Sobre mendigos, iogurte e as cabeças de pedra na Ilha de Páscoa

Nos últimos dias, um fenômeno curioso tem ocorrido nos arredores da minha residência. De um dia para o outro, a quantidade de gente pedindo dinheiro ou comida na minha casa aumentou significativamente. Em dias comuns é um por dia, no mínimo. Ultimamente, tem sido três ou quatro pessoas pedindo “um trocado pra viajar pra uma cidade próxima” todos os dias.

Eu sempre dou. Eu já perdi a conta do número de adesivos O SENHOR É MEU PASTOR que comprei nos últimos meses, ou de adesivos com aquela formiga idiota que é mascote dos evangélicos, ou de adesivos brilhantes de cachorrinhos. É tanto adesivo que vai faltar janela pra colar tudo. Muitos deles vão parar no lixo. Os outros ficam jogados no meu carro por semanas, até eu me lembrar de jogá-los no lixo também.

Tem que ter muita força de vontade pra não sair colando nos carros dos outros.
Tem que ter muita força de vontade pra não sair colando nos carros dos outros.

Quando o pessoal pede comida lá em casa, eu sou solidário. Precisa se estar em uma situação muito cruel pra pedir comida em casa de desconhecidos. Vai saber o que nego andou colocando naqueles lanches. O que impede alguém de colocar laxante na comida dos caras? Se bem que laxante não vai ser problema: se eles mal comem, não vão ter o que cagar também. Eu ficaria mais feliz de comer uma feijoada com laxante do que comer aquela droga de sanduíche de iogurte que um gordinho me deu na quarta série.

Nunca contei essa história? Bom, vamos lá.

É difícil não se sentir o maioral quando, numa escola que ia até a quarta série, você estivesse na quarta série. É como ser o formando do seu curso na faculdade: você se sente como se todos tivessem a obrigação de te receber com trombetas e carpetes vermelhos em todo lugar que entra. Mesmo sabendo que a vida não é assim, gosto de pensar que um dia foi.

Na quarta série, eu escrocava (do verbo das ruas “escrocar“, se aproveitar de algo que não é seu apenas pelo prazer de ser um cusão) lanche de um gordinho da segunda série. Eu não conhecia o cara, não fazia a menor idéia de como isso começou. Eu simplesmente cheguei e pedi um pedaço de algo num dia. No outro, fiz o mesmo. Daí nasceu uma profunda e bela amizade fundamentada exclusivamente na qualidade do alimento que ele podia me fornecer naquele dia.

Na segunda, salgadinho do Cascão. Na terça, um lanche de atum. Na quarta, uns biscoitos recheados. Na quinta, o jogo virou. Cansado da ingratidão do veterano e do consecutivo abuso do seu espaço pessoal, sem falar do pedaço ridiculamente grande que ele perdia do próprio lanche, IGOR resolveu revidar.

Nada de lanches deliciosos, frutas fresquinhas ou alimentos industrializados com níveis de açúcar suficientes pra tornar menos amarga a vida daquele seu tio que mora na floresta culpando o governo por tudo. Não, naquela quinta IGOR preparou algo diferente pra mim. Algo que me faria parar com a escrocagem pra sempre.

Naquela quinta-feira, pedi um pedaço do lanche a IGOR. Ele, já saboreando o doce néctar da vitória de forma passivo-agressiva, não hesitou e já tirou um sanduíche a mais da lancheira. Não perguntei o que era. Como um leão abocanhando o pescoço de uma zebra na savana africana, mordi aquele sanduíche sem dó. Doce, doce arrependimento.

IGOR realizou a vingança mais maquiavélica que já vi na minha vida. Ao sentir o sabor peculiar do sanduíche oferecido, eu o questionei.

— Que porra é essa?
— Pão com iogurte.

Pão com iogurte. A raça humana demorou cem mil anos pra descer das árvores e criar coisas como a internet, o ônibus espacial e a torradeira elétrica (nessa ordem crescente de importância). Nos asseguramos no topo da cadeia alimentar, mesmo sendo mais fracos, menores e infinitamente menos inteligentes que os macacos.

Se colocássemos numa sala Hitler, todos os vilões dos filmes de James Bond e todos os inimigos do Chapolin, tenho absoluta certeza de que sequer seria mencionada a ideia de colocar iogurte entre dois pães de forma. Teríamos máquinas capazes de destruir todo o Universo, mas jamais algo tão… simples. Tão elegante. Tão eficaz. Eu não terminei de comer aquele lanche. Também não voltei no outro dia. Naquela quinta, IGOR havia me derrotado quase sem esforço.

De quebra, IGOR ainda me deu uma lição de humildade: se a vida anda te batendo na cara sem motivo, coloque iogurte no pão de forma e ofereça a ela. Imagina quantos conflitos mundiais seriam evitados se houvesse mais iogurte em mais pão de forma.

***

Há duas explicações para acontecimentos que se repetem por dias: ou há algo muito organizado por trás, ou algo muito caótico. OK, talvez o fato de morar a alguns quarteirões da rodoviária intermunicipal da cidade tenha uma relativa contribuição a esse número de gente pedindo dinheiro. Mas entre esta rodoviária e minha casa existem outras dezenas de casas. Porque só a minha?

Desconfio de que há algo organizado por trás. Precisa ter, é assim que as coisas funcionam. Pensando muito a respeito, acho que comecei a desvendar a verdade por trás disso. Existe apenas uma resposta:

Existe alguma espécie de rede de troca de informações entre pedintes. Um submundo onde a informação se move mais rápido que camelô correndo da polícia em dia de arrastão.

Deve haver uma espécie de grupo de whatsapp de mendigos, onde eles informam uns aos outros das localidades propícias à mendicância.

whatsapp mendigo

Ainda existe a possibilidade de existir uma rede social de pedintes de rua. Um lugar mágico onde eles não só fazem novas amizades, como compartilham informações indispensáveis pra vida de quem não tem CEP.

mendibook

Mendibook é a socialização entre os menos sociais. É a inclusão da camada mais baixa da sociedade na rede mundial de computadores. É através desta rede social que os mendigos se comunicam entre si e se avisam de que na minha casa sempre vai ter dois reais e um sanduíche de pão de forma.

