O Efeito Craig

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Em minhas muitas viagens pelo mundo, muitas vezes encontrei respostas a perguntas que jamais fiz. Porém, nunca me foi revelada a verdade fundamental por trás do desastre dinossáurico que é minha vida sentimental.

Em outras palavras, até hoje eu nunca havia encontrado a desculpa perfeita para negar o fato de que, um dia, serei encontrado morto em meu apartamento, sozinho, em meio a videogames e sendo devorado por meus gatos.

Ingênuo sou eu pensando que este problema pode ser explicado por análises psicológicas, factuais ou fazendo lobotomia em minhas ex-namoradas. Ledo engano. Eu precisei abrir minha mente para aceitar que havia uma influência maior em minha vida, algo que fosse etéreo, sobrenatural.

Foi então que descobri o Efeito Craig – ou, para uma aproximação mais dramática, the Craig Effect.

E se sua vida sentimental fosse diretamente influenciada pela carreira de um dos maiores nomes do cinema da atualidade? Pois é exatamente isso que acontece com o Efeito Craig.

Daniel Craig é um ator inglês de 45 anos. A partir de 2006, Craig é conhecido por ser o sexto ator a interpretar o agente secreto 007: Bond, James Bond – o agente secreto mais conhecido do mundo. O que não é exatamente o título que um agente secreto desejaria ter.

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Não que Daniel Craig seja o ator mais famoso, ou mesmo o mais bonito. Desde que Daniel Craig se tornou James Bond, minha vida amorosa tem sido uma batida de trens. Não que tenha sido melhor antes de Craig, mas piorou consideravelmente depois do inglês bicudo.

Em 2006, quando Casino Royale chegou aos cinemas, o primeiro filme com Craig como Bond, eu namorava uma guria chamada Ana Paula. Em 2008, quando Quantum of Solace saiu na telona, eu estava começando meu namoro com a Pâmela. O último filme, Skyfall, estreou no fim de 2012 e eu namorava a Gabriela.

Ou seja, cada filme que Daniel Craig fizer como James Bond, me forçará a estar com uma mulher diferente. Essa é a parte boa. Porém, o Efeito Craig não apenas determina o que vai acontecer na minha vida amorosa: ele passou a ditar quão longo vai ser o relacionamento.

Quanto mais filmes Daniel Craig fizer como James Bond, menos meus relacionamentos vão durar: o primeiro namoro durou quatro anos. O segundo, pouco mais de três anos. Já o terceiro durou menos de três meses.

Segundo o Efeito Craig, meu próximo relacionamento deverá acontecer em algum ponto entre 2015 e 2016 e irá durar cerca de DUAS HORAS. Provavelmente acontecerá assim:

— Eu te amo! Quer ser minha namorada?
— Eu adoraria ser sua namorada porque eu te amo também!!
— Uau! Estou tão feliz que vou ali comprar um buquê de flores e uma champagne para comemorarmos!!!
— OK!!

— Amor, cheguei!!!
— A gente acaba aqui. Eu te odeio, seu escroto.

Tendo dito isso, eu tenho duas opções:

Opção 1: quebrar o Efeito Craig ao namorar alguém por tempo suficiente para cobrir dois filmes de James Bond – isso torcendo para que Daniel Craig continue sendo o agente secreto. Caso ele faça apenas mais um filme e morra misteriosamente durante as filmagens do segundo, eu ficarei sozinho para sempre.

Opção 2: quebrar as pernas de Daniel Craig continuamente durante as filmagens do próximo filme. Assim, o filme demora para ficar pronto e eu aproveito meu namoro tranquilamente. No momento em que as filmagens são retomadas, eu quebro novamente as pernas do inglês bicudo e assim vai até eu morrer por causa do alto colesterol contido no Doritos.

Estou pronto. Sua jogada, Craig.

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Sobre ursos polares voadores, impressoras 3D e as cabeças de pedra na Ilha de Páscoa

O mau uso de coisas boas é consequência de sua existência. Carros matam. Suplementos vitamínicos causam câncer. Água em excesso é mais perigoso que desidratação. Anúncios de cigarro avisam que fumar faz mal.

Existe aquele velho clichê de que tudo na vida tem um lado ruim. Não demora muito até que alguém use uma tecnologia espetacular pra fazer algo realmente estúpido que vai foder a sua vida cedo ou tarde. Já não me surpreende o homem pegar algo muito bom e fazer mau uso disso. A própria internet é o maior exemplo dessa atitude infeliz.

