Sobre aquele professor boladão

A Internet é uma ferramenta maravilhosa. Aliás, na minha modesta opinião, talvez tirando os ônibus espaciais, o LHC e aquelas máquina de fazer gelo, a Internet é a melhor invenção da história do planeta Terra.

Talvez os macacos tenham feitos coisas mais legais, ou as chinchilas, ou os golfinhos. Mas, entre os humanos, a Internet reina soberana. Talvez se os golfinhos fizessem ônibus espaciais eles teriam alguma chance, afinal a raça humana jamais teria chance contra os golfinhos do espaço.

Principalmente porque nós, humanos, responsáveis por projetar a coisa mais espetacular da história, somos as piores criaturas que a natureza já inventou. Afinal, somos capazes de utilizar a Internet em grande parte para disseminar o ódio, contaminar e destruir tudo o que parece bom.

Hoje, uma amiga me enviou um vídeo sobre um professor que ensina química ao ritmo do funk carioca. Te dou uma coxinha com catupiry se você adivinhar qual foi a reação da galera.

butthurt

Quando criança, eu tinha o sonho de ser cientista, repórter de revista de videogame ou professor. O lance de repórter ficou pra trás, mas hoje posso dizer que sou, sim, cientista (afinal trabalho de jaleco e tudo em um laboratório). Só me faltou ser professor, o que ainda espero ser um dia.

Esse desejo de ser professor bateu forte quando vi o vídeo. Não fiquei, de forma alguma, ofendido ou incomodado pelo uso do horroroso funk carioca na explicação de uma matéria tão importante quanto oxi-redução.

Mas, também, não disse que… bem, concordei com o que vi.

A Química é a mais nobre das ciências. É nada menos do que a ciência da origem da própria vida, e atrelada à física e à matemática, é a explicação de tudo o que existe. E, talvez pela sua complexidade, é uma matéria de difícil absorção.

Como disse, pretendo ser professor, mas desde hoje já sei que não vou fazer uso das técnicas do professor do vídeo. Embora o uso de musiquinhas ou acrônimos seja uma forma autêntica (e até válida) de se decorar a matéria, está longe do ideal quando se quer realmente aprender.

Ciências exatas seguem uma ordem lógica. Quando se quer REALMENTE APRENDER sobre um fenômeno, seja ele uma pequena mistura ou uma colisão entre planetas, as ciências exatas exigem que você saiba todos os envolvidos e seus respectivos papéis.

Musiquinhas e acrônimos te ajudam, sim, a lembrar o que acontece na provinha do Ensino Médio. Mas, pra quem sabe e entende o fenômeno, sabe que pra algo acontecer é necessária uma série de condições e eventos – e isso já é muito mais interessante do que decorar uma ordem direta de respostas.

Em exatas, principalmente em química, Fato X acontece porque A e B estão em condição C, que ocasiona D e produz E. Se você souber o porquê que cada um desses eventos realmente acontece, não precisa decorar uma linha sequer.

Quanto mais fundo você vai nas ciências, menos válidas essas “táticas” funcionam. Decorar fórmulas é interessante no Ensino Médio, mas para o uso em aplicações de engenharia, por exemplo, é extremamente falho. Existem equações que mudam de acordo com as condições do evento – ou seja, decorar não te levaria a lugar algum.

O professor do vídeo tem um carisma espetacular. Até eu, que gosto tanto de funk quanto gosto de ver palhaços colocando fogo em um orfanato de filhotes de labrador, fiquei com um sorriso no rosto ao ver a aula. Não dá pra negar que o cara sabe motivar a classe, e o faz com uma naturalidade absurda.

Mas, se falando em ensinar, ele é nada senão um entertainer, um palhaço de rodeio. Embora tudo o que ele tenha dito seja, de fato, verdade, todos os alunos ali estavam interessados no que o professor engraçadão ia fazer em seguida, não em entender o fenômeno químico da oxi-redução e a relação ânodo-cátodo.

Afinal, é como eu disse: em exatas, musiquinhas não funcionam.

Digo isso pois nenhum cientista na história do Universo publicou suas teorias em forma de funk carioca, ou sertanejo universitário. E também nunca ouve um MC PhD em mecânica quântica.

Ou houve, sei lá, nunca se sabe se existiu um lado boladão em MC Albert Einstein.

JÁ NAS MELHORES BARRAQUINHAS DE CAMELÔ
JÁ NAS MELHORES BARRAQUINHAS DE CAMELÔ

ESSA RELATIVIDADE
É UM BAGULHO BEM BOLADO
UM SALVE DO MANO EINSTEIN
PROS MALUCO BEM DOTADO
EU DISSE QUE A ENERGIA
É IGUAL MC AO QUADRADO

Ou então, um show de MC Newton – afinal, seria só coincidência que no funk carioca eles são fissurados em chão, chão, chão? Sabe quem gosta de chão? A GRAVIDADE. BOOM, CIÊNCIA, lide com isso.

NEWTON

A SEGUNDA LEI DE NEWTON
MOVIMENTA O BATIDÃO
DIZ QUE TUDO QUE TEM FORÇA
SEGUE UMA EQUAÇÃO
ONDE F É IGUAL A EME
VEZES A ACELERAÇÃO
É O PRINCIPIO DA DINAMICA
ABALANDO O PANCADÃO

Essas musiquinhas só servem para deixar o estudante alienado, convencido de que sabe a matéria e treinado pra passar no vestibular. Mas, na verdade, ele não vai aprender nada porque perdeu tempo ouvindo a explicação engraçadinha do professor.

O professor, aliás, se chama Silvio Predis. Não é só essa aula do vídeo que ele faz gracinhas e tal, tem várias outras. Mas não vou puxar a capivara do cara pra julgar. O maluco é sensacional, pro Ensino Médio.

E só pra isso.

Autor: Raphs

Três palavras definem bem o autor: velho mau humorado. Fisicamente, três anos a menos. Mentalmente, sessenta anos a mais.

2 comentários em “Sobre aquele professor boladão”

  1. Conservadorismo, natural pra qm teve que ralar o cu na ostra pra aprender do modo antigo.

    Acredito que, como introdução, isto pode ser útil até pro ensino superior, uma introdução descartável, mas pode ajudar.

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  2. O problema do ensino médio é justamente esse. A NECESSIDADE de se ter musiquinhas pro aluno conseguir lembrar e passar no vestibular pra virar advogado, médico ou engenheiro. O problema é a quantidade de nomes e a falta de situações da vida real. É a quantidade de equações físicas e matemáticas, a quantidade de nomes em geometria pro aluno decorar. Falta o real, o que se pode trazer e observar no dia-a-dia. Isso sim desperta interesse no aluno. Nunca vi ninguém que fizesse algum curso na faculdade por que se identificou nas aulas do ensino médio, mas, além da tríade sagrada dos cursos mais concorridos, as pessoas estudam o que interessava a elas. Eu faço letras por que ler é bom, não por que a aula de literatura me ensinou algo sobre livros (E eu descobri, na marra, que não hahahah).

    Belo texto Raphs, só não concordo com algumas coisas. Acho que o problema não são as musiquinhas, e sim o ensino médio que te faz decorar nomes, cobra muito em exatas e caga pras humanas. Pra mim, saber ler, analisar e conviver em sociedade é tão importante quanto átomos se batendo. Até mais! 🙂

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