Agora, se você me dá licença, tão batendo aqui na porta. Hora de fazer um sanduíche. Onde está aquele tal iogurte?

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Sobre o canto do cisne e as Cabeças de Pedra na Ilha de Páscoa

Essa é a hora em que eu peço pra que você pare exatamente tudo o que está fazendo. Cancele os downloads, desligue a televisão. Pause aquele pornô alemão envolvendo mulheres que já foram bonitas uns vinte anos atrás jogando graxa industrial umas nas outras e lambendo.

Pare e preste atenção no que eu vou dizer. Essa vai ser uma longa história.

Segundo pesquisas desenvolvidas pelos cientistas da Faculdade Odair Deodato Abreu, do Sergipe (FODA-SE), os cientistas não estão desenvolvendo nenhuma pesquisa no momento. Foram precisos dez anos e quinze milhões de dólares de investimento para descobrir que todos eles passam suas tardes vendo memes e compartilhando promoções de Facebook.

Já segundo o INPI, Instituto Nacional de Pesquisas Incompletas, 50% do público entrevistado disse que. Já 23% confirma que. Apenas 12% não. São dados bastante conclusivos.

Sabe, eu costumava abrir meus textos de forma teatral e exagerada. Demorava três parágrafos pra começar a falar de algo específico. Eu me divertia mais cunhando esses três parágrafos do que fazendo o resto do texto.

Inícios são complicados. É falado mundo afora que o primeiro passo é o mais importante. Eu digo que não é. Pra mim, o segundo passo é muito mais importante que o primeiro. Se começar é difícil, continuar algo é a mais nobre das artes.

Foi difícil começar o OJ. Aos 14 anos, auge da minha babaquice, tive um blog onde escrevia besteira e postava fotos. Eu me dizia grunge, me vestia como um bóia fria e era revoltado com a vida (se é que um adolescente de classe média-baixa pode ser revoltado com alguma coisa na vida). Aquele blog não durou.

Aos 14 anos, fui jogado em um mundo completamente diferente do meu. Saí de um lugar onde eu me sentia estranho por ser diferente e fui jogado num lugar onde eu me sentia estranho por ser parecido com os demais. Por falta de referências pessoais, criei uma personalidade (muito babaca, não canso de falar) pra conseguir sobreviver. O Raphael de 14 anos odiava tudo. O Raphael de 14 anos durou uns 5 anos.

raphs
Precisa dizer alguma coisa?

Conheci o Faz Sentido e o Hoje é um bom dia. Comecei a idolatrar os caras, o que me encorajou a começar a fazer textos de verdade. Em 2005, comecei a escrever no Loompas, blog colaborativo que já não existe. Meu primeiro texto foi “Países idiotas: Dinamarca”. Era surpreendentemente bom.

Então chegou o OJ. Em 27 de Outubro de 2005, criei o OJ pra lidar com esse “demônio interior”, pra botar pra fora as coisas que nunca tive espaço pra dizer nas rodinhas que frequentava. Por muito tempo, o OJ foi só um blog “de humor”, mas o foco foi mudando.

A “zoeira” – como eu detesto escrever essa palavra hoje em dia – dos posts deu lugar à indignação. Escândalos nacionais, assassinatos de repercussão e praticamente tudo o que aparecia na mídia virava texto em questão de minutos. Depois horas, depois dias. Isso tem um motivo.

Escrever um texto pro OJ é extremamente complicado. Eu não tenho dificuldades em escrever, na verdade é bem natural pra mim. Não perco tempo corrigindo, não fico me dando tempo para vaidades ou pra procurar sinônimos melhores pra embelezar o texto.

Mas, de longe, a pior parte é começar. Pra escrever essas coisas, eu preciso ficar num estado… diferente. Eu fico focado, adquiro uma espécie de “tunnel vision”, parece que fico desligado do mundo. A parte realmente ruim é que eu fico muito, muito nervoso. Esse nervosismo tem um preço.

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Com o passar dos anos, fui escrevendo menos porque eu sei como é extremamente cansativo. Eu sinto essa tensão se espalhando pelo corpo – as costas doem, os olhos ficam ressecados por piscar menos. A cabeça fica pesada, cansada. Eu fico irritadiço. Aliás, é incrível ver como uma repentina mudança de humor tem efeitos físicos tão notáveis em mim.

Esse é o primeiro (e menor dos) motivos que me faz escrever menos pro blog.

O grande motivo é porque… bom, eu mudei. Não digo que cresci, mas mudei. Não sou mais aquele cara que odeia o mundo, que tem mil coisas a reclamar do menor dos problemas.

A raça mais desgraçada da internet hoje em dia são os haters – aqueles caras que odeiam tudo e passam o dia inteiro tretando em redes sociais ou criticando cegamente trabalho alheio. Olhando pra trás, e vejo que eu era assim. Esse blog já foi assim. O Odeio e Justifico era, na realidade, um antro de ódio cego a mil coisas que eu não fazia ideia do que eram.

Talvez o primeiro grande texto de repercussão no blog foi o do Kurt Cobain, onde eu escrevi uma sequência de pontos válidos mas pouquíssimo embasados sobre uma das figuras mais importantes do rock nos últimos vinte anos. Hoje eu me sinto um IMBECIL por ter falado mal do cara.

Ainda na música, falei mal do Cazuza. Isso me custou caro, afinal uma amiga leu o texto e ficou extremamente chateada comigo. Foi a primeira vez que algo que fiz aqui impactou minha vida pessoal – e foi ali que eu comecei a assinar como Raphs, não mais como Raphael. Eu precisei criar um personagem pra me justificar, e desde então é esse personagem que escreve aqui.

Mas todo mundo se cansa de viver o mesmo personagem.

