pra todo mundo, e nunca apanhei na escola.

Até o dia que eu quis cantar de galo.

***

Aquele 2002 foi um dos anos mais bizarros da minha vida. Eu “”namorei”” (sim, entre aspas quádruplas) uma patricinha que hoje é tatuadora e pin-up, virei vizinho de um monte de bandidagem gente boa do dia pra noite (inclusive tendo problemas por causa disso, outro dia contarei), fiz grandes amizades e perdi algumas também. Aquele ano meio que “moldou” quem eu iria ser, ou quem eu não iria ser nos próximos anos.

Minha sala tinha figurões. Alguns caras eram do alto clero da bandidagem, outros eram gente boa, e outros tenho amizade até hoje. Só que a diversão é muito maior do lado do capeta: eu me fazia questão de me enturmar e zoar mais com o lado negro da força.

E existiam os neutros. Dentre os neutros, tinha um cara chamado TOBIAS (nome obviamente trocado pro nome mais escroto que consegui pensar, para evitar possíveis ameaças de morte. Se bem que não é preciso um GÊNIO pra triangular os fatos e chegar até mim).

TOBIAS era um cara… diferente. No auge dos seus 12 anos, ele possuía uma massa corporal um pouco mais avantajada do que o resto do pessoal. Um exemplo clássico de obesidade infantil, TOBIAS beirava os 120 quilos. Era o mais próximo de um boneco da Michelin que eu já havia visto na vida.

Sem zoar, o mlk era praticamente assim mesmo

Vou ser sincero, eu nunca gostei dele. Não tinha nada a ver com o fato dele ser gordo, mas porque ele era chato, desagradável. Sendo ainda mais sincero, era mais difícil ainda ficar perto de TOBIAS em dias quentes ou depois de uma partida de futebol na quadra, sob o sol escaldante da Marrocos brasileira. Era um pouco de preconceito, sim, porque todos somos preconceituosos. Mas ele era mais chato do que gordo.

No intervalo, que ainda era chamado de recreio, costumávamos nos entregar ao prazer milenar do jogo de cartas mais famoso do sistema educacional brasileiro: o Truco.

Neste dia, em especial, acabávamos de sair da educação física, suados e cheirando a macho (TOBIAS cheirava a TOBIAS). Não feliz em ter sua aura sendo compartilhada por todos nós, TOBIAS começou com brincadeiras idiotas, como contar nossas cartas ao adversário, ou derrubar o baralho no chão.

Eu sou um cara tranquilo, nunca havia brigado na vida. Claro, havia brincado de lutar mas era brincadeira de criança, brigar com amiguinho na rua e tal. Arrumar briga na escola era algo tão saudável quanto enfiar o próprio pau num formigueiro. Pra mim, aquele discurso de que “violência gera violência” vale até hoje, e sentar a mão em alguém era algo completamente fora do meu universo.

Só que naquele dia eu tinha acordado com a macaca. Alguns ainda dizem que briguei pelo excesso de coragem que a presença daquela namoradinha (estranha) no mesmo banco, mas não me lembro dela na ocasião. Sabe-se lá porque, eu fui excessivamente agressivo com TOBIAS:

– Gordo, pára.
– Para com que? – seguido de mais uma provocação, derrubando as cartas.
– Gordo… pára, Gordo….
– Você não vai parar?
– Não tô fazendo nada!! – e continuava me trollando.
– Ahhh filho da puta…

… e foi quando meu lado covarde veio à tona. TOBIAS, pra mim, era indefeso. Era um gordo chato que jamais tinha lutado na vida. Eu era moleque de rua, já tinha batido em metade dos meus amigos e apanhado de outra metade.

De todas as pessoas da minha sala, o mais vulnerável era ele. Sempre zoado, sempre excluído. Na minha cabeça, TOBIAS era um cara tão perdedor que só de querer brigar com ele, eu já sairia ganhando.

Essa certeza de que iria vencer me subiu à cabeça. Naquele momento reuni toda minha arrogância e meu preconceito, somei ao ódio repentino e concentrei tudo em meu pé direito, também chamado de PATA FURIOSA DO URSO POLAR.

Foi quando que me levantei, e no auge da minha fúria, concentrei toda aquela energia em um só golpe, certeiro como sempre.

E ele não sentiu absolutamente nada. 