Todo santo dia, quando abro meu e-mail pela manhã, me sinto num campo minado no interior da Argélia – qualquer link que eu abrir sem pensar profundamente a respeito pode causar danos consideráveis ao meu computador, meus dados pessoais ou à minha conta bancária.

Quer fazer um download? Boa sorte! Os sites de hospedagem hoje em dia estão tão cheios de botões de “download aqui” que é preciso uma equipe de detetives particulares pra descobrir qual o link verdadeiro. Clicou no link errado? Você acaba de instalar treze toolbars diferentes no seu navegador, mais dois anti-virus e um sistema de busca que você nunca vai conseguir desinstalar na sua vida.

askcomAí chegaram as impressoras 3D. Ainda estou modelando minha impressão (trocadilhos são permitidos) a respeito das impressoras 3D.

Podemos dizer que a popularização dessas impressoras vai ter o mesmo efeito no mundo que a aplicação em massa do cloro na água potável teve no início do século XX. Naquela época, a população urbana do mundo todo enfrentava problemas de saneamento básico decorrentes da contaminação da água potável, como leptospirose e cólera. Depois do cloro, houve um decréscimo exponencial na incidência dessas doenças.

Isso foi, literalmente, um divisor de águas na história das metrópoles. Embora as cidades já estivessem crescendo, essa reviravolta na condição das águas de abastecimento permitiu que as cidades voltassem a crescer – dessa vez, com uma população saudável. O cloro e a penicilina são denominados como as maiores medidas de saúde pública de todos os tempos.

As impressoras 3D têm todo o potencial de se tornar tão grandes quanto.

Não tem como quantificar a quantidade de benefícios que podem sair disso. A impressoras 3D tornarão possível não só a impressão em casa daquela escultura burusera de boneco de hentai, como também realizar a impressão de réplicas de ossos e próteses para aplicação em cirurgias de reconstrução. Isso vai muito além de ser espetacular, é um dos maiores avanços na história da humanidade.

Com o passar do tempo, não vai ser difícil imaginar que elas sejam capazes de imprimir estruturas cada vez menores – nanométricas, até – com a precisão do computador. Imagine um robô “impresso” em laboratório, programado para detectar placas de gordura nas paredes das artérias. Depois de implantado na corrente sanguínea, ele simplesmente previne problemas no coração.

Já que estamos viajando, porquê não imaginar membros inteiros projetados pelo computador? Com os avanços da robótica e automação, não é difícil imaginar que seja possível construir membros articulados que captem a corrente elétrica do cérebro e traduza em movimento – coisa que já é feita hoje em dia, mas com uma precisão muito maior?

Quer mais? Imagine que o homem decida voltar a explorar o espaço. Não seria preciso levar toneladas de ferramentas – elas podem ser feitas em órbita!

MAS NÃO, A GENTE PEGA ESSA PORRA E FAZ O QUE COM ELA? 

AFINAL, O QUE PODE DAR ERRADO?!
AFINAL, O QUE PODE DAR ERRADO?!

Não é notícia de hoje, mas já estão circulando na interwebs vários projetos de armas de fogo que usam munição de verdade – cujo dano é comparável ao de uma arma de fogo comum.

— Até aí tudo bem, afinal a impressora 3D ainda é bem cara e não está ao alcance de todos!!!

Realmente, uma impressora 3D é cara e sua resina é tão cara quanto. Não é qualquer zé que vai ter uma dessas em casa pra imprimir suas pirocas de plástico. Mas a gente tá cansado de saber que tem gente no mundo que não tá nem aí pro benefício que algo traz, desde que toque o terror em muita gente.

-- it's about sending a message.
— it’s about sending a message.

Eu fico pensando no que pensou o primeiro cara a desenvolver um protótipo dessas armas em casa.

— Finalmente chegou a minha impressora 3D! O que eu vou fazer agora? Uma escultura? Um braço direito pro meu Falcon que caiu lá em 1983 e eu nunca comprei um novo? NÃO, JÁ SEI, VOU FAZER UMA ARMA DE FOGO COMPLETAMENTE FUNCIONAL E VOU TORNAR O PROJETO PÚBLICO PRA QUE TODO MUNDO POSSA TER UMA TAMBÉM.

Essas armas são indetectáveis. É humanamente impossível evitar sua circulação pela internet, e praticamente tão difícil quanto impedir que civis carreguem essas armas nos bolsos ou nas malas. Os detectores de metal não conseguem captar sua presença – porque, dã, não são feitas de metal.