Outro texto que me trouxe problemas pessoais foi a Crônica do Cascão, que ironicamente é um dos textos que mais gosto no OJ. O texto serviu de catalisador em meio a uma confusão de sentimentos, mentiras, coisas e pessoas que sobressaíram o pessoal e abalaram até minha vida acadêmica e o profissional. Mesmo assim sinto orgulho de ter escrito aquilo até hoje – mais ainda de saber que muita gente se identificou.

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O melhor amigo que se pode ter, desde 2010

Eu sempre soube que eu tinha uma arma poderosa nas mãos: a palavra. Ter esse poder em mãos me fez ser ainda mais cauteloso com o blog. Não à toa, a Crônica do Cascão foi o último texto com contexto tão íntimo que escrevi.

***

Com toda a modéstia do mundo, existiram alguns textos geniais por aqui também. Os Blackstreet Boys, os Animais mais Perigosos do mundo, o texto sobre as Cigarras… Mais recentemente, o Como tirar fotos de churrasco também foi muito legal. Além de, claro, meu favorito, o post do Celso Portiolli – que me trouxe uma treta com a Desciclopédia. Acreditem, vocês não querem lidar com o povo da Desciclopédia.

***

Hoje penso que não se pode confiar em quem sorri ou reclama o tempo todo. Ninguém é feliz vinte e quatro horas por dia, e ninguém tem a vida tão desgraçada que precisa reclamar dela a cada minuto. Quem convive comigo sabe que eu reclamo sim, e muito, mas sempre de forma a fazer piada, provocando um sorriso de canto de boca em alguém.

Que convive comigo sabe da minha necessidade patológica de fazer piada com praticamente tudo. Sabe que eu sou especialista em fazer humor de mim mesmo. Eu sou o principal responsável pela má publicidade feita a meu respeito.

Não tenho mais interesse em fazer justiça na internet. Não tenho mais saco pra lidar com “movimentos sociais” ou pra quem tenta cagar regra na internet, principalmente gente que julga o que você PENSA como certo ou errado.

Nas últimas duas semanas, tivemos aquele maluco que levou tiro por roubar a Hornet do cara, as manifestações contra o pré-sal, o roubo dos beagles e outras tretas nacionais – coisa que geralmente viria parar aqui na hora – e eu não tive o menor tesão de começar a escrever. Justamente por saber o que se seguiria: um monte de gente discordando do que eu penso ou do que escrevi.

Eu simplesmente não tenho mais saúde, saco ou paciência pra lidar com aquela galera que vai contra o que tu fala por esporte. Ou que faz isso só pra te irritar.  Também tem aquela galera que ataca tudo o que tu gosta, só pela “zoeira sem limites”.

Por exemplo, quando pensei em escrever esse texto, pensei em chamá-lo apenas de “O Canto do Cisne”.

Pra quem caiu do bercinho quando era criança, eu explico. Existia uma crença de que o cisne branco fosse completamente mudo durante toda vida, mas que é capaz de cantar a mais bela das canções antes de morrer.

Se eu falasse sobre isso, logo apareceria um idiota carregando mil argumentos internéticos dos três primeiros sites do Google dizendo “cara como você é burro, nada a ver isso aí, já foi provado que eles cantam bla bla bla a zoeira não pode parar”. Pouco se fodendo pra licenças poéticas, o cara quer ser o campeão da internet e se sente por me provar errado.

Hoje eu sei que se eu postar que eu gosto de fazer sexo com cadeiras, haverão pessoas me provando com toda a ciência que a internet é capaz de fornecer, que eu estou errado em fazer isso.

Eu aceito estar errado, aliás adoro estar errado porque sempre inspira discussões interessantes – quando a pessoa consegue ser construtiva. Nessa “Era da Zoeira” que a gente vive, é praticamente impossível ser construtivo na internet.

Hoje o OJ faz 8 anos e eu continuo odiando muita coisa. Brigadeiro, lasanha, carro de som. O problema é que eu cansei de justificar isso. Eu não tenho mais tempo, saúde ou paixão pra falar do que odeio.

Durante os oito anos do OJ, muita gente perguntou o que eu mais odiava, ou porque eu não escrevia mais frequentemente. Nunca ninguém me perguntou “ei cara, o que tu realmente gosta?”. Isso começou a incomodar. Eu tô aqui a oito anos e praticamente ninguém me conhece.

Meu nome é Raphael, tenho 24 anos e moro no interior de São Paulo.

Sou estudante do quarto ano de Engenharia Química, me formo no próximo ano. Assim que me formar, pretendo fazer Mestrado pra lecionar na faculdade em que estudo hoje, algo como um sonho de infância. Sou apaixonado por todas as ciências, mas tento me manter mais aberto às artes.

Passo meu tempo vendo séries – sou pós doutorado em How I Met Your Mother e Breaking Bad – e jogando videogames. Adoro jogos de corrida e sou doido por Pokémon até hoje. Gosto de Ficção Científica – meu livro favorito é 2010: O ano em que fizemos contato, de Arthur Clarke. Gosto de HQ mas não tenho tempo pra acompanhar. Também não sou muito ligado em cinema – gosto mais da experiência de ir ver o filme do que a arte em si. Meu filme favorito é Into the Wild (Na Natureza Selvagem).

Minha vida é movida a música. Toco violão e arranho guitarra. Sou APAIXONADO por bandas cover, um dia escrevo mais sobre isso. Praticamente só escuto Engenheiros do Hawaii e Pearl Jam. Gostaria de ter falado mais sobre os dois aqui.

Algumas coisas aconteceram em minha vida que me forçaram a dar o próximo passo. Dizem que nenhum fantasma fica em paz enquanto não seguir em frente. Essas coisas, esses fantasmas, me prenderam no mesmo lugar por tempo suficiente pra me isolar do mundo. Não vejo o OJ como parte dessa carga negativa, mas acho que já era hora de tocar adiante.

Eu vou continuar a escrever, mas em outro lugar e de outra forma.

Só sei que, hoje, eu cansei de odiar.

Hoje, quero gastar meu curto tempo falando sobre as coisas que amo.

Começar o OJ foi o primeiro passo. Esse é o segundo.

Esse é meu canto do cisne.

Obrigado pelo carinho, leitor.

Obrigado por tudo, OJ.