VOU TE COMER VOU TE COMER VOU TE COMER

Se você teve uma infância feliz, já viu essa cena. Goku lutando contra Majin Boo, o gordo. Goku, já na sua forma super Saiyajin 3, desfere dúzias de golpes violentíssimos no gordo rosado, que só os absorve. Os golpes ainda faziam um barulho engraçadinho, o que aumentava a humilhação.

As camadas extras de gordura de TOBIAS funcionavam melhor que Kevlar. Na conta, foram os dois chutes mais fortes que já dei na vida e uma voadora que faria o Liu Kang se inscrever na escolinha de voadora de novo.

Era surreal demais. Ali, no meio da briga, meu cérebro teve tempo pra lembrar de Goku apanhando de Majin Boo – e era exatamente a mesma cena que acontecia naquele momento. Tudo o que eu fazia era simplesmente ignorado, e TOBIAS nem fazia questão de me agredir, mesmo porque qualquer golpe dele, naquele momento, era absolutamente desnecessário.

O humilhado ali era eu, exatamente por apelar para a violência. E mesmo no meio da briga, eu dava razão a ele.

Lembra do gordinho Zangief? Se aquele vídeo tivesse passado na TV Globinho dez anos atrás, eu jamais levantaria a mão para TOBIAS.

TOBIAS desferiu apenas um chute. UM CHUTE com uma perna direita tão pesada quanto um filho de baleia jubarte. Você aí, brigão, já levou uma baleia jubartada na vida? Eu já, e foi o suficiente pra aprender a lição.

Eu poderia até “sair vitorioso” da luta, embora não saiba o que “sair vitorioso” signifique quando se trata de uma briga no pátio da escola, eu ali era o perdedor. Foi o auge da minha babaquice. Nunca na minha vida eu havia sido um cara tão idiota, e espero nunca mais voltar a ser. TOBIAS era o vencedor ali só por não retrucar – mesmo porque, se o fizesse, eu provavelmente não estaria aqui para contar essa história.

Tudo aquilo durou muito menos de um minuto. Em menos de um minuto, passei a maior vergonha da minha vida (até aquele dia), e hoje levo não menos que meia hora pra contar tudo o que aconteceu.

Agora é uma vida inteira pra me arrepender de ter brigado com a única pessoa que eu julgava ser capaz de derrotar na porrada. Foi preciso passar vergonha na frente da escola inteira pra nunca mais arrumar uma briga na vida.

Hoje, antes de dizer “eu não me arrependo de nada”, eu lembro de TOBIAS e sei que já fiz muita merda nessa vida. Me arrependo, por exemplo, da época que eu só vestia preto e me achava o maior roqueiro do mundo. Me arrependo de ter trocado meus amigos do mundo real por horas e horas de Ultima Online no auge da adolescência. Me arrependo de muita coisa.

Mas, quer saber? Faria de novo. Se um dia meu filho passar pela mesma situação que eu, vou torcer pra que aconteça a mesma coisa.

Brigue, filho. Brigue bastante, e saiba que estarei torcendo pra que você apanhe como um cachorro de rua. Assim tu vai criar vergonha na cara e entender que descer a mão em alguém é a coisa mais babaca que alguém pode fazer – mesmo que a outra pessoa mereça muito.

Encontro do conhecimento com a oportunidade

Que o mundo tá cheio de coisas ruins, todo mundo sabe. Coisas ruins pra caralho. Tem gente jogando criança da janela. Eu acho que jogar crianças deve ser mais divertido que jogar ovos, conforme dito aqui eras atrás. Deve ser tão legal quanto arremessar um gato do vigésimo sétimo andar.

Pessoas assim são presas, pagam por seus pecados. Mais do que justo. Pessoas boas vão sofrendo com os infortúnios do infame acaso. Eu me considero uma pessoa boa. Nunca joguei criança de janela.

Eu, por exemplo, estou passando por uma maré de azar infinita. É como se Deus inundasse toda a superfície do planeta com gasolina. Dá pra nadar, até. Então Deus, que é um cara maroto, risca um palito de fósforo divino e o arremessa em direção ao oceano inflamável no exato momento que eu alcanço terra firme.

Como se não bastasse as moléstias das últimas semanas – virose, o dente do siso, o pé na bunda – acontecem pequenas catástrofes que fazem tudo piorar. Não vou negar que estou numa fase emo e passando por dias seguidos de fossa profunda. Eu sei que não combina e tal, aliás minha vida pessoal não é das mais interessantes, mas é verdade. Tem dias que não dá vontade de sair da cama – embora eu tenha a consciência de que ocupar a cabeça é necessário. É como eu sempre digo: cabeça vazia é o Photoshop do diabo.