Isso é um perigo muito, muito sério. Os ataques em Boston, no mês passado, foram feitos com pregos, rolamentos, explosivos e panelas de pressão. Coisa que qualquer criança guarda embaixo da cama. Imagina o estrago que um grupo terrorista pode fazer com essas armas de plástico em um voo comercial?

O homem deve ser o único ser vivo que se empenha em construir formas de se destruir. Quanto mais avançada é uma tecnologia, mais ainda se esforçam os que pretendem subvertê-la. Me chame de pessimista, mas eu acho que a galera do mal tá mais criativa que a galera do bem.

É bom que o apocalipse chegue rápido, senão viveremos o suficiente pra vermos algum cientista brilhante descobrir como fazer AIDS ser transmitida por mosquitos.

Ou fazer ursos polares que voam.

Limpando o computador e a consciência

Pare tudo o que você está fazendo e se prepare para ver algo que jamais foi feito aqui no Odeio e Justifico. Prepare-se para uma pequena aula de informática básica de primeira série.

Embora eu ache divertido fazer uns “do it yourself”, eu não sou muito de fazer esse tipo de conteúdo. Primeiro, porque tem muita gente melhor pra falar disso do que eu, e segundo, porque eu tenho as habilidades manuais de um tiranossauro.

Terceiro, porque dá trabalho pra caralho. Mas as fotos já tão aí, eu não acordei sábado de manhã à toa e eu gosto de pensar que sou um exemplo pra galera mais nova. Exemplo do que você não deve se tornar na vida, cara.

Ontem à noite eu estava jogando Dark Souls no computador. Não, jogando não, passando nervoso, querendo esmurrar uma criança de tanta raiva desse caralho de jogo maldito. Em meus vinte e quatro anos de vida, eu nunca passei tanta frustração com nada desse tipo. Tirando minha vida amorosa, mas isso já é um desastre anunciado.

Não bastasse as infinitas barreiras que um jogo que não perdoa sequer um tropeção já te coloca, fui apresentado a um novo desafio. Um velho inimigo que não me atormentava a muitos e muitos anos. A tela azul do Windows.

tela-azul

A famosa blue screen of death é o equivalente em informática de um ataque convulsivo: você às vezes não sabe o que causa, mas sabe que tem alguma coisa errada e isso vai dar merda um dia. Ainda mais se você tiver dirigindo, começar a tremer e babar, enfiar o carro no meio de um orfanato na hora da soneca.

Ou pior ainda, RESETAR O COMPUTADOR no MEIO da porra do PIOR MAPA do jogo, depois de matar um chefe fudido e a DOIS METROS de um dos (raríssimos) save points. GAAAAAAAAHHHHHH.

Ok Raphael, respira.

Bom, incomodado por ter perdido um puta pedaço do jogo, fui dormir. Acordei hoje, sábado, sete da manhã pra ver se resolvia esse problema. Liguei a criança e reparei que a temperatura tava beirando os 70°C, o que não é lá muito comum pro meu bebê. É um computador de três anos atrás, com peças novas. É como um idoso com armadura do Homem de Ferro que já não controla seu esfíncter.

Resolvi então abrir o bicho. Aí, meu amigo…

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PORQUE SERÁ QUE TAVA DANDO PAU, NÉ?

Isso aí é o dissipador do cooler do processador, mas você pode chamar de “virilha da sua tia Lourdes” de tanta poeira. Se você nasceu ontem e não sabe qual a função disso, é um conjunto de aletas que realizam a troca de calor entre o processador e o ar. O ventilador que vai em cima se encarrega de arrastar o ar quente de dentro pra fora.

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AINDA NÃO CONSIGO VER O PROBLEMA

Essa é a placa de vídeo, e no destaque você vê o que parece ser o sistema de resfriamento dela. Caso você tenha batido a cabeça e esquecido o que eu acabei de falar, essas chapinhas são as aletas e o ventilador é o cooler (ou fan), responsável pela troca de calor entre as aletas e o ar.

O problema da tela azul provavelmente veio disso. Eu quase montei outro gato só com o tanto de pêlos que saíram do cooler. O problema mais sério, no entanto, não é o ventilador. A poeira que se deposita nas aletas cria uma camada isolante, que não troca tanto calor com o meio. Ou seja, o alumínio das aletas esquenta MAIS e esfria MENOS. SOUNDS GREAT.