Tudo o que você (nunca) quis saber sobre as cigarras

Pare absolutamente o que você está fazendo. Não importa se é um vídeo de gatinhos no YouTube ou um artigo científico sobre a cura definitiva das unhas encravadas em camelos. Mesmo se você estiver aí, largado na cadeira igual uma preguiça praticando ioga, cheio de migalha de pão em cima do pijama, segurando a cabeça com um braço apoiado na mesa.

Saiba que o mundo está acabando, e que você tem apenas poucos minutos pra aproveitar sua vida ao máximo. A primeira coisa que você deve fazer é aprender estes fatos interessantíssimos sobre as cigarras.

Segundo uma pesquisa realizada pelo C.A.R.A.L.H.O. – Centro Armando Roberto Alves de Literatura e Humanidades Organizadas – as cigarras são bichos legais. Você só precisa se informar a respeito delas.

Chega dezembro, época de férias. Verão, sol rachando, você se reúne com seus amiguinhos no fim da tarde pra uma cerveja – ou suco de goiaba fresquinho feito pela sua vó. Todo mundo animado, vocês ligam o som, chegam as gatas, fica aquele clima gostoso de subúrbio, todo mundo curtindo. A tarde vai caindo, o sol se põe e a alegria de vocês acaba.

– BRUUUUEEEEMMMM HEIN HEI NEIN EINEINENEIEN UUUUUUUUHHHHHH IIENEINEINE NIEINEINENIE

CIGARRa2

É nessa hora do dia que começa o show das cigarras, azeitonas pretas com asas que cantam mais alto que um show do AC/DC nos anos 80.

Deus, ou seja lá qual deidade suprema que você acredita dominar a porra toda, quando criou o mundo, tava lá tirando onda de ser supremo da existência e tal, pensou consigo mesmo:

– Pô, domingão, calor pra caralho, Faustão rolando. Tô de boa aqui, terminei o trampo da semana… acho que posso dar uma sacaneada.

Então, num estalar de dedos, criou um bicho que não tem utilidade NENHUMA no ciclo de vida do planeta. Cigarras não plantam árvores. Cigarras não compõem sinfonias, não atuam em peças de teatro. Cigarras não fazem nada senão comer, cantar e foder – basicamente a vida de um astro de rock.

Pra você que acordou hoje e pensou “Cara, seria muito legal se eu aprendesse seis fatos interessantíssimos sobre as cigarras”, este post é especialmente pra você!

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6- Cigarras passam 17 anos debaixo da terra.

Antes de sair chutando cadáver de cigarra morta, pense duas vezes. Aquela carcaça tem idade para ser sua mãe – se ela for bem adiantadinha na vida.

Não estou exagerando. Algumas espécies americanas e a maioria das espécies de cigarras brasileiras passam entre quinze e dezessete anos enterradas próximas a árvores. Durante esse tempo, elas têm a forma de “ninfa”, estágio que precede a forma adulta.

Quando “chega a hora”, todas as ninfas enterradas numa mesma região saem da terra ao mesmo tempo e se agarram ao tronco das árvores, de onde começam a sugar a seiva para se alimentar.

5- Cigarras são feias e morrem cedo.

Essa é a transição da ninfa em cigarra adulta. Completamente nojento.

O fato é que, depois de alcançar a vida adulta, as cigarras têm pouco mais de duas semanas de vida. Não dá tempo pra se fazer muita coisa, então elas se concentram em apenas duas atividades: cantar e trepar.

4- Cigarras cantam alto pra caralho.

A cigarra usa o canto como forma de acasalamento e como proteção. Pássaros, seus maiores predadores, possuem ouvidos muito sensíveis, e o canto da cigarra é absurdamente alto pra algo tão pequeno.

Aliás, a cigarra macho é o inseto que produz o som mais alto da natureza. Aquele canto escroto pode ser ouvido a nada menos que 500 metros de distância Algumas espécies alcançam os 120 decibéis, o que é literalmente mais alto que o som de uma turbina de avião. Outras fazem ainda mais: produzem um som de freqüência tão alta que o ouvido humano não é capaz de ouvir.

As cigarras não ouvem o próprio canto. Uma fina película protege seus ouvidos pra que elas não fiquem surdas.

Ou seja:

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3- Cigarras cantam para achar sua alma gêmea s2

Os machos cantam para atrair as fêmeas. As fêmeas também cantam, mas o som é mais parecido com um estalar de dedos, com a única função de mostrar sua localização para o macho.

Fato curioso: os machos são delicadamente menores em tamanho que as fêmeas. Portanto, se você conseguir avistar uma cigarra macho e estalar os dedos, vai atrair a atenção deles, como se estivessem hipnotizados. Eles literalmente vão pensar que você é uma fêmea, seguir a direção dos estalos e até começar a cantar.

Se você der sorte de conseguir capturar um exemplar desta moléstia de Deus contra a humanidade, vai perceber que não oferece resistência alguma. São insetos pacíficos que só vêm ao mundo pra três coisas: cantar, foder e morrer.

2- Cigarras morrem depois de trepar.

Ok, o macho canta, a fêmea abre as pernas e pronto. Os dois fazem amor gostoso, apaixonado, ao som de canções românticas, mas ao atingir o climax O MACHO MORRE.

Mas não morre de prazer ou cansaço: O MACHO EXPLODE. Se você vive num lugar que ainda não foi consumido por concreto e asfalto e consegue ver algo que pareça uma árvore no caminho para o trabalho, é até comum ver restos do macho por aí, sem o abdômen. A fêmea ainda vive por um tempo, mas morre bem menos dramaticamente depois de depositar os ovos.

Porque eu acho isso estranho? Vamos contar a história de Marquinhos, o menino cigarra.

Marquinhos viveu até os 17 anos na casa dos pais. Praticamente nunca saiu de casa, só queria saber de comer. Marquinhos um dia ficou obeso e decidiu que era hora de tomar vergonha na cara: saiu de casa e começou a fazer exercícios físicos.