Um pequeno probleminha aconteceu com o curso de inglês da minha irmã. Algo que eu nunca pretendia ter dor de cabeça, mas acabou se transformando num beliscão no mamilo que me perturba todo mês, depois do dia 20. O problema é que eu passei seis cheques pré-datados – nem sei pra que são, provavelmente parcelas da matrícula – para todo dia 10 de cada mês.

O setor financeiro dessa escola de idiotas, digo, idiomas, deve ser formado por profissionais tão preparados quanto homens das cavernas. Os documentos devem ser talhados à pedra, quando não desenhados na parede utilizando-se de tinta feita de sangue de macaco e raízes. A locomoção deve ser feita através de mamutes, já que sempre atrasam vinte dias pra depositar um cheque. A matemática no entanto é avançada: se você tem seis cheques para serem descontados em seis meses, você pode depositar um por mês ou depositar dois de cada vez.

Poupa tempo, poupa mamute. Tem como ser melhor que isso?

Na quarta-feira, 2, ciente de que ainda não haviam descontado nada e que havia contas a pagar, depositei R$ 250 reais em minha conta. Vou dizer que “não é muito, mas é o necessário” pra você não pensar que eu sou um pobre fodido que junta moedas dos trocos das calças dos seus tios pra trocar no final do mês. Então, não é muito mas é o necessário pra pagar tais contas. Depositei e fiquei um pouco mais tranquilo. Dinheiro na minha mão é dinheiro gasto com pão-de-queijo e Coca-Cola, pelo menos no banco está protegido.

A questão é que depositaram dois cheques no dia 1° de abril. Claro, só podem estar de sacanagem com a minha cara. Fui Rick Rolled na vida real. Quando fui tirar um extrato, esperando um trocadinho sobrando pra comprar um jornaleco pela manhã, descobri não só que haviam feito tal cagada em minha conta como me fizeram ficar DEVENDO.

Vamos às contas. Eu não tinha nada no banco no dia 1°, me tiram 250. Meu cheque especial cobre 210, então os outros 40 são cobrados em forma de TARIFA DE EXCESSO. Eu nunca entendi porque chamam cheque especial de especial. Tratam isso como se fosse uma coisa boa. Porra, tu usa o tal do cheque especial só quando fica extremamente na merda. Eu nunca usei e quando preciso fico devendo 40 conto?

Engraçado que minha queria avó me emprestou 20 malandros pra emergências. Comi pão de queijo e Coca-Cola no curso, olha que beleza. Com direito a reação em cadeia: um imbecil derruba uma garrafa de água, que bate na lata de Scrwherpeps, que vira praticamente em cima de mim, que tento desviar, tombo a cadeira e me safo de uma queda no meio do pátio da faculdade através de um sopro divino, que entortou a perna de plástico da cadeira o suficiente pra manter minha dignidade. Seria divertido cair e todo mundo rir da minha cara. Eu me divertiria mais que eles, com certeza.

Porque minha filosofia no momento é essa: uma vez na merda, não tem graça sair dela sem chafurdar um pouco.

***

Se eu interpretar isso como má sorte, é só mais uma posição a mais na minha playlist. Eu nunca participei de promoções por algo que pode se considerar uma mistura de desânimo com descrença.

É, de fato, difícil encanar meu lado racional quando este me impede de tomar decisões do tipo “vou comprar este número de rifa”. Ou de qualquer tipo de promoção, sorteio, leilão ou venda de escravos depois da má sorte que me acometeu quando ainda era um gordinho roliço e rosado.

Ainda na segunda série, no auge dos meus oito anos, a professora fez uma rifa de um objeto de valor inestimável: um pano de prato bordado. Como se fosse o velo de ouro das histórias que eu não lembro o nome, eu estendi meu braço curtinho a uma velocidade supersônica – testemunhas dizem que atingi Mach-2 naquele momento. Sabe-se lá porquê, mas eu comprei a rifa daquele… pano de prato branco. Eu realmente não lembro nenhum motivo, simplesmente aconteceu.