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O QUE SERÁ QUE DEU ERRADO?

Isso aí era pra ser a exaustão da fonte, o coração do computador. Não preciso dizer que essa parte é importante pra cacete, pois o ar quente produzido dentro do PC é menos denso – e seu professor da terceira série ensinou que o ar quente é menos denso e sobe. Então, grande parte (ou a maior parte) do ar quente de dentro do computador sai por essa região. Só que… como que algo vai sair se tá tudo tampado com poeira?

Com um “pincel novo, limpo e seco”, que eu traduzi como “o primeiro pincel que eu encontrei em casa”, comecei a limpar toda essa poeira das peças, devidamente desmontadas. Eu não sou nenhum mão de moça pra mexer com eletrônicos, afinal sei que os componentes são de qualidade e resistentes a pinceladas. Mas também não sou imbecil de enfiar uma chave de fenda numa placa mãe.

No fim da limpeza, ficou parecido com isso:

poeira
tem tanto pó no meu nariz que eu posso conseguir emprego de extintor de incêndio

E lembra que eu disse que a temperatura do computador estava batendo os 70°C? Então:

pc chubiruba

O computador está ligado, com vários programas pesados, a quase duas horas. Não preciso dizer que a diferença é absurda, tanto na temperatura quanto no barulho que ele está fazendo.

Antes, ao ligar o computador, parecia que eu estava passando uma criança birrenta por um moedor de carne. Um barulho absurdo que só parava vários minutos depois de ligado. Agora, ele liga com a suavidade de um bebê atingido por um dardo tranquilizante de uma zarabatana indígena.

Eu posso até dizer que ele está ligeiramente mais rápido.

Eu tenho um bom retrospecto com eletrônicos. Eu nunca quebrei um celular ou sequer um controle de videogame, e olha que já tive vários (só Xbox360 já foram três). Não é segredo – é só cuidar que as coisas duram.

Computadores não têm segredo nenhum. Fazer manutenção em computador é quase como fazer um exame de próstata: é só você saber onde e como enfiar o dedo que o cara até agradece depois. Não é preciso esforço algum, não custa absolutamente nada e evita que tu gaste um puta dinheiro com algo que tu já tinha.

E o melhor: evita que você pague um dinheiro fudido pra que um moleque de dezessete anos faça “manutenção preventiva” no seu computador naquelas lojas de informática de quintal. Você paga cinquenta malandros pro cara bater um ar comprimido no seu PC e ele ainda ganha todas as fotos que você tem no computador – inclusive aquelas da sua namorada de biquíni naquele presente que ela te mandou no dia dos namorados de 2005 – e depois mandar por e-mail pros mlk com título de CAIU NA NET.

— Cara, isso foi MUITO específico.

Ahnnn errrr aconteceu com um… primo… meu?

Então que tal você sair dessa merda de twitter, fechar teu facebook e ir limpar essa merda de computador antes que ele queime e você venha encher o meu saco?

Enquanto isso, volto a passar nervoso com Dark Souls. Caralho, como eu odeio esse jogo.

 

O Brasil não é um país sério

Le Brésil, ce n’est pas un pays serieux

Essa frase é atribuída, erroneamente, ao general Charles de Gaulle, ex-presidente francês à época da Guerra da Lagosta – uma guerra idiota onde dois países quase chegaram às vias de fato por causa de, sim, lagostas.

De Gaulle tinha razão. O Brasil não é um país sério.

brasil um pais de merda

Eu não sei nem por onde começar a xingar esse bando de canalhas.

Não me refiro aos jogadores – aliás, à eles todos os méritos e meus parabéns pelos cinco títulos mundiais. Me refiro aos MORFÉTICOS que decidiram premiar JOGADORES DE FUTEBOL da metade do século passado com dinheiro suficiente pra construir DEZENAS DE ESCOLAS.

— Pô, mas eles merecem.

Eu entendo que é importante preservar a memória de quem colocou o nome do Brasil lá no alto pro mundo inteiro. Esses caras MERECEM homenagens pro resto de suas vidas e muito além disso. Entendo também que é justo oferecer auxílio aos campeões mundiais com mais de oitenta anos, afinal eles são praticamente parte da história do país.

Mas oferecer 100 mil reais a um bando de nego que jogou bola no século passado?

A eterna gratidão de 200 milhões de brasileiros não é o bastante? O respeito de sete bilhões de terráqueos àquela camisa amarela se deve a ESSES CARAS, e o governo vem querer mostrar gratidão através de DINHEIRO?

Sabe o que jogador de futebol faz com dinheiro? O FILHO DA PUTA COMPRA CARRO. PAGA PUTA. FAZ CHURRASCO. 

Sabe, o Brasil é um país que quase não tem problema, né?

A gloriosa República do Azerbaijão tem um IDH maior que o nosso. Nosso desempenho nas Olimpíadas de Matemática mundo afora é absolutamente medíocre.  A renda no país é tão bem distribuída quanto as azeitonas na sua pizza feita às pressas num restaurante sábado a noite. Tudo de um lado só.

Sabe qual o salário do professor de escola pública? Ridiculamente pouco. Tão pouco que eles são forçados a dar aula em duas, três escolas e em três horários diferentes pra conseguir fechar uma renda decente pra se sustentar. Isso é surreal, é desumano.

Jogar tanto dinheiro pela janela nos dá a impressão de que o Brasil é um país que não liga. Enquanto tem Copa e Olimpíada, pode pegar fogo em TODAS as escolas do país que tá tudo bem!

campeoes

Aí o cara do contra vem e diz:

— Se essa verba foi liberada pro Esporte, ela não pode ir pra outra coisa.

É pra falar de esporte? Porra, então vamos falar de esporte.

Se a verba é pro esporte, GASTA DIREITO ESSA MERDA. Ao invés de investir nos esportes onde o Brasil já tem destaque, investe em outros! A gente já mostrou que pode ser potência em uma CARALHADA de esportes, de tênis a ginástica artística. Porque só futebol tem privilégio nessa merda de país?

Porra, usa esse dinheiro pra construir educar através do esporte. Criem eventos que incentivam os jovens a praticar esportes diferentes. Deem condições pra que o moleque que é vapor no tráfico troque a metralhadora por uma raquete de tênis.

Até quando Skate e BMX vão ser esportes marginais? Policial não pode ver um nego andando de skate que sai descendo o porrete e o gás de pimenta. Dá até raiva ligar a televisão no domingo de manhã e ver skate e patins sendo mostrados como esportes de outro mundo, chamados de “esportes radicais”.

Sabe porquê? Porque ninguém sabe que esses esportes existem.

Culpa do governo? É, em partes. Mas grande parte é culpa do povo.

Essa merda de país valoriza mais um par de chuteiras do que condição de vida pro povo pobre. E sabe porque? Porque pobre burro é pobre feliz. Enquanto tem futebol na desgraça da televisão, o pobre pouco se fode pra nota de matemática do filho.

E o filho, vendo o Neymar fazendo macaquice na televisão, quer fazer igual. Criança pobre não quer ser engenheiro, não quer ser advogado (ainda bem), médico ou professor. Criança pobre quer ser o Neymar.

O ministro Aldo Rebelo encerra a reportagem dizendo o seguinte:

– É muito pouco. Esse é um gesto de dignidade do país. A sociedade que não sabe reconhecer seus filhos mais importantes, que elevaram o nome da pátria, perde a dignidade. Que o Brasil nunca se esqueça.

O Brasil é um país tão de merda que “seus filhos mais importantes” são jogadores de futebol. Fodam-se os professores. Fodam-se os outros esportistas que já ganharam qualquer coisa nesse país.

Esportista vive de dinheiro sim, mas também vive de honra. Nada deixaria um campeão olímpico mais feliz do que ver seu esporte sendo valorizado. Ver que o precedente que ele criou, serviu de alguma coisa. Não se vê isso no Brasil. Os nossos campeões olímpicos sempre são tratados como “gratas surpresas”, como se suas vitórias fossem acidentes.

Dar esse prêmio não é um gesto de dignidade. Dignidade seria pegar esse dinheiro e fazer algo decente com ele. Isso é uma falta de respeito com TODOS os esportistas, profissionais e qualquer pessoa que acha que esse país tem conserto.

Não tem.

O Brasil não é apenas um país que não quer ser levado a sério. Também é um baita de um filho da puta ingrato.

O menor conto de ficção já escrito

Marquinhos andava pela rua e tropeçou em algo. Deu dois passos atrás, abaixou-se e recolheu o que parecia ser uma lâmpada mágica. Instintivamente, esfregou o artefato e se assustou com o gênio que de lá saiu.

— Posso lhe conceder um desejo, qualquer que seja.

— Eu quero ser Deus.

— Pois bem.

O gênio fez um gesto e Marquinhos desapareceu. Ninguém, nunca mais, viu ou ouviu falar de Marquinhos novamente.

Sobre aquele professor boladão

A Internet é uma ferramenta maravilhosa. Aliás, na minha modesta opinião, talvez tirando os ônibus espaciais, o LHC e aquelas máquina de fazer gelo, a Internet é a melhor invenção da história do planeta Terra.

Talvez os macacos tenham feitos coisas mais legais, ou as chinchilas, ou os golfinhos. Mas, entre os humanos, a Internet reina soberana. Talvez se os golfinhos fizessem ônibus espaciais eles teriam alguma chance, afinal a raça humana jamais teria chance contra os golfinhos do espaço.

Principalmente porque nós, humanos, responsáveis por projetar a coisa mais espetacular da história, somos as piores criaturas que a natureza já inventou. Afinal, somos capazes de utilizar a Internet em grande parte para disseminar o ódio, contaminar e destruir tudo o que parece bom.

Hoje, uma amiga me enviou um vídeo sobre um professor que ensina química ao ritmo do funk carioca. Te dou uma coxinha com catupiry se você adivinhar qual foi a reação da galera.

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Quando criança, eu tinha o sonho de ser cientista, repórter de revista de videogame ou professor. O lance de repórter ficou pra trás, mas hoje posso dizer que sou, sim, cientista (afinal trabalho de jaleco e tudo em um laboratório). Só me faltou ser professor, o que ainda espero ser um dia.

Esse desejo de ser professor bateu forte quando vi o vídeo. Não fiquei, de forma alguma, ofendido ou incomodado pelo uso do horroroso funk carioca na explicação de uma matéria tão importante quanto oxi-redução.

Mas, também, não disse que… bem, concordei com o que vi.

A Química é a mais nobre das ciências. É nada menos do que a ciência da origem da própria vida, e atrelada à física e à matemática, é a explicação de tudo o que existe. E, talvez pela sua complexidade, é uma matéria de difícil absorção.

Como disse, pretendo ser professor, mas desde hoje já sei que não vou fazer uso das técnicas do professor do vídeo. Embora o uso de musiquinhas ou acrônimos seja uma forma autêntica (e até válida) de se decorar a matéria, está longe do ideal quando se quer realmente aprender.

Ciências exatas seguem uma ordem lógica. Quando se quer REALMENTE APRENDER sobre um fenômeno, seja ele uma pequena mistura ou uma colisão entre planetas, as ciências exatas exigem que você saiba todos os envolvidos e seus respectivos papéis.

Musiquinhas e acrônimos te ajudam, sim, a lembrar o que acontece na provinha do Ensino Médio. Mas, pra quem sabe e entende o fenômeno, sabe que pra algo acontecer é necessária uma série de condições e eventos – e isso já é muito mais interessante do que decorar uma ordem direta de respostas.

Em exatas, principalmente em química, Fato X acontece porque A e B estão em condição C, que ocasiona D e produz E. Se você souber o porquê que cada um desses eventos realmente acontece, não precisa decorar uma linha sequer.

Quanto mais fundo você vai nas ciências, menos válidas essas “táticas” funcionam. Decorar fórmulas é interessante no Ensino Médio, mas para o uso em aplicações de engenharia, por exemplo, é extremamente falho. Existem equações que mudam de acordo com as condições do evento – ou seja, decorar não te levaria a lugar algum.

O professor do vídeo tem um carisma espetacular. Até eu, que gosto tanto de funk quanto gosto de ver palhaços colocando fogo em um orfanato de filhotes de labrador, fiquei com um sorriso no rosto ao ver a aula. Não dá pra negar que o cara sabe motivar a classe, e o faz com uma naturalidade absurda.

Mas, se falando em ensinar, ele é nada senão um entertainer, um palhaço de rodeio. Embora tudo o que ele tenha dito seja, de fato, verdade, todos os alunos ali estavam interessados no que o professor engraçadão ia fazer em seguida, não em entender o fenômeno químico da oxi-redução e a relação ânodo-cátodo.

Afinal, é como eu disse: em exatas, musiquinhas não funcionam.

Digo isso pois nenhum cientista na história do Universo publicou suas teorias em forma de funk carioca, ou sertanejo universitário. E também nunca ouve um MC PhD em mecânica quântica.

Ou houve, sei lá, nunca se sabe se existiu um lado boladão em MC Albert Einstein.

JÁ NAS MELHORES BARRAQUINHAS DE CAMELÔ
JÁ NAS MELHORES BARRAQUINHAS DE CAMELÔ

ESSA RELATIVIDADE
É UM BAGULHO BEM BOLADO
UM SALVE DO MANO EINSTEIN
PROS MALUCO BEM DOTADO
EU DISSE QUE A ENERGIA
É IGUAL MC AO QUADRADO

Ou então, um show de MC Newton – afinal, seria só coincidência que no funk carioca eles são fissurados em chão, chão, chão? Sabe quem gosta de chão? A GRAVIDADE. BOOM, CIÊNCIA, lide com isso.

NEWTON

A SEGUNDA LEI DE NEWTON
MOVIMENTA O BATIDÃO
DIZ QUE TUDO QUE TEM FORÇA
SEGUE UMA EQUAÇÃO
ONDE F É IGUAL A EME
VEZES A ACELERAÇÃO
É O PRINCIPIO DA DINAMICA
ABALANDO O PANCADÃO

Essas musiquinhas só servem para deixar o estudante alienado, convencido de que sabe a matéria e treinado pra passar no vestibular. Mas, na verdade, ele não vai aprender nada porque perdeu tempo ouvindo a explicação engraçadinha do professor.

O professor, aliás, se chama Silvio Predis. Não é só essa aula do vídeo que ele faz gracinhas e tal, tem várias outras. Mas não vou puxar a capivara do cara pra julgar. O maluco é sensacional, pro Ensino Médio.

E só pra isso.

Relato de um ex-viciado

Olá, meu nome é Raphael e eu sou um ex-viciado.

Essa não é uma história, é apenas um marco na minha vida. É algo que eu preciso colocar no papel (dá um tempo, vai) pra ficar registrado para a posteridade.

Eu nasci com um problema que talvez você tenha e nunca tenha percebido. O desvio de septo é uma condição bastante comum, onde um pedaço de “carne esponjosa” incha descontroladamente dentro do seu septo nasal, bloqueando parte do fluxo de ar. Isso causa um pequeno desconforto, que vai desde a sensação de nariz tampado até a apnéia noturna, que aí sim pode causar complicações e até morte por asfixia.

Ciente do problema, procurei ajuda no lugar mais especializado em doenças crônicas que a humanidade já desenvolveu: a internet. Lá, encontrei a solução pros meus problemas: um certo soro, vendido em qualquer farmácia, que melhorava a respiração nesses casos.

Parti então para o balcão da farmácia:

— Então cara, to precisando de um bagulho aí, certo? Pra dar um barato, cheirar melhor as paradas.
— Tenho um esquema aqui pra ti, tu vai gostar.
— Mas isso aí resolve meu problema?
— Irmão, vai na fé, é só cheirar a paradinha que tu vai pro céu.
— Não faz mal não? Pode usar quando quiser?
— Maluco, ta todo mundo usando, eu mesmo uso direto, isso aqui é do bom.
— Me vê dois então.

Assim conheci o Neosoro.

neosoro

A primeira cheirada no negócio foi horrível. Pra novos usuários, meter água nariz adentro é praticamente como enfiar a cabeça debaixo de uma cachoeira. Aquela coisa salgada entrou no nariz e escorreu pela garganta, onde o gosto só não ficou pior pois meu cérebro se preocupava demais em não deixar o corpo se afogar.

Segundos passaram e nada do tal “barato”. Poucos minutos depois de voltar ao que estava fazendo, descrente de que o negócio ia funcionar, me bateu a realização de uma vida inteira. Durante os últimos anos, eu não sabia o que era respirar direito. Naquele dia, da forma que ele disse, eu tinha chegado ao céu.

O que eu não sabia é que esse “caminho pro céu” tomaria uma curva sinuosa pra me jogar num lugar próximo ao inferno.

No começo, tudo é lindo. Você recupera a capacidade de respirar normalmente, não sente mais o incômodo de um rinoceronte preso na sua cara, consegue sentir cheiros novamente. O mundo inteiro fica mais bonito, menos sua tia Lourdes que ainda se parece com um cachorro velho depois de atropelado por uma manada de mamutes. Eu podia finalmente sentar e assistir um filme no ar condicionado sem ter que levantar e fazer polichinelos pra poder respirar. Eu podia plantar uma árvore, correr num rally, andar de monociclo, domesticar um crocodilo, droga, eu podia finalmente fazer o que quisesse.

Meu corpo havia recuperado uma de suas funções vitais. É mais ou menos como se tu tivesse uma prisão de ventre inviolável por dois anos, descobrisse o Activia e passasse os próximos dois meses no banheiro, recuperando todo o tempo perdido.

Mas, assim como todo vício, esse havia começado a cobrar seu preço.

Cocaína se cheira, maconha se fuma, heroína se injeta. Neosoro se pinga, e no começo eu pingava uma, duas vezes por dia. O efeito durava umas oito horas, e o resto do tempo era suportável. Eu não sentia falta. Depois do primeiro ano de uso, o efeito caiu para cinco horas. Depois, pra quatro. Daí em diante, já não era possível sair de casa sem o maldito remédio.

Já não era mais um prazer poder respirar, era uma necessidade. Mesmo quando o nariz estava bem, o corpo pedia a merda do remédio.

Essa merda VICIA.

Imagina isso aí passando em cima do seu corpo. É o que a abstinência te causa.
Imagina isso aí passando em cima do seu corpo. É o que a abstinência te causa.

Tentei de tudo pra me livrar dele, até uma cirurgia que corrigiria o problema definitivamente, mas que não resultou em nada. Desde 2007, usava a droga do remédio ininterruptamente.

Foi então que comecei a adquirir os hábitos que todo viciado tem.

1- A droga não pode faltar.

Você precisa dela. Mais do que isso, seu cérebro é capaz de tocar o terror no resto do teu corpo se você não dá aquela pingada logo pela manhã. A ansiedade te consome, você passa a mastigar até solado de porta pra conter o nervosismo.

2- Tem que estar disponível, sempre.

Você precisa dela, mais do que você pensa. Nada de sair de casa sem aquela bisnaga salvadora no bolso, ou você terá problemas sérios. Minhas calças chegaram ao cúmulo de estarem marcadas com o formato do remédio no bolso. Nas viagens, carregava dois ou três frascos pra caso perdesse um. Em lugares novos, fazia um scout na região pra identificar farmácias ou pontos de venda.

3- Secret stash

Todo viciado tem um esconderijo, um lugar que guarda uma reserva de emergência. O desespero te faz armazenar frascos do remédio em caixas, gavetas, sapatos, armários, bolsa dos amigos. Todo lugar é lugar pra um Neosoro a mais.

4- O Network

Você passa a identificar usuários a distância e cria sua base de contatos. Afinal, se um dia você esquecer seu suquinho mágico em casa, alguém pode fornecer. Assim, nunca falta.

E como todo bom viciado, uma hora você passa do ponto e sofre uma overdose. Não é porque o remédio é praticamente soro caseiro com um tempero que não pode te fazer mal. Brincadeiras à parte, foi uma das situações mais assustadoras que passei na minha vida.

O Neosoro é um vasoconstritor, um remédio que comprime os vasos pra aumentar a pressão sanguínea em uma região. A carne esponjosa que incha e atrapalha a respiração é largamente irrigada por vasos, ou seja, o remédio contrai esses vasos e faz a carne diminuir de tamanho. O remédio causa uma constrição nos vasos sangüíneos do nariz, o que diminui o inchaco daquela carne esponjosa. O problema e que o gênio aqui usou dois remédios diferentes com o mesmo efeito.

O resultado foi mais ou menos como se alguém implantasse uma broca dentro do seu cérebro e a acionasse de dentro pra fora. Uma pressão absurda na parte de cima da cabeça, uma dor aguda que persistiu por bons e longos minutos. Meu vicio engraçadinho quase me causou um AVC.

Eu estaria escrevendo com a testa numa hora dessa.

Aí vi que era hora de parar. Respirar pouco é melhor que não respirar. Procurei tratamento e o coloquei em prática, e tem funcionado muito bem. Pela primeira vez em seis anos, posso respirar normalmente sem necessitar do desgraçado do Neosoro.

Já se passou um mês desde o “dia D” e não houve uma reincidência sequer. Posso dizer que estou livre dessa maldição. Apalpar o bolso direito e perceber que não preciso mais andar com aquela bisnaga maldita no bolso pra todo lugar é um alívio sem tamanho.

Tá certo que o formato cilíndrico dela às vezes causava um certo volume em minhas causas, que uma ou outra vez pode ter sido confundido com um formato avantajado de meus órgãos genitais, atraindo olhares curiosos de outras pessoas (não apenas mulheres, infelizmente).

Sentirei falta desses olhares. Paciência. Não se pode ter tudo.