Um dia, enquanto praticava escalada, encontrou um folheto da faculdade. Marquinhos gostava muito de música, então fez a matrícula e começou o curso de canto lírico. Um dia, nas aulas de canto, um empresário viu que Marquinhos atingia notas altíssimas e convidou-o para gravar um CD com uma banda de metal.

Então Marquinhos começou a ensaiar com a banda. Um dia, num festival com diversas outras bandas de metal, Marquinhos estava lá cantando e uma fã aproximou-se do palco. Os dois trocaram olhares e Marquinhos disse “passa lá no meu camarim depois do show”. A fã lá apareceu e os dois se pegaram.
No terceiro minuto de fodelança, Marquinhos não resiste e logo avisa:

– AH EU VOU GOZAR

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Estranho? Não é nada, bicho.

1 – Cigarras são bichos incrivelmente depravados.

É praticamente comum que cigarras machos copulem com outros machos. Parte disso se deve à falta de fêmeas ou de pura confusão – afinal os 17 anos são uma fase complicada na vida de todo mundo, não é mesmo?

Achou estranho? Vem cá, e se eu te disser que, além de gostar de abocanhar o croquete, cigarras também copulam com… fêmeas mortas?

Cigarras. Trepam. Com. Cadáveres.

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Quando eu era criança, costumava amarrar linha de pipa na cigarra e soltar ela no ar. Era um animal de estimação voador, coisa final, quase um pokemon.

Escrevendo isso tudo, me dá até medo de pensar no que os parentes daquela cigarra que amarrei farão com meu corpo depois de morto. Se existir karma nesse mundo, estou fodido no pós-vida. Eu e meu cadáver.

——

Você deve estar pensando:

— raphs você já escreveu sobre isso affffafaf tá faltando ideia pra post????

E eu digo: o blog é meu e se eu quiser eu posso escrever uma análise de quinhentas palavras sobre minha rotina intestinal rs.

Mas sabe, noite passada tive uma epifania. Durante um sonho, encontrei o grande Mestre e, em sua infinita sabedoria, ele me disse:

— Raphs, teu blog tem muito texto legal. Mas grande parte deles está esquecida em posts de anos atrás, e nem todo mundo quer procurar os arquivos. Que tal se você fizesse um “remake” de alguns dos melhores posts?

O Mestre então empunhou duas maracas e começou a dançar um ritmo mexicano dotado de muito swing e malemolência. O sonho, provavelmente alimentado pelas doses cavalares de remédios que venho tomando nos últimos dias, diz a verdade. O Mestre sabe das coisas.

[O texto original foi postado aqui e o remake dele foi postado no Histeria, uns meses atrás.]

Sobre ursos polares voadores, impressoras 3D e as cabeças de pedra na Ilha de Páscoa

O mau uso de coisas boas é consequência de sua existência. Carros matam. Suplementos vitamínicos causam câncer. Água em excesso é mais perigoso que desidratação. Anúncios de cigarro avisam que fumar faz mal.

Existe aquele velho clichê de que tudo na vida tem um lado ruim. Não demora muito até que alguém use uma tecnologia espetacular pra fazer algo realmente estúpido que vai foder a sua vida cedo ou tarde. Já não me surpreende o homem pegar algo muito bom e fazer mau uso disso. A própria internet é o maior exemplo dessa atitude infeliz.

Todo santo dia, quando abro meu e-mail pela manhã, me sinto num campo minado no interior da Argélia – qualquer link que eu abrir sem pensar profundamente a respeito pode causar danos consideráveis ao meu computador, meus dados pessoais ou à minha conta bancária.

Quer fazer um download? Boa sorte! Os sites de hospedagem hoje em dia estão tão cheios de botões de “download aqui” que é preciso uma equipe de detetives particulares pra descobrir qual o link verdadeiro. Clicou no link errado? Você acaba de instalar treze toolbars diferentes no seu navegador, mais dois anti-virus e um sistema de busca que você nunca vai conseguir desinstalar na sua vida.

askcomAí chegaram as impressoras 3D. Ainda estou modelando minha impressão (trocadilhos são permitidos) a respeito das impressoras 3D.

Podemos dizer que a popularização dessas impressoras vai ter o mesmo efeito no mundo que a aplicação em massa do cloro na água potável teve no início do século XX. Naquela época, a população urbana do mundo todo enfrentava problemas de saneamento básico decorrentes da contaminação da água potável, como leptospirose e cólera. Depois do cloro, houve um decréscimo exponencial na incidência dessas doenças.

Isso foi, literalmente, um divisor de águas na história das metrópoles. Embora as cidades já estivessem crescendo, essa reviravolta na condição das águas de abastecimento permitiu que as cidades voltassem a crescer – dessa vez, com uma população saudável. O cloro e a penicilina são denominados como as maiores medidas de saúde pública de todos os tempos.

As impressoras 3D têm todo o potencial de se tornar tão grandes quanto.

Não tem como quantificar a quantidade de benefícios que podem sair disso. A impressoras 3D tornarão possível não só a impressão em casa daquela escultura burusera de boneco de hentai, como também realizar a impressão de réplicas de ossos e próteses para aplicação em cirurgias de reconstrução. Isso vai muito além de ser espetacular, é um dos maiores avanços na história da humanidade.

Com o passar do tempo, não vai ser difícil imaginar que elas sejam capazes de imprimir estruturas cada vez menores – nanométricas, até – com a precisão do computador. Imagine um robô “impresso” em laboratório, programado para detectar placas de gordura nas paredes das artérias. Depois de implantado na corrente sanguínea, ele simplesmente previne problemas no coração.

Já que estamos viajando, porquê não imaginar membros inteiros projetados pelo computador? Com os avanços da robótica e automação, não é difícil imaginar que seja possível construir membros articulados que captem a corrente elétrica do cérebro e traduza em movimento – coisa que já é feita hoje em dia, mas com uma precisão muito maior?

Quer mais? Imagine que o homem decida voltar a explorar o espaço. Não seria preciso levar toneladas de ferramentas – elas podem ser feitas em órbita!

MAS NÃO, A GENTE PEGA ESSA PORRA E FAZ O QUE COM ELA? 

AFINAL, O QUE PODE DAR ERRADO?!
AFINAL, O QUE PODE DAR ERRADO?!

Não é notícia de hoje, mas já estão circulando na interwebs vários projetos de armas de fogo que usam munição de verdade – cujo dano é comparável ao de uma arma de fogo comum.

— Até aí tudo bem, afinal a impressora 3D ainda é bem cara e não está ao alcance de todos!!!

Realmente, uma impressora 3D é cara e sua resina é tão cara quanto. Não é qualquer zé que vai ter uma dessas em casa pra imprimir suas pirocas de plástico. Mas a gente tá cansado de saber que tem gente no mundo que não tá nem aí pro benefício que algo traz, desde que toque o terror em muita gente.

-- it's about sending a message.
— it’s about sending a message.

Eu fico pensando no que pensou o primeiro cara a desenvolver um protótipo dessas armas em casa.

— Finalmente chegou a minha impressora 3D! O que eu vou fazer agora? Uma escultura? Um braço direito pro meu Falcon que caiu lá em 1983 e eu nunca comprei um novo? NÃO, JÁ SEI, VOU FAZER UMA ARMA DE FOGO COMPLETAMENTE FUNCIONAL E VOU TORNAR O PROJETO PÚBLICO PRA QUE TODO MUNDO POSSA TER UMA TAMBÉM.

Essas armas são indetectáveis. É humanamente impossível evitar sua circulação pela internet, e praticamente tão difícil quanto impedir que civis carreguem essas armas nos bolsos ou nas malas. Os detectores de metal não conseguem captar sua presença – porque, dã, não são feitas de metal.

Isso é um perigo muito, muito sério. Os ataques em Boston, no mês passado, foram feitos com pregos, rolamentos, explosivos e panelas de pressão. Coisa que qualquer criança guarda embaixo da cama. Imagina o estrago que um grupo terrorista pode fazer com essas armas de plástico em um voo comercial?

O homem deve ser o único ser vivo que se empenha em construir formas de se destruir. Quanto mais avançada é uma tecnologia, mais ainda se esforçam os que pretendem subvertê-la. Me chame de pessimista, mas eu acho que a galera do mal tá mais criativa que a galera do bem.

É bom que o apocalipse chegue rápido, senão viveremos o suficiente pra vermos algum cientista brilhante descobrir como fazer AIDS ser transmitida por mosquitos.

Ou fazer ursos polares que voam.

A síndrome de celebridade herói

Bom, creio que todo mundo que respira oxigênio e vive no planeta Terra sabe que todo começo de ano o Rio de Janeiro se transforma num atoleiro sem fim. Pra você que caiu de cabeça do berço, vou explicar rapidinho:

O interior do Rio é praticamente todo formado por  serranas, e as chuvas de verão provocam problemas seríssimos na região. O lugar onde as pessoas teimam em construir casas é uma camada relativamente fina de terra fofa que sobrepõe a rocha sólida. Com as chuvas e a completa falta de responsabilidade de liberar construções em lugares de risco extremo de desmoronamento, a camada de terra molhada desliza morro abaixo, levando o que encontrar na frente.

É isso que acontece.
É isso que acontece.

O pessoal vê um morro e pensa:

— Ei, vamos arrancar todas as árvores da redondeza e instalar um monte de residências nesse morro, apoiadas em fundações leves e baratas e que claramente não oferecem segurança alguma?
EXCELENTE IDÉIA!

Nos últimos anos, a programação da televisão se tornou padrão. Os desmoronamentos e tragédias pluviais no Rio de Janeiro se tornaram evento anual assim como o Carnaval e o Ano Novo, só que sem direito a vinheta colorida. Piadinhas à parte, o problema é sério. Tem família inteira rolando morro abaixo, sob escombros e cidades inteiras à beira do colapso.

Eis que surge a figura salvadora. Zeca Pagodinho, aquele nosso amigão do samba que é sempre lembrado por sua barriga de chope e suas músicas grudentas. Deixando o conforto do lar, que também foi alvo das inundações, Super Zeca foi ao resgate. Sim. Zeca pagodinho ajudou vítimas da chuva em Xerém, cidade onde mora.

Abordado por um repórter que obviamente só quer crescer com a tragédia, Super Zeca respondeu tudo como se fosse um cidadão qualquer, com a voz embargada e os olhos marejados, cara de cansado e tudo mais. Super Zeca acabou deixou o repórter falando sozinho pra ir trabalhar.

E isso foi legal pra caralho.

FALO AE REPORTER OTARIO VO LA CATA AS MINA UHEHUEUHE AGORA FIQUEI DOCE DOCE DOCE

No intervalo de um dia, Zeca foi de um cantor de samba amante do etanol a entidade divina do panteão dos santos brasileiros. De sambista a super herói. Eu não sou da cena sambista e muito menos tenho Zeca Pagodinho na minha lista de dez mais. Não sei se ele faz sucesso. Mas com certeza seu nome voltou à mídia. Esta aí o problema.

Zeca, na humildade de um cara que para as férias pra ajudar uma cidade que vive o caos, arregaçou as mangas e mostrou que existe um homem por trás da celebridade. Porém Zeca nunca pensaria na herança maldita que deixou. Ao sair do status de celebridade pra virar herói nacional, Zeca traçou um precedente perigosíssimo. Afinal, tudo o que te faz aparecer na mídia vira procedimento padrão pra pseudo-celebridades fazerem também.

É fantasioso mas faz sentido. Uma subcelebridade, ao ver que ajudar pessoas te traz fama instantânea, vai querer fazer o mesmo. Pode ser que, daqui pra frente, veremos ex-BBBs fazendo trabalho voluntário em tragédias praticamente toda semana.

O Super Zeca, sem querer, colocou uma semente na cabeça da Geisy Arruda de que ajudar a gurizada é bom. Lady Gaga chuta bola com crianças da favela e é capa da Globo. Paulinho Vilhena salva uma turista de se afogar na praia, capa da Globo.  Porque a Geisy não pode fazer o mesmo?

A nossa esperança é de que ela, depois de fazer sua boa ação do dia, seja capa da Globo por ser encontrada no meio de escombros depois que uma pedra gigante rolou em sua direção depois dela salvar um ninho de corujas de cima de uma árvore. 🙂

Quanta piada pronta.
Quanta piada pronta.

Essas coisas alimentam todo um mercado. Celebridades instantâneas são um dos motores que empurram a mídia fútil no Brasil. Se um dia o Ego deixar de existir, toda uma profissão deixaria de existir. É como se, de um dia pro outro, atendentes de telemarketing sumissem do mapa.

Sem atendentes de telemarketing, o Procon deixaria de existir. Sem celebridades, não existiriam paparazzi e a imprensa poderia ser levada a sério, um dia.

Se a profecia se concretizar, teremos subcelebridades tentando desesperadamente aparecer de forma heróica, pra tentar tirar proveito da situação criada por Super Zeca, o herói nacional. E dá-lhe Ego.

Como todo ano essa merda no Rio se repete, e sempre fica pior, infelizmente oportunidade não vai faltar. Mãos à obra, sub celebs. Estamos de olho.

A coisa que mais odeio no mundo

Sabe, eu me testei.

Durante seis meses, me tranquei em meu quarto em meditação profunda, procurando aquela coisa que desperta meu ódio da forma mais obscura e terrível. Aquele assunto que só de pensar provoca indigestão, algo tão horroroso que fosse capaz de destruir minha mente racional apenas por existir.

Procurei fundo. Pesquisei minhas emoções mais íntimas, minhas lembranças mais longínquas e aproveitei pra procurar um par de meias que havia perdido algum tempo atrás. Desde abril que ando com uma azul e uma verde, pessoas haviam começado a comentar.

Depois de algum tempo, desisti. Embora agora caminhe pela rua com duas meias de cores iguais, continuei não encontrando a coisa que mais odeio.

Mas então me toquei de que havia feito a coisa completamente ao contrário. Ao invés de me fechar e descobrir por mim mesmo, era apenas sair nas ruas por alguns minutos para descobrir algo que estava diante de mim o tempo todo.

O que mais odeio nessa vida não é pornografia infantil, não é foto de gente comendo feto, não é coprofagia ou zoofilia. Andar com meias diferentes chega perto, mas também não é isso.

A coisa que mais odeio na vida são as LIGAÇÕES OBRIGATÓRIAS DE NAMORADOS. Sim, você sabe do que eu tô falando.


Antes de qualquer coisa, eu tenho que deixar claro. Embora não pareça, eu tenho coração e sei que grande parte dessas ligações são porque a outra pessoa faz falta, ou que é a única forma que muita gente tem de ficar perto estando longe.

Mas cacete, precisa ligar a cada 15 minutos só pra avisar sua alma gêmea de que tu tá respirando? Porra!

Os motivos que me levam a odiar tanto isso:

Não há pessoa no mundo que consiga alimentar incontáveis minutos de conversa, todos os dias, o dia todo.

A não ser que você namore um veterano da Segunda Guerra, um bombeiro ou um psiquiatra que ignora o código de ética da profissão, não há pessoa viva neste mundo que tenha assunto suficiente pra alimentar tanto tempo de conversa diária.

Prova disso é que, mesmo que o dia tenha sido sensacional, a conversa cedo ou tarde acaba caindo no famoso “o que você tá fazendo?”. Se o assunto chegar no “o que você comeu hoje?”, é prova de que a ligação tinha de ter sido encerrada quinze minutos atrás.

Não há distinção de gênero

Graças ao fenômeno Overly Attached Girlfriend, aliado a uma imbecil cultura machista, é mais fácil imaginar que este tipo de pegação no pé venha da mulher. Afinal, em dez mil anos de história humana, é comprovado cientificamente que a mulher é mais apegada ao relacionamento que o homem.

Mas, em meus muitos passeios pela vida, atestei que não é uma exclusividade. Na verdade, o homem é tão apegado (ou enche tanto o saco) quanto a mulher.

A diferença é que o homem tem aquele FATOR BABACA, causado por um hormônio liberado pelo emaranhado de nervos e músculos mal situado no meio de suas pernas, o pinto. Enquanto para ele é perfeitamente normal trocar horas de aula por mesas de bar, ela fazer isso é PASSÍVEL DE PENA DE MORTE.

Assim sendo, o homem ciumento (sempre um escroto) liga a cada quinze minutos para a mulher apenas para manter controle. “Onde você está? Com quem está? Tá na aula? De quem é essa voz aí no fundo?”. É mais ou menos como o cachorro que mija no poste e volta a cada dez minutos pra mijar de novo, só pra mostrar que é ele quem manda ali.

E ai dela se não atender.

A obrigação é o inverso da vontade.

Vontade de falar com o namorado é uma coisa. Obrigação de falar é outra. Sentir saudade é a melhor coisa que um relacionamento pode ter.

Ficar um dia sem se falar faz bem. Ficar a semana sem se ver faz bem. Na próxima vez que se falarem, vão ter assunto de verdade. Na próxima vez que se verem, vão trepar como dois coelhos alimentados com Red Bull e Ecstasy por dois dias.

O problema de manter contato constante é, exatamente, manter contato constante. Conversar mais, sem absolutamente nada pra falar, cria um vácuo que precisa ser preenchido rapidamente – e na pressa de fazer isso, diz-se coisas que não deveriam ser ditas. É aí que surgem as deliciosas brigas desnecessárias.

A vontade que tu tem de fazer algo é inversamente proporcional ao quanto tu é cobrado a fazer tal coisa. Ganhar dinheiro é legal, mas com certeza você odeia quando teu chefe te manda trabalhar no fim de semana.

SAI DESSA BOLHA.

Casais muito apegados se transformam em uma bolha amorfa que tem comportamento e universo próprios. Agem como se fossem uma só pessoa. Isso é horrível de ver.

Acontece que ninguém nesse mundo vive sozinho, caralho. Enquanto tu tá na faculdade, que tal desligar a porra do celular e aproveitar teus amigos? Que tal parar de brigar com o namorado sobre “porque você não atendeu a ligação” no corredor do trabalho, na frente da sala do seu chefe?

Porra, se é pra viver grudado, compra uma camisa de força, se amarra na namorada e anda por aí igual um retardado, cara.

***

Não sou a melhor pessoa pra falar sobre relacionamentos, afinal ocupei os últimos sete anos da minha vida em namoros que terminaram tão bem quanto uma colisão frontal de trens carregados de nitroglicerina, mas devo ter alguma razão.

Ser solteiro é a pior coisa do mundo. Embora todo mundo diga que é do caralho, que é sensacional, que te dá passe livre a todas as xoxotas por aí, não deixa de ser um caminho deserto, seco e estranho que leva a lugares onde você geralmente não gostaria de estar.

O único lado bom é que pelo menos fujo dessas ligações obrigatórias. E tenho bastante tempo pra arrumar as minhas meias.

Sobre a dor e a delícia de ser uma cat person

Não é preciso ir longe pra saber que existem apenas dois tipos de pessoas do mundo: as que gostam de cachorros e as que se identificam mais com gatos.

Existem também as pessoas que sentem atração sexual por cabritos, mas vamos ignorar os caprinos por enquanto.

Desde pequeno fui ocorrendo com a presença de cachorros. De um vira-latas de vinte centímetros, passando por uma Fila enorme e assustadora, até meu atual vira-latas de tamanho amedrontador que cheira traseiros e urina pela casa toda, sempre tive cachorros. Nunca fui fã de gatos.

Até conhecer minha primeira namorada, completamente apaixonada por gatos. Por força do hábito, comecei a me aproximar dos felinos e realmente mudei minha opinião quanto a eles. Cerca de quatro anos atrás, adotei meu primeiro gato, uma siamesa linda chamada Janis.

Nhoin que linda :3

Janis é, e sempre foi, um demônio. O mais gracioso dos seres infernais. Desde o primeiro dia, Janis me mostrou que seria um tormento em minha vida, e cada dia eu me apaixonava mais por ela.
Eu sempre interpretei a indiferença dela como um sinal de amor. Quanto mais ela me ignora, mas eu a amo. E faço de conta que este é o jeito dela me amar também (mas no fundo sei que ela nutre por mim nada senão total indiferença).

Cachorros são fiéis, capazes de demonstrar atenção e até sentimentos. Cachorros ficam felizes quando tu chega do trabalho, cachorros precisam de você para passear. Cachorros cheiram a virilha de todo mundo que entra na sua casa, só pra adquirir intimidade.

Já os gatos… Bem, gatos se importam tanto contigo quanto se importam com a crescente degradação da grande barreira de corais no leste da Austrália. Como se a indiferença para com seus donos fosse pouco, eles meio que invertem os papéis. Para eles, você é apenas um serviçal que oferece comida, abrigo e atenção quando necessário. Eles se consideram ídolos feitos de ouro que estão na Terra para serem idolatrados.

Janis não pode ser mais gato. O mais próximo de “carinho” que posso receber dela é uma brincadeira idiota em que ela trança minhas pernas pela manhã, no trajeto entre minha cama e o banheiro. Isso seria muito fofo e divertido se ela não avançasse em minhas pernas com a mesma voracidade que um leão branco africano avança em uma zebra. Com garras afiadas como navalha e dentes minúsculos mas pontudos, rasga a carne humana como faca quente na manteiga. Isso é particularmente ruim quando você tem que se deslocar pela casa com muletas, como fui obrigado a fazer alguns dias atrás.

Outra coisa ruim de gato é que o bicho solta pêlos na mesma freqüência que uma estudante de Farmácia sustentada pelos pais mostra os seios em festas de república. É tanto pêlo que, às vezes, me vejo jogando sujeira pra baixo do tapete, e eu nem tenho um tapete. Eu tenho certeza que, se eu juntar todos os pelos deixados por Janis em um ano, seria capaz de construir um modelo de urso polar em tamanho real.

Mas a indiferença, vista de certo ângulo, pode ser algo bom. Já ouviu aquela história de que a gente só valoriza algo de verdade quando perde? Então. Janis nunca está por perto, então quando a bichana aparece no meio da noite em cima da sua cama, a satisfação não tem tamanho.

Mesmo com métodos estranhos, gatos sabem demonstrar afeto. Por exemplo, algumas vezes Janis me acordou com mordidas no rosto, talvez na cena mais bonita que já vi na vida. Tudo bem que se eu tivesse o sono um pouco mais profundo, poderia ter a face toda mastigada e ficaria parecendo o Freddy Krueger. Enfim.

Ou então quando ela pula na sua cama as duas da manhã completamente coberta de barro, como na ultima terça-feira. Nada traduz carinho como dar banho em gato sujo de madrugada, num frio de congelar pinguins. Confesso ter ficado espantado: Janis havia absorvido tanta terra de sei lá onde saiu, que as obras pra Copa do Mundo foram atrasadas por dois meses por falta de terra.

Mas fiz isso tudo com um sorriso no rosto.

Gatos também costumam trazer presentes aos seus donos, meio como forma de marketing pessoal. Certa vez acordei e Janis estava parada, imóvel ao lado da cama, miando com certo entusiasmo. Achei curioso e fui fazer um carinho, fazer aquela pergunta idiota “o que você quer?” (esperando que ela não respondesse, afinal seria muito bizarro). Ao fazer carinho, vejo penas pelo chão do quarto. Janis havia pegado um pardal no quintal de casa e me trouxe o cadáver como presente.

Obrigado Janis, pássaros mortos são os meus favoritos.

Pra pessoas que não tem tempo sobrado pra ficar cuidando de um animal de estimação, gatos são perfeitos. Janis se comporta como aquele seu tio bêbado que some de manhã, volta no almoço, some de tarde de novo, só pra chegar de noite completamente bêbado, chamar sua tia de vagabunda e bater nela antes de ir pra cama.

Espera aí. Sumir o dia inteiro e quando chega em casa maltrata a esposa?

Seria minha gata alcoólatra?