Fato é que eu competia com apenas mais uma pessoa na rifa. Afinal de contas, quem PAGA 2 malandros pra CONCORRER a um PANO DE PRATO? Quando se tem oito anos, na minha época, 2 reais era dinheiro suficiente pra proporcionar os maiores prazeres aos quais uma criança tem acesso. Elma Chips e chicletes underground com tazo, bolinhas de gude ou linha de pipa de quatrocentas jardas estavam nesta faixa de preço e a alegria que você tinha em escolher seu alvo dependia da modinha da rua.

Não sei quem falhou miseravelmente: Eduardo, o outro concorrente, que levou o prêmio máximo e fez a alegria de sua mãe; ou eu, que não ganhei absolutamente nada.

Hoje eu sei que grandes merda ele ter ganhado o pano de prato, aliás todo pano de prato é viado mesmo.

Anos Incríveis: A Caixinha de Surpresas

Eu tenho três paixões que me fazem acordar todos os dias na esperança de não me jogar na frente de um trem em movimento. Eu poderia citar aqui “famílias, amigos e Godzilla”, mas pareceria simples demais e não haveria como sugar a sua atenção para o restante do post.

Enquanto não estou vendo Godzilla pela décima oitava vez ou observando as mulheres deste planeta, eu provavelmente estou apreciando uma boa partida de futebol. Grande parte destas partidas têm valor nutricional cultural próximo a zero, se você aplicar uma escala que vai de 0, caracterizado por uma partida válida pelo campeonato húngaro de futebol a 14, relativo a uma maratona de filmes alternativos do cinema iraniano.

Dentro de campo, eu posso dizer com toda a certeza do mundo que fui dos piores. Sempre tentei praticar um bom futebol e sempre falhei miseravelmente em todas as tentativas. Minha incursão no esporte bretão aconteceu ao mesmo tempo em que eu largava a mamadeira – o que me faz pensar que, se o futebol me fez largar da mamadeira, estaria mamando até hoje caso vivesse no Suriname.

Depois de anos de sofrimento ao ser sempre o último escolhido nas pelejas escolares, tomei a atitude mais correta da minha vida: era hora de experimentar novos ares e aprender com quem sabe ensinar. Passei então a freqüentar a gloriosa Escolinha de Futebol da Quadra do Zico. O Zico, no caso, era o dono da Quadra, grande metalúrgico, que nas horas vagas fritava salsichas empanadas com solda quente e coliformes fecais.

A Escolinha do Zico era a mais gloriosa escolinha a meu alcance. Jamais iria atravessar meia cidade duas vezes por semana para correr atrás de uma bola dura e pesada por duas horas semanais. O conforto da quadra suja e desgastada do Zico era o suficiente para aprimorar meu futebol-arte adormecido. O que me ajudou a ter me conformado com tal escolha é que Rocky, aquele boxeador que aparece às vezes no Corujão, se tornou o melhor de todos socando pedaços de carne congelada.

Meus amigos me chamavam de Caixinha de Surpresas por dois motivos. O primeiro é que eu utilizava minhas técnicas ninja, nas devidas proporções de um garoto roliço e rosado de 8 anos, para aparecer do nada e não fazer merda nenhuma. O segundo é que eu tinha espasmos de craque, assim como Gohan se tornava o guerreiro mais forte quando não estava enchendo o nosso saco.


Gohan tem uma espada, no entanto a Deusa Atena proibiu os Cavaleiros de usarem armas brancas.

Carlinhos, o treinador, tinha o melhor emprego do mundo: ensinar a criançada a jogar futebol. Isso, convenhamos, no Brasil se torna uma tarefa tão complicada quando ensinar um cachorro a latir ou um gato a miar. Dar uma bola para doze moleques correrem atrás como se fossem zumbis atrás de um pedaço de carne fresca enrolado com bacon e cenouras no seu interior. Zumbis não comem cenouras, aliás nem eu como cenoura, mas a gente também não comia a bola.

Entretanto minha passagem pela gloriosa Quadra do Zico foi curta. Em no máximo três meses, fiz pouco mais do que treinos físicos, táticos e jogatinas desenfreadas do mais belo futebol de salão. O treino físico era simples: alongamentos que eu não conseguia fazer, abdominais que eu não conseguia fazer, flexões que eu não agüentava repetir mais que duas vezes e corridas ao redor da quadra que eu abandonava no final da primeira volta. Acredite: a distância entre a ponta do seu braço e o seu dedão do pé pode se tornar muito grande quando se tem oito anos e o máximo de atividade física que você praticara até então era correr até a casa do seu amigo dizendo que havia zerado Super Mario World.

O treino tático se resumia a duas coisas: apontar e atirar. Se Carlos nos desse canhões e pólvora negra ao invés de bolas coloridas de borracha para acertarmos o gol, quase sempre protegido por Igor, o Índio, teríamos nos tornado pessoas melhores. Creio que durante o pouco tempo que participei dos treinos, a programação mudara somente uma vez. Certa vez tivemos a árdua missão de driblar um ou dois cone e, claro, chutar a gol. Creio que os canhoneiros não tinham que driblar cones antes de atirar nos navios inimigos.

O resto dos treinos era praticamente “bota uma bola no meio da quadra que eles saem chutando”. Minha melhor posição era perto do gol. Do meu gol. Ali eu adquiria alguns bônus de território e me tornava um jogador mediano. Incansável na medida do possível, fazia poucas faltas e não me metia a fazer jogadas de efeito – mesmo porque não era capaz de fazer nada mais plástico do que acertar a parte menos nobre daquele objeto redondo que fica rolando com o bico reforçado de minha chuteira Topper.


Em tempos onde acham o Valdivia craque, eu é que queria apanhar pra me chamarem de craque.

Disputei apenas um jogo “oficial”. Na verdade era um amistoso contra uma escolinha que existia há pouco tempo, chamada Society. O jogo seria no campo deles, e era na categoria Mirim. Não me lembro a média de idade dessa categoria, mas se eu tava no meio era pra ser entre 9 e 10 anos, por aí ó. Jogaríamos no campo adversário e contra a torcida, formada por pais e alunos frustrados por não terem conseguido vaga no time.

Quando Carlinhos me escalou como titular, me senti uma estrela do Rock. Tanto que vesti meu calção ao contrário e fui para a quadra, sem me tocar. Já dentro de campo, fazendo aquecimento, reparei que algo estava errado e corri com a graça de uma gralha depenada até o vestiário, para corrigir a primeira falha do jogo – aliás a única minha.

Depois de tudo acertado do nosso lado, a equipe adversária finalmente chega. Imagine você reunir todo o jardim de infância de um colégio particular, crianças lindas, fofas e rosadas para enfrentar doze cavaleiros medievais com armaduras e armas pontudas do mais duro ferro. Foi exatamente assim que nós nos sentimos. Haviam escalado o time juvenil – leia-se brutamontes que naquela altura já haviam cultivado pêlos pubianos, privilégio que nossa idade não permitia. Tínham quase o dobro de nossa altura, o que prejudicaria bastante a legendária tática do chuveirinho, que consiste em chutar a bola em direção à área e torcer para que ela bata na nuca de um atacante desatento e ultrapasse a linha das traves.

Tive uma atuação apagada, talvez graças à grande – em todos os sentidos – marcação que recebi. Inclusive, um dos titãs encarregados de evitar que eu produzisse alguma coisa me acertou com o golpe mais terrível que todos os planos dimensionais existentes na física quântica somados são incapazes de medir a imensidão da dor: a PAULISTINHA. Imagine um elefante enfiando sua enorme presa de marfim por entre os músculos de sua panturrilha e multiplique isso pelo número de átomos de hidrogênio presentes no universo. Taí, eu desafiei a física quântica e dei a exatidão da dor causada por uma paulistinha bem aplicada.

Aliás se você simulasse um jogo de Tetris usando a quadra e os jogadores, nosso time seria a pecinha falsificada de um quadradinho, enquanto os adversários eram blocos de oito por oito, então dá pra imaginar o tamanho da brincadeira. O mais engraçado era que eles jogavam com uma raça descomunal, como se suas almas tivessem sido penduradas no chaveiro de seu técnico, que era ninguém menos que o próprio Belzebu.


Eu fiquei com o cu na mão no final do filme :

Igor, o índio, que estava apenas como espectador naquele jogo, foi convocado por Carlinhos, o treinador, para reforçar o time. Igor era um pouco mais velho e mais parrudinho que todos nós e provavelmente havia sido benzido pelo pajé de sua tribo poucas horas antes, pois fez uma partida espetacular. Certo que perdemos aquele jogo por doze tentos a zero, mas jogando praticamente sozinho, o nosso papa-capim evitou um vexame ainda maior.

Não que doze a zero tenha sido um resultado digno, mas se eu fosse a uma guerra com seis homens desarmados e enfrentasse uma legião de samurais e voltasse vivo, teria ficado orgulhoso. Quem sabe uma medalha?

Medalha é sempre